Estado espanhol: No 24-M começou a mudança

As urnas emanam uma mensagem inequívoca: fora o PP de todas as instituições, mas o Podemos e as CUP devem ser garantes do aprofundamento da mudança, até conseguir a rutura democrática e evitar que o PSOE articule uma regeneração cosmética dos velhos andaimes. Por Manuel Garí, Viento Sur.

28 de maio 2015 - 9:08
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As urnas emanam uma mensagem inequívoca: fora o PP de todas as instituições

No domingo dia 24 de maio realizaram-se eleições nos 9.000 municípios do Estado espanhol, 13 das comunidades autónomas (exceto Andaluzia, Galiza, Catalunha e País Basco), nas diputaciones1 Arava, Bizkaia e Gipuzkoa, nos cabildos2 das sete ilhas Canárias e nos conselhos das três ilhas Baleares.

O principal dado da jornada é que o Partido Popular (PP), mesmo sendo o mais votado, com 6 milhões de votos, perdeu 2,5 milhões em relação às anteriores eleições municipais, superando somente em 400 mil votos o Partido Socialista (PSOE), que por sua vez perdeu 775 mil votos em relação às eleições locais anteriores, apesar de ter havido um importante aumento da participação. O segundo dado é que o bipartidarismo no qual assenta o modelo político do regime criado em 1978 sofreu um forte abalo, sendo que os dois maiores partidos já ultrapassam por pouco os 50% dos votos.

O terceiro elemento é a irrupção com força das Candidaturas de Unidade Popular apoiadas pelo Podemos, que conseguiram excelentes resultados em Barcelona e Madrid, mas também na cidade de Cádis e outras, ou das denominadas Marés em diversas cidades da Galiza, cujo sucesso põe em causa o monopólio da direita – da CiU, coligação conservadora de Barcelona, ou do PP no resto – nos governos das grandes cidades.

O quarto, é que os resultados do Podemos nas eleições autonómicas foram bons, pois ganhou representação na maior parte dos parlamentos autonómicos, mas ficaram abaixo das expectativas de uma parte importante da esquerda, pois no melhor dos casos só consegue ser a terceira força. Por sua vez, Cidadãos, a opção de regeneração do regime fabricada nos conselhos de administração de algumas grandes empresas, não obteve os resultados que esperava. E cabe sublinhar que a Esquerda Unida (IU) perdeu a presença em todos os parlamentos autonómicos, exceto nas Astúrias e em Aragão, o que supõe um fracasso sem precedentes recentes, pois o seu eleitorado foi absorvido pelo Podemos.

Em termos de poder político institucional, o descalabro do PP é ainda maior. O PP perde a maioria absoluta na Cantábria, em Castilla-La Mancha e nas comunidades Valenciana e de Madrid; e os seus governos em Aragão, Extremadura e Baleares não vão repetir-se. Por enquanto, mantém o poder nos da Rioja e de Múrcia e não é certo que o possa manter em Castilla León. Nas eleições municipais, com 94,5% dos votos contados em Barcelona, Ada Colau obtém 11 vereadores, à frente dos 10 da CiU, 5 de Cidadãos e 4 do Partido Socialista (PSC) que obtém os piores resultados da sua história. Em Madrid, com 99,51%, Esperança Aguirre consegue 21 edis, à frente dos 20 de Manuela Carmena, e não poderá governar porque a soma dos vereadores de esquerda é superior à dos de direita. Em Cádis, Kichi González, membro de Anticapitalistas, encabeçou a candidatura que obteve 8 vereadores, diante dos 10 de Teófila Martínez, do PP, que perde a sua maioria absoluta, o que supõe que o conjunto da esquerda tem mais vereadores que a direita pela primeira vez em duas décadas. Igualmente na Corunha e Santiago de Compostela, as Marés Atlânticas puseram em causa o poder de Feijó, o possível sucessor de Rajoy no comando do PP.

Tentando fazer uma leitura interessada, Pedro Sánchez, líder do PSOE, afirmou que os resultados "são o princípio do fim de Mariano Rajoy como presidente do Governo". O que não diz Sánchez é para onde deve caminhar o país para mudar de rumo. O seu projeto continua a ser estritamente social liberal. Não em vão o pretendente socialista a substituir Rajoy também votou a favor da reforma do artigo 135 da Constituição, que faz prevalecer o pagamento da dívida sobre os gastos sociais. Sánchez engana-se se acha que o processo volta a ser uma nova edição da alternância entre os dois partidos dinásticos. A derrota do PP é a expressão da rejeição às políticas de cortes de direitos e da democracia que levaram a maioria social trabalhadora a uma situação de empobrecimento contínuo enquanto as elites se enriqueciam. O resultado é que a sociedade espanhola é a mais desigual na União Europeia.

Nestas eleições, Podemos, e as Candidaturas de Unidade Popular (CUP) nas quais participou, consolidaram-se como ferramentas políticas para o povo se expressar, para que as classes trabalhadoras tenham uma representação política e a mudança continue a avançar. As urnas emanam uma mensagem inequívoca: fora o PP de todas as instituições, mas o Podemos e as CUP devem ser garantes do aprofundamento da mudança, até conseguir a rutura democrática e evitar que o PSOE articule uma regeneração cosmética dos velhos andaimes. Para consegui-lo, ambos agrupamentos deverão evitar que, por ação ou omissão, possa governar o PP, realizar experiências conjuntas de impulso da mobilização popular junto às organizações sociais, manter debates de tipo programático e estratégico para desenhar o futuro, e potenciar a participação ativa da cidadania nos assuntos públicos mediante a criação de novas formas de decisão popular vinculante nos âmbitos municipal e autonómico.

Tal como se propõe no Comunicado Urgente de Anticapitalistas depois do 24-M, “agora é o momento de abrir um debate massivo e democrático no movimento popular para ganhar as eleições gerais que se aproximam. Precisamos de continuar a expandir e organizar a onda de mudança, com assembleias abertas em todos os cantos do Estado. A unidade popular, uma rutura radical com a lógica de gerir a austeridade, uma aposta clara por fazer participar as pessoas em todas as decisões que estão por vir, incluída a política de pactos, são o caminho para ganhar”. Essa é a principal tarefa atual das e dos anticapitalistas no Estado espanhol.

Segunda-feira 25 de maio de 2015

Publicado em Viento Sur

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1Órgãos de governo dos territórios históricos de Arava, Bizkaia e Gipuzkoa (País Basco).

2Entidades administrativas exclusivas das Ilhas Canárias, que têm origem nos Cabildos ou conselhos de governo existentes no Antigo Regime.

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