"Para travar a invasão é preciso um novo imaginário popular russo"

A imagem de um povo russo “lobotomizado” que apoiaria em massa a guerra de Putin é amplamente divulgada. Karine Clément socióloga especializada no estudo das classes populares russas nota que esta imagem é parcial, potenciada nas redes sociais por uma classe média intelectualizada sem ouvir verdadeiramente o que estas pensam.

13 de abril 2022 - 21:53
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Moscovo. Foto de Sergei F/Flickr.

Tudo o que ouço em todo o lado são exclamações chocantes contra "aquele povo", o povo russo lobotomizado que apoiaria massivamente a guerra e as ações criminosas de Putin. Li isto na escrita dos jornalistas franceses e também o vejo com demasiada frequência nas palavras de muitos russos corajosos que ainda são abertamente contra a guerra nas redes sociais. Dizem-nos que a sociedade russa está sob o domínio da propaganda pró-guerra, que há muito que foi despolitizada pelo regime autoritário de Putin, que as forças da oposição foram exterminadas, exceto por uma fina camada de rebeldes que agora, na sua maioria, têm de fugir do país.

É bem possível que esta visão unilateral corresponda pelo menos a uma parte da realidade. Mas pode muito bem ser que não tenhamos ideia do que se passa nas profundezas da sociedade russa, profundezas sociais que nunca foram realmente sondadas, nem sequer concentraram realmente a atenção de analistas, investigadores e políticos. Qualquer que seja o país em consideração, as classes trabalhadoras são sempre contadas como o resto, o não essencial. Mas a Rússia, que se baseia no mito da "grande cultura russa" e no subdesenvolvimento dos seus "mujiques", elevou o desprezo social pelo seu povo a um nível que é difícil de igualar. E se os "mujiques" precisassem simplesmente de ser apoiados na articulação do seu discurso crítico e na sua vontade de protesto? Em qualquer caso, a sobrevivência da sociedade russa de hoje depende fundamentalmente das classes médias educadas e dissidentes encontrarem formas de se reconetarem com as classes trabalhadoras.

Pois, lembremo-nos, a Rússia é antes de mais as suas classes populares (operários, trabalhadores e pequenos empresários) que ganham a sua vida mais ou menos precária. E constituem a maioria absoluta da população. São também estas classes sociais que fornecem a maior parte dos soldados enviados para a Ucrânia, seja pelo engano, pela força, pela necessidade de alimentar as suas famílias ou por convicção. No entanto, é destas classes que menos ouvimos falar, especialmente porque dificilmente se expressam, pelo menos não numa voz claramente audível e reconhecível.

E sobre elas que os meus últimos inquéritos, que datam de 2018, registaram a sua solidificação, a sua emergência enquanto comunidade social consciente de si mesma, uma mudança que não deve ser subestimada por quem sabe quanto as classes populares, e a classe operária em primeiro lugar, foram abusadas pelas reformas capitalistas ultra-liberais e pelo feroz anti-comunismo dos anos 90 que se seguiram à queda do Muro de Berlim [1]. Um lembrete: a classe trabalhadora foi então destruída, o desenrascanço e o cada um por si tornou-se lei, a miséria e o desalento vergaram as costas de milhões de pessoas que, com a privatização ou o encerramento da sua fábrica ou mina, o deslocamento da URSS e a mudança radical do discurso dominante, perderam toda a confiança, todos os pontos de referência e até todas as raízes de uma qualquer realidade social decifrável.

Ninguém, ou quase ninguém, se diz operário. Ninguém, ou quase ninguém, se reconhecia em qualquer comunidade social, quer fosse o operariado, a comunidade nacional ou outra. A maioria auto-humilhavam-se, comparando-se a "parafusos manobrados num mecanismo desumano", a "gado" ou "escravos".

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Em comparação, os anos 2000 e 2010 ofereceram um quadro muito diferente. Houve certamente o estabelecimento do regime autoritário de Putin, houve certamente o encerramento do espaço público dos meios de comunicação social (ainda que as vozes da classe trabalhadora já estivessem ausentes deste espaço dominado pela oligarquia de Yeltsin nos anos 90), mas houve também a melhoria real das condições de vida, a estabilização social que permitiu que muitas pessoas recuperassem a sua posição e se reconciliassem com a sua experiência de vida. Houve também um discurso populista Putinista intermitente que, embora caricaturando a classe operária, pelo menos, a trouxe de volta à esfera mediática.

Finalmente, há o discurso patriótico de Putin que, ao contrário dos objetivos do Kremlin, politizou a sociedade e, paradoxalmente, inscreveu a comunidade nacional como um objeto político que permite até a dissidência. E, de facto, a partir de meados dos anos 2000, houve uma multiplicação das mobilizações de base, locais, e sobre questões sociais, ecológicas e laborais, o que testemunhou a expansão da capacidade de auto-organização em todo o país. As consciências também evoluiam, a sociedade reestruturava-se – apesar ou talvez mesmo graças ao autoritarismo nacionalista do Kremlin. Em qualquer caso, o vasto inquérito que dirigi nos anos 2016-2018 [2] permitiu a identificação clara de três grupos sociais.

O primeiro, não era o mais massivo e era composto principalmente por pessoas com uma trajetória social ascendente: os conformistas, para quem o importante era poder projetar-se numa grande "comunidade nacional una e unida". Esta categoria aprovava amplamente a propaganda patriótica e depositava massivamente a sua fé em Putin.

O segundo grupo era constituído por pessoas que se definiam principalmente pelas suas qualidades intelectuais ou morais e se identificavam com a elite intelectual, em oposição à "massa de pobres ignorantes". Este grupo de intelectualizantes ou moralisantes, embora partilhando o mesmo desprezo social pelas classes populares, dividia-se em dois campos diametralmente opostos: um pró-Putin e apoiando o projeto patriótico do Kremlin que orquestra o renascimento da "grande cultura russa", o outro anti-Putin e rejeitando qualquer apego a uma nação considerada "merdosa".

Finalmente, o terceiro grupo, o maior, o das classes populares que se projetavam numa grande comunidade, a do "povo trabalhador e pobre" e que se via como solidária numa crítica às desigualdades sociais e à exploração da maioria por uma minoria de oligarcas protegidos pelas autoridades, sob as trombetas de um falso patriotismo.

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Não retomo aqui a distinção entre estes três grupos para me comprazer com um exercício de classificação académica mas para destacar a estruturação social que tinha emergido das convulsões pós-comunistas e que tomou a forma de divisões claras entre a burguesia ou os aspirantes à burguesia, as classes médias educadas com uma perspetiva elitista e as classes populares. Embora se saiba algo sobre os dois primeiros grupos, há muito pouca informação sobre o que está a acontecer às classes trabalhadoras agora que a Rússia está envolvida na guerra na Ucrânia.

O primeiro grupo dedica-se, sem dúvida, de alma e coração, ao apoio à operação militar de Putin, enquanto outra parte deixou a Rússia para manter um nível de vida ameaçado pelas sanções. O segundo grupo, aquele cujas vozes animam mais as redes sociais, está dividido entre pró e anti-guerra, aqueles que exibem a sua "vergonha" de serem russos contra aqueles que dizem estar mais orgulhosos do que nunca. São as opiniões dos representantes destas classes médias instruídas que são traduzidas nos meios de comunicação. São estes mesmos representantes que se opõem à guerra e que se encontram, na sua maioria, a fugir da Rússia. E são estas vozes que denunciam o imoralismo da sociedade russa, a sua passividade, a sua lobotomização, a facilidade com que adere à propaganda pró-guerra do Kremlin.

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Apoio obviamente os colegas forçados a deixar tudo para trás, respeito a sua firmeza moral e a sua coragem. Lamento, contudo, que mais uma vez, como nos anos 90, as classes médias educadas, na sua auto-identificação elitista, estejam a transmitir a mesma imagem distorcida e degradante das classes populares, "aquela gente", que são, no entanto, a maioria das pessoas na Rússia. Parece-me absolutamente necessário, tal como Jonathan Littell expressa maravilhosamente na sua "Carta aos meus amigos russos"[3], que aqueles que se veem a si próprios como elites intelectuais e morais, tentem pelo menos ouvir e compreender as classes populares. Nenhum derrube do regime, nenhuma verdadeira democratização pode ser alcançada sem a adesão e a participação ativa destes.

Ora estes são capazes de mobilização como já demonstraram em muitas ocasiões. Mencionemos, como exemplos, as mobilizações de centenas de milhares de pessoas contra a chamada reforma da "monetarização das prestações sociais" em 2005; as mobilizações massivas e duradouras de certas regiões em defesa da sua autonomia contra a "arbitrariedade de Moscovo" (Kaliningrado, em 2010, Khabarovsk, em 2020), as rebeliões populares em cidades mono-industriais (Pikalevo e outras, em 2009), o movimento contra a reforma das pensões (2008), as mobilizações ambientais (nomeadamente em Shies, em 2019-2020, contra um aterro sanitário para os resíduos de Moscovo).

Então o problema não é a capacidade de auto-organização. O problema é a agenda: o desafio é lutar para que a nossa gente, a gente pequena como nós, melhore igualmente, ou então seremos, mais uma vez, vítimas de lutas que nos ultrapassam e cujos meandros não controlamos? O problema é também a desconfiança aguda sentida em relação à oposição liberal ou mesmo às elites de todos os lados, que são vistas como desdenhosas e não partilham nada da experiência da vida real das "classes trabalhadoras". Finalmente, o problema reside no que distingue as classes populares russas das suas congéneres ocidentais, a saber, um forte sentimento de impotência quando se trata de questões de poder político nacional: o que podemos fazer em relação à oligarquia, quando "eles" têm "o dinheiro", "a polícia e o exército"?

Este sentimento de impotência incrustado no corpo não se desvaneceu, apesar das numerosas mobilizações vitoriosas (mas pouco mediatizadas). Até se reforçou à medida que as classes populares começaram a tomar consciência das repressões políticas, nomeadamente a partir de 2021 e da prisão de Alexeï Navalny. A guerra e a atmosfera de vigilância geral, o controle do território pelas forças da ordem, assim como a imagem produzida pelos meios de comunicação social da unanimidade em torno de Putin, incitam ainda mais a guardar para si as suas dúvidas e perguntas.

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Isto significa que as classes populares são contra a guerra? Nada o permite afirmar, dada a informação limitada disponível. Os críticos do apoio maioritário das classes mais baixas à guerra contentam-se a maior parte das vezes com sondagens (em tempos de guerra e censura!), discussões fragmentárias com familiares ou comentários recolhidos no cabeleireiro ou no táxi... Da minha experiência de investigação, o que posso supor?

Estaria tentada a argumentar que as classes trabalhadoras, inclinadas a desconfiar da propaganda e das palavras enganosas, não se deixaram facilmente enganar pela propaganda pró-guerra (os russos estariam a salvar "os seus" das garras dos "nazis" nas regiões de língua russa da Ucrânia). E talvez as classes trabalhadoras estejam a manter uma cabeça fria e uma distância irónica. No entanto, um elemento introduz a dúvida: a propaganda era denunciada como falsa sobretudo quando podia ser refutada por dados experimentais, pela experiência de vida, quando era confrontada com uma narrativa alternativa, articulada em discussões informais, anedotas, conivências, com a certeza de ser reforçada na sua crítica pelo eco de aprovação que emanava da comunidade imaginária de um "pequeno povo".

Mas como se pode experienciar uma guerra que não está a ter lugar no seu espaço imediato e sobre a qual a informação ultra-contraditória chega até nós através de canais pouco seguros? E como se pode ter a certeza de partilhar a mesma distância crítica com uma comunidade imaginária que já não sabemos como pensa por falta de uma narrativa alternativa comprovada e sem dúvida por falta de liberdade de expressão, mesmo em espaços informais. Será que as classes populares se sentem tentadas a confiar na versão televisiva, por falta de algo melhor? Agarrar-se ao que é apresentado como a opinião geral? Isto é sem dúvida, pelo menos em parte, o que está a acontecer agora.

Sem a guerra, diria que as classes trabalhadoras tinham a capacidade de construir em conjunto uma contra-narrativa do que está a acontecer, uma narrativa de ironia subversiva e desrespeitosa, que apresentaria a guerra como mais uma ilustração dos erros dos poderosos deste mundo, contra os mais pequenos que pagam sempre pelas suas ambições e assim uma narrativa que poderia englobar “os pequenos” ucranianos na comunidade imaginária das vítimas da história. Mas será que ainda existe um mundo comum imaginário do povo pequeno? Não serão instáveis as fundações sobre as quais este foi construído (interações sensíveis, autoconfiança, a re-habitação do seu espaço de vida)?

Sem a guerra, diria que as classes populares desconfiam por princípio dos desígnios humanistas dos dirigentes e poderosos, suspeitos a priori de servir sobretudo os seus próprios interesses. Mas uma ofensiva mortífera contra um país irmão, vizinho, com a mesma cultura, ultrapassa todos os limites do cinismo atribuído aos oligarcas.

Assim, parece provável que uma grande parte das classes populares se veja de novo perdida no caos e na ausência de pontos de referência, o que se traduz numa atitude de espera, numa negação mais ou menos ativa, numa postura defensiva ou de retirada. Isto não é apoio à guerra, nem a Putin, mas também não é apoio à oposição.

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Como pode esta situação evoluir?

Seria preciso que uma narrativa alternativa se tornasse audível e entrasse em ressonância com as formas de ver dos meios populares. Isto poderia emergir de mobilizações reais e de lutas comuns, nomeadamente quando as sanções e a deterioração das condições de vida forem sentidas mais de perto na experiência de vida. Poderá esta nascer das classes médias instruídas que se insurgem contra a guerra? Só se não forem vistas como provenientes das elites que desprezam a sua população. Em qualquer caso, uma contra-narrativa expressa exclusivamente por uma minoria no exílio não teria qualquer repercussão. Alexei Navalny conseguiu mostrar-se como um adversário sério preocupado com o destino da Rússia precisamente por ter assumido o risco de regressar ao país.

Seria preciso choque sensível o mais próximo possível da experiência de vida. Este choque pode muito bem vir da chegada dos caixões dos soldados russos mortos na guerra, especialmente porque estes soldados, alistados ou forçados a alistar-se, são provenientes em massa das classes populares.

Em qualquer caso, não se pode excluir uma súbita inversão de opinião, bem como protestos massivos. O que pode ser excluído, por sua vez, é uma tomada de posição baseada em valores morais ou políticos abstratos. Toda a experiência das classes populares ensinou-lhes a desconfiar das lições de moral e das grandes palavras de ordem democráticas, em particular se forem vistas como emanando do Ocidente ou duma elite liberal pró-ocidental, pois os anos 90 ensinaram-lhes como os "valores democráticos e humanistas" podem ser virados contra si e resultar no seu empobrecimento e subjugação.

A classe média educada e progressista pode desempenhar um papel ao desencadear uma dinâmica de protesto. A parada está alta: não se trata apenas de parar a guerra e garantir a soberania ucraniana, mas também de evitar a aniquilação da sociedade russa, o mergulho numa dinâmica de desalento, empobrecimento, atomização, apatia e anomia ainda mais destrutiva do que na década de 1990. Para responder ao desafio é absolutamente necessário que parte desta classe média rompa com o seu elitismo e desprezo social, que renove um diálogo confiante e empático com as classes populares e que participe com elas na elaboração de um novo imaginário que permita sair da crise, de rutura com o regime de Putin, de verdadeira democratização e redistribuição da riqueza.


Karine Clément é socióloga e investigadora no CERCEC (Centre d'études des Mondes Russe, Caucasien & Centre-Européen) e no CRESPPA (UMR CNRS-Université Paris 8 Saint-Denis-Université Paris Ouest Nanterre - Université Paris Lumières – UPL). Viveu durante muito tempo na Rússia onde fez parte do Instituto de Sociologia da Academia, foi fundadora do Instituto de Ação Coletiva e diretora do “Centro Andrew Gagarin de estudo da sociedade civil e dos direitos humanos da Faculdade de Artes Liberais e Ciências da Universidade de Estado de São Petersburgo.

 

Publicado originalmente no A L’Encontre. Traduzido por António José André para o Esquerda.net

 

Notas

[1] Ver sobre este assunto: K. Clément, "Les ouvriers russes dans la tourmente du marché. 1989-1999: destruction d'un groupe social et remobilisations collectives" (Paris, Syllepse, 2000) e M. Burawoy, "The great involution: Russia's response to the market" (1999).

[2] K. Clément, "Contestation sociale "à bas bruit" en Russie: critiques sociales ordinaires et nationalismes" (Paris, Ed. du Croquant, 2022).

[3] Le Monde, 29/03/2022.

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