Greg Yudin: “A falta de organização é desmoralizante”

Nesta entrevista, o filósofo e sociólogo espancado pela polícia e hospitalizado durante os protestos no início da guerra afirma que a Rússia caminha na direção de um Estado totalitário e que Putin agiu no sentido de destruir todas as redes políticas da sociedade civil antes do início da invasão.

09 de abril 2022 - 18:21
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Greg Yudin é filósofo e sociólogo na Escola de Ciências Sociais e Económicas de Moscovo. Dois dias antes do início da invasão russa da Ucrânia, ele antecipou exatamente o que iria acontecer, num artigo para o Open Democracy Democracia (22 de fevereiro de 2022). Greg Yudin ainda está em Moscovo; numa manifestação nos dias após o início da guerra, foi espancado pelas forças de segurança ao ponto de ser hospitalizado. Greg Yudin há muito que adverte que as pretensões agressivas de Putin ao poder tornam cada vez mais provável um confronto militar com a NATO. Nesta entrevista, descreve os mecanismos de poder por detrás do sistema de Putin, a rápida transformação da sociedade russa numa ordem pré-fascista e as perspetivas do movimento antiguerra.


Dois dias antes do início oficial da guerra, foi um dos poucos intelectuais a advertir contra uma guerra desta magnitude. Enquanto muitos da esquerda ainda pensavam que se tratava da anexação de Donbass, o senhor previu uma guerra que se centraria em Kiev, Kharkiv e Odessa. Como chegou a esta previsão?

Há dois anos que aviso sobre esta guerra, mas não fui o único a vê-la chegar. As pessoas que investigam a política russa também têm vindo a alertar há muito tempo, e mais tarde os especialistas militares russos também fizeram soar o alarme. Mas muitos outros especialistas negaram ou até ridicularizaram o risco real de uma grande guerra, não porque fossem incompetentes, mas porque se baseavam em falsas suposições. Infelizmente, não parecem ter aprendido, porque hoje descartam uma escalada nuclear com a mesma convicção. Partem das mesmas falsas premissas.

O principal erro foi assumir que após a invasão da Ucrânia, a situação de Putin estaria definitivamente pior do que antes e que isto influenciaria o seu pensamento. Putin comparou, contudo, o custo de uma guerra com o custo da inação. Era bastante claro para ele que se não começasse agora esta operação militar, depressa se encontraria numa situação sem saída.

A Rússia é hoje um regime Bonapartista, muito semelhante ao regime francês de 1848-1870 descrito por Marx, mas também à Alemanha entre as guerras. Baseia-se em eleições, aproveitando a introdução repentina do sufrágio universal, e - após uma grande derrota (no caso da Rússia, após a Guerra Fria) - agita agressivamente o ressentimento e o revanchismo na sociedade. Tais regimes, liderados por um líder com poderes quase ilimitados, tendem a degenerar em monarquias eleitorais que sufocam todas as contradições internas e são hostis para com os seus vizinhos. São economicamente estáveis, o que os ajuda a despolitizar as massas. O acordo é: passividade política absoluta em troca de prosperidade relativa; encoraja-se assim a retirada para a vida privada. Tudo isto leva-os a tornarem-se cada vez mais agressivos militarmente, a deslocarem os conflitos internos para o exterior, a sobrestimarem as ameaças externas e, por conseguinte, a antagonizarem poderosas alianças militares. São movidos por tendências suicidas e dirigem-se inevitavelmente para a derrota - mas a derrota tem um preço elevado, especialmente agora, na era nuclear.

Depois de Putin ter transformado a Rússia numa quase-monarquia com o seu referendo constitucional em 2020 e, além disso, ter tentado assassinar o seu único adversário político, Alexei Navalny, ficou claro para mim que ele planeava uma grande guerra. Putin considera extremamente ameaçadora a existência de um grande Estado vizinho, culturalmente semelhante, com um regime político apoiado militarmente pelos EUA. Era óbvio que começaria uma guerra para tomar a Ucrânia se não conseguisse subjugá-la pacificamente. Para Putin, nenhum preço é demasiado elevado para assumir o controlo da Ucrânia, pois ele próprio se vê ameaçado existencialmente nas suas fronteiras pelo que ele chama de "anti-Rússia". A isto acresce o facto de Putin estar a enfrentar um declínio na popularidade no seu próprio país, especialmente entre os jovens, e provavelmente teria sido confrontado com um movimento de resistência muito rapidamente. Ele tinha de se assegurar de que poderia reprimi-los a todo o custo.

O que pode dizer sobre a repressão e as perspetivas do movimento anti-guerra?

