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Entre a guerra e o terror: uma carta da Rússia

Fomos apanhados no fogo cruzado. A política externa do nosso país é a guerra; a sua política doméstica é o terror. Ambas as coisas não nos caíram em cima subitamente. Estão em gestação há anos, desde o momento em que Putin chegou ao poder em 2000. Por Oxana Timofeeva.
Oxana Timofeeva em 2018. Foto de IvanA/Wikimedia Commons.
Oxana Timofeeva em 2018. Foto de IvanA/Wikimedia Commons.

Desde o primeiro dia da guerra, têm acontecido protestos um pouco por toda a Rússia. Estes tomaram uma variedade de formas. A principal é o “passeio” diário nas ruas. Na linguagem política russa contemporânea, as palavras gulyanie (passear) ou progulka (dar uma volta) significam protestos e concentrações.

Formalmente, apenas são permitidos piquetes individuais mas os seus participantes são habitualmente detidos logo pela polícia. Por esta razão, as pessoas muitas vezes preferem enfrentar o perigo de prisão juntas e sair às ruas ao mesmo tempo. Na manhã de 24 de fevereiro, apenas umas horas depois das forças russas terem atravessado a fronteira e entrado em território ucraniano, as pessoas perceberam que algo monstruoso e intolerável estava a acontecer. Uma após a outra, começaram a escrever nas suas redes sociais que era altura para fazer “um grande passeio”. Nesse mesmo fim de tarde, saíram às ruas com o slogan “Não à Guerra!”.

No primeiro dia foi aterrorizador. Ninguém sabia que tipo de reação esperar da polícia ou que grau de violência iriam empregar. Depois de uma semana de protestos, parece que as pessoas já não tinham medo. A situação na nossa sociedade é tão catastrófica que as pessoas compreendem que já não têm nada a perder. É por isto que muitos estão dispostos a correr o risco – perderam o medo de ir para a prisão, de perder os empregos ou toda a sua vida. Algo tem de ser feito para acabar finalmente com esta guerra pela qual sentimos culpa, vergonha, alarme e horror.

As pessoas estão a aprender segurança digital, a criar redes de solidariedade para contornar a censura oficial, as proibições e bloqueios da internet. Fazem fichas informativas para os detidos, canais no Telegram para trocarem rapidamente informação para coordenarem encontros, ajuda legal e apoio material para quem foi apanhado nas garras da polícia.

Recentemente, contudo, algumas das sanções ocidentais atingiram as coordenações dos protestos e das ações da oposição. Por exemplo, a saída da Rússia do Visa e do MasterCard significa que as pessoas já não conseguem até descarregar software VPN pago. Por outras palavras, arriscam ficar sem comunicação a qualquer momento.

Os manifestantes incluem pessoas de diferentes idades de profissões. As iniciativas estudantis e feministas merecem uma menção especial. A situação é particularmente difícil para as feministas. Foram sujeitas a repressão e bullyng antes da guerra, dado que a ideologia russa do militarismo é essencialmente patriarcal. A 6 de março, por exemplo, aconteceu a maior ação de protesto. 5.000 pessoas foram detidas e mantidas sem terem acesso a qualquer aconselhamento legal. A polícia utilizou armas de eletrochoques, apreendeu telemóveis e, em alguns casos, torturou pessoas.

Há também formas moderadas de protesto – por exemplo o “piquete silencioso”. As pessoas usam símbolos anti-guerra na sua vida quotidiana, nas suas roupas e por aí adiante. Algumas colam autocolantes ou distribuem panfletos – o que também é muito perigoso. Em alguns casos, a polícia descobre quem colou autocolantes através das câmaras de vigilância que estão agora em todo o lado.

Assim, basicamente, não desistimos mas somos poucos e até os maiores protestos de massas permanecem invisíveis para a maioria. As maiores revistas, jornais e recursos de internet que eram independentes fecharam e os meios de comunicação social do Estado são os únicos que continuam a funcionar, destilando propaganda militarista todos os dias a toda a hora. Não temos recursos suficientes para tornar o movimento russo pela paz visível no país e no estrangeiro. Precisamos de ajuda para os manifestantes sentirem que os riscos que assumiram e os esforços que fizeram não foram em vão.

Como é que a chamada intelligentsia reagiu a estes acontecimentos? Muitos estão a ir embora ou já foram. Muitos deixaram tudo para trás e simplesmente saíram do país sem destino – quem pôde foi para a Europa, muitos outros para países da ex-URSS que ainda são destinos possíveis para os aviões russos: Cazaquistão, Arménia, Uzbequistão ou países que admitam russos sem necessidade de vistos, como a Turquia. As pessoas estão a fugir da Rússia, tentando levar famílias e crianças, porque não têm ilusões sobre a possibilidade de terem um futuro no país.

A maior parte dos meus amigos já estão no estrangeiro e os seus corações estão despedaçados. Aqueles que ficam e que já não têm esperança ou força para lutar caem na depressão: alguns recorrem ao álcool, outros consideram o suicídio. Também pensei nisso. Estou preocupada com os meus amigos que viram as suas casas revistadas pela polícia; estou altamente preocupada com a minha família e amigos na Ucrânia. Sinto terror e horror direto; as minhas mãos tremem. A única coisa que ajudaria seria encontrá-los todos e tentar fazer alguma coisa.

Fomos apanhados no fogo cruzado. A política externa do nosso país é a guerra; a sua política doméstica é o terror. Ambas as coisas não nos caíram em cima subitamente mas estão em gestação há anos, desde o momento em que Putin chegou ao poder em 2000. Ele não trazia uma ideologia inequívoca, mas tinha um objetivo: manter o poder através de quaisquer meios. Para o conseguir, as ferramentas duplamente testadas foram a repressão e as operações militares. Antigos ativistas e dissidentes lembram como os combatentes das OMON, Unidades Móveis de Propósitos Especiais da Guarda Nacional da Rússia, estariam entre os que se opuseram às políticas de Putin por mais tempo. Na década de 2010, as eleições presidenciais acabaram por se tornar numa farsa – independentemente de como se votasse Putin ganharia de qualquer forma devido a fraude eleitoral massiva. A máquina de repressão política ganhou impulso; a violência policial cresceu e disseminou-se e começaram a existir novos prisioneiros políticos. O Estado também recorreu a outro meio eficaz para esmagar a divergência interna através de um sistema administrativo violento e em grande medida corrupto, nomeadamente as auto-intituladas operações militares.

Putin tornou-se o primeiro presidente na sequência da guerra na Chechénia que culminou na dominação russa do território a um custo humano massivo. Ele chegou com essa guerra. Uma política externa agressiva é o argumento ideológico mais poderoso que assegura o apoio de uma ampla camada da população. Iniciar guerras ajuda o regime a manter o seu eleitorado e mesmo que o país acabe totalmente isolado, empobrecido e destruído – e isto acontecerá muito em breve – haverá muitas pessoas que irão votar honestamente em Putin nas eleições de 2024. Foi com vista a estas eleições que a constituição russa foi emendada em 2020, tornando possível uma presidência vitalícia a Putin. Muitos na intelligentsia liberal começaram a distanciar-se das políticas de Putin em 2010 quando teve início a repressão aberta e os limites à liberdade pessoal. Mas o problema não está aí. Como escreveu uma colega no Facebook (não a vou nomear por razões de segurança) enquanto pensávamos que estávamos a combater o estalinismo, criámos um fascismo nosso.


Oxana Timofeeva é uma filósofa de São Petersburgo. Autora de Solar Politics (Polity 2022), How to Love a Homeland (Kayfa ta, 2020), History of Animals (Bloomsbury 2018), Introduction to the Erotic Philosophy of Georges Bataille (New Literary Observer, 2009).

Texto originalmente traduzido do russo por David Riff para o e-flux Notes e publicado a 16 de março. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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Neste dossier:

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