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Chegou a primavera: reflexões de uma jornada histórica, por Pablo Iglesias

Acabou-se o inverno e chega uma primavera que nos levará a novembro. O terreno é-nos propício e à presença institucional somamos a experiência de combate. Toca a sair das trincheiras; restam poucos meses para a mudança. Artigo de Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos.

As eleições de ontem representam um momento crucial da mudança política em Espanha, sem precedentes desde a Transição (1). Há dois elementos que revelam a profundidade do processo em curso.

Em primeiro lugar, as grandes cidades representaram, uma vez mais na história do nosso país, a locomotiva da transformação política. Os resultados tanto das candidaturas de unidade popular nas quais decidimos apostar na nossa Assembleia de Vistalegre, em cidades como Madrid, Barcelona, Saragoça, Corunha, Oviedo, Compostela ou Cádis, de Compromís em Valência, bem como os resultados do Podemos nas cidades e grandes populações nas quais também se podia votar para as eleições autonómicas, são reveladores.

O Podemos ganha em Las Palmas de Grande Canaria, em Parla, em Rivas, é segunda força em Saragoça, Palma de Maiorca, Santa Cruz de Tenerife, Oviedo, Huesca, Teruel, Fuenlabrada, Gijón e Avilés.

No complexo ecossistema político de Barcelona, a candidatura encabeçada por Ada Colau ganhou as eleições num feito sem precedentes na história política catalã. O caso do município de Madrid foi insólito por demonstrar a pasokização do PSOE na capital de Espanha. Se em algum lugar o nosso apelo ao voto socialista funcionou de forma arrasadora foi em Madrid, graças a uma candidata que foi capaz de somar aos apoios consolidados do Podemos, aos de boa parte do eleitorado socialista, dicotomizando o palco eleitoral da capital.

Em segundo lugar, ainda que de maneira mais lenta do que esperávamos e desejávamos, o bipartidarismo deixou de servir para entender o sistema partidário em Espanha. O PP e o PSOE tiveram os seus piores resultados desde a Transição. Ainda que resistam bem em algumas das comunidades autónomas menos povoadas, a política espanhola deixou de ser coisa de dois partidos.

A UPyD desaparece do tabuleiro político, enquanto a Esquerda Unida experimentou o contraste entre o seu esgotamento histórico como projecto político autónomo e a emergência dos espaços de protagonismo cidadão como as candidaturas de unidade popular e o Podemos. Os Ciudadanos tiveram um bom resultado, basicamente às custas do PP, mas ficaram muito longe, tanto nos municípios como nas comunidades autónomas, das expetativas que tinha despertado entre as elites e os seus porta-vozes, que quiçá inflamaram de forma contraproducente o fenómeno laranja tratando de o colocar à nossa altura.

À falta de saber se existirão ou não eleições na Catalunha, este panorama propõe um palco inédito ao nosso país para as eleições gerais, em que a dicotomia entre continuidade ou mudança constituirá o eixo da contenda. É inquestionável que o PSOE tratará de se apontar à carroça da mudança mas não lhes será fácil; as eleições gerais concluirão, em boa medida, o ciclo político aberto pelo 15M e são o palco natural para nós.

Teremos que trabalhar muito nestes próximos meses e assumir as dificuldades de governar e chegar a acordos, mas saímos mais que vivos de um inverno em trincheiras apertadas nas quais o nosso adversário nos pensava derrotar. Foram meses difíceis em que sofremos golpes pesados, mas soubemos encará-los e enfrentá-los com sucesso nestas eleições e nas andaluzas.

Devemos, no entanto, tomar nota de algumas lições que nos deixaram tanto a campanha eleitoral como o resultado das eleições.

Por um lado, depois de termos estado à defensiva durante várias semanas, recuperamos o nosso discurso de formação que representa as classes populares e a defesa dos direitos sociais, valorizando os movimentos sociais, o que se demonstrou como nos sendo terreno favorável na disputa pela novidade ou regeneração. Aqui os Ciudadanos não podem competir connosco.

Por outro lado, a denúncia da corrupção como modelo económico e político das elites que o PP encarna, dicotomiza o palco eleitoral e situa as eleições entre continuidade e mudanças nos termos que nos interessa. Aqui é o PSOE que não pode competir connosco.

Esses dois elementos (defesa das classes populares e denúncia da corrupção como elementos inseparáveis) são o que nos permitiram ser a única força política estatal que desafiou o bipartidarismo em muitos municípios do nosso país e que ficou bem perto do segundo lugar em comunidades como Aragão (a pouco mais de 6000 votos do PSOE), Astúrias (a 14.000 votos do PP) ou Baleares (a 18.000 votos do PSOE).

Devemos tomar nota também da importância das lideranças e estilos que servem para ir além da identidade de partido. Nas eleições gerais o Podemos não pode ser um partido mas um instrumento aberto à participação e ao protagonismo de todos aqueles que apostem na mudança.

Acabou-se o inverno e chega uma primavera que nos levará a novembro. O terreno é-nos propício e à presença institucional somamos a experiência de combate. Toca a sair das trincheiras; restam poucos meses para a mudança.


(1) A Transição é o período histórico no qual a Espanha passou da ditadura franquista para o regime monárquico constitucional.

Tradução de Fabian Figueiredo para esquerda.net

Artigo publicado em Otra vuelta de tuerka

(...)

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