O movimento anti-guerra conseguiu destacar uma divisão na sociedade russa. As pessoas que protestaram nas ruas ou fizeram declarações públicas contra a guerra mostraram claramente que existe uma parte significativa da sociedade russa que rejeita esta guerra e a vê não só como um crime contra a Ucrânia, mas também como uma traição aos interesses da Rússia. Nos primeiros tempos, quando as sondagens de opinião ainda tinham algum significado (que já não têm quando se arrisca até 15 anos na prisão simplesmente por chamar a esta "operação especial" uma guerra), o seu tom era que até 25% dos russos eram contra a ação militar. Isto é um sucesso considerável.

Mas os protestos esmoreceram. Não é só a repressão que os está a impedir, mas sobretudo a falta de organização. Putin teve a inteligência de destruir todas as organizações e redes políticas e da sociedade civil antes de iniciar a guerra. É incrivelmente difícil organizar-se aqui. É-se imediatamente detido pela polícia ou espancado por bandidos a soldo do Estado. A falta de organização é desmoralizante. As pessoas estão dispostas a arriscar as suas vidas apesar das novas leis e do aumento da violência policial. Mas é difícil fazer isso quando não se vê qualquer possibilidade de conseguir nada. Putin triunfa sempre ao espalhar o desespero e a sensação de impotência.

Numa entrevista com Robin Celikates para o taz (Die Tageszeitung), comparou a situação atual com a de 1938, quando a Alemanha anexou a o país dos Sudetas (Sudetenland). Esta comparação é muito controversa, pois serve uma narrativa que coloca Putin na mesma linha de Hitler, enquanto George Bush nunca foi descrito da mesma forma quando invadiu o Iraque e matou centenas de milhares de pessoas.

A comparação com Hitler foi infeliz durante muitos anos, e eu nunca a apoiei. Pretendia-se principalmente assustar o público, equiparando Putin a um mal radical. No entanto Putin estava muito mais próximo de Napoleão III ou talvez de Franco, se se quisesse enfatizar a sua falta de escrúpulos. Isto não quer dizer que ele "não era suficientemente mau", mas sim que era um tipo diferente de regime autoritário repressivo.

Mas hoje a situação mudou, e não tenho a certeza de que isto seja suficientemente compreendido fora da Rússia. Estamos agora a assistir a uma evolução do autoritarismo para um regime totalitário. É uma questão de como a sociedade está estruturada politicamente e em que é que o poder se baseia. Por outras palavras, não se trata de uma questão de quantidade, mas de qualidade. E sim, a este respeito, especialmente nos últimos dias e semanas, há muito mais em comum com o que é classicamente chamado fascismo.

Na Alemanha, temos uma conceptualização muito rigorosa do fascismo e do nacional-socialismo, este último sempre ligado ao antisemitismo eliminationista. Intelectuais na Alemanha como Felix Jaitner analisam o regime de Putin com o conceito de "bonapartismo" de Marx e Poulantzas, algo entre a ditadura militar e o fascismo.

A obsessão com a essência da nação ucraniana e a sua correspondência com a nação russa é o que se destaca como um elemento particularmente nazi e não apenas fascista. Como prova anedótica, eu acrescentaria que há muito que existem muitos admiradores de Mussolini entre as elites russas. Recomendo também que se veja o artigo de Putin em National Interest, 18 de Junho de 2020, no qual ele explica as causas da Segunda Guerra Mundial. É revelador ver quantas vezes neste artigo ele culpa a Polónia por esta guerra, em oposição à Alemanha. No que diz respeito ao antisemitismo, não vejo agora qualquer elemento anti-semita no regime. Mas há muito antisemitismo tácito na Rússia, especialmente nos serviços secretos, que agora são os mais poderosos.

Vê o movimento Z como um indicador da mudança qualitativa descrita para o fascismo?

O sinal Z foi utilizado por veículos militares russos na Ucrânia (os veículos pertencentes ao distrito militar ocidental são marcados com o sinal Z devido à palavra russa "Zapad" que significa ocidental). Tem sido promovido por propagandistas estatais, que certamente se apercebem que se parece com uma meia suástica. Algumas pessoas mais velhas ficaram completamente horrorizadas com este sinal, que as recordou imediatamente da sua infância. O sinal Z encontra-se agora pintado nas portas dos opositores de guerra, frequentemente acompanhado de ameaças, indicando que existe um grupo de nazis entre os siloviki (membros do aparelho de segurança) que agora têm luz verde para fazer tais coisas.

Ainda mais assustadores são os sinais Z que as pessoas estão a formar com os seus corpos por toda a Rússia. Não só os funcionários, mas também as crianças nas escolas e infantários são convidados a reunir-se em forma de Z e a saudar Putin. À vista de um tal "Z", formado por crianças com doenças incuráveis ou por crianças pequenas ajoelhadas, é difícil não pensar na Alemanha nazi.

Outra dinâmica preocupante é a propaganda aberta em instituições de ensino, desde universidades a jardins-de-infância. A visão de Putin da história ucraniana está agora a ser espetada na cabeça das crianças. Isto nunca aconteceu antes: apesar de alguns desenvolvimentos preocupantes no ensino da história, nunca houve necessidade de partilhar o juízo histórico oficial, quanto mais as teorias ilusórias de Putin.

A mobilização fascista da sociedade está acima de tudo ao nível do simbolismo político?

A esta panorâmica temos de acrescentar o desencadeamento da violência. Desde o início das manifestações anti-guerra, já existem amplas provas de espancamentos, torturas e agressões sexuais nas esquadras de polícia. A violência policial não é certamente nova na Rússia, mas pode estar a atingir um novo nível. Além disso, há um ataque maciço contra os meios de comunicação social independentes na Rússia. A última revista independente, Novaya Gazeta, cujo editor foi galardoado com o Prémio Nobel no ano passado, acaba de ser encerrada, de modo que quase não restam meios de comunicação independentes. Os que permanecem não são acessíveis a partir da Rússia e são oficialmente rotulados ou "agentes estrangeiros" ou "organizações extremistas". [A entrevista em vídeo com o editor da Novaya Gazeta Dmitry Muratov, realizada a 7 de Março de 2022 com legendas em inglês ou italiano, está disponível para visualização].

O elemento mais preocupante deste novo sistema potencialmente totalitário é a viragem ideológica que Putin tomou desde os primeiros dias da guerra: a sua nova narrativa sobre a "desnazificação" da Ucrânia. A acusação de que as autoridades ucranianas apoiam a extrema-direita tem sido difundida no discurso oficial russo há já algum tempo - e não é totalmente infundada. Em fevereiro, porém, foi transformada em retórica essencialista, segundo a qual a essência ucraniana, de natureza russa, foi contaminada por um elemento nacional-socialista. É portanto o dever do exército russo libertar a Ucrânia deste elemento nazi. O Ministério da Defesa russo já está a falar da implementação de "operações de limpeza" nos territórios ocupados. E como os ucranianos teimam em resistir, a única explicação é que eles eram ainda mais "nazis" do que o esperado, o que pode facilmente levar à conclusão de que merecem ser exterminados. A mesma narrativa de "pureza" foi utilizada por Putin há apenas alguns dias, quando falou do "inimigo interno", os chamados "traidores do povo" que deveriam ser "cuspidos como um inseto" pela sociedade russa, a fim de preservar a saúde da sociedade.

É possível fazer declarações sobre a escala do movimento Z?

Depende de como o define. O número de pessoas que participaram em "instalações" públicas de corpos, que usam o sinal Z, que o exibem nos seus carros ou o utilizam em redes sociais é enorme. Estimo que poderia situar-se entre 30 e 40% em todos os sectores da sociedade. Mas não é rigoroso referir-se a todos eles como um só movimento. Muitos foram forçados pelos seus empregadores - muitas vezes públicos - a exibir este sinal. Muitos não estão contentes, mas já ouvi pessoas dizerem: "Farei tudo o que me pedirem se isso salvar o meu emprego". Quem o faz voluntariamente é uma fatia muito menor. Alguns, no entanto, são realmente agressivos.

Sejamos claros: é precisamente aqui que reside a linha entre o bom velho autoritarismo putinista e um novo tipo de Estado totalitário. Enquanto este movimento for principalmente orquestrado contra a vontade do povo, a transformação política ainda não está completa. Mas a passividade das massas é realmente ilimitada, elas podem facilmente ser transformadas numa multidão agressiva.

Vimos que os preços das ações caíram 40% numa quinzena, mas o rublo já recuperou desde meados de março. Quanto tempo pode funcionar uma economia de guerra na Rússia? As consequências sociais da recessão económica não irão conduzir a um descontentamento generalizado?

Putin não vai ficar à espera até que a crise seja tão grave que os russos se virem contra ele. Ele está bem consciente do risco e, portanto, muito provavelmente tentará culpar os "traidores" que estão a agir em concertação com o Ocidente para prejudicar a Rússia. Mas se, por alguma razão, Putin não desencadear o terror e perder a iniciativa, é provável que alguns sectores da sociedade, agora mais afetados pela crise, se unam com as elites contra ele. Isto pode acontecer relativamente depressa.

Qual é a base do poder económico de Putin? Existe uma divisão dentro das elites económicas entre pró e antiguerra?

Putin foi capaz de construir uma economia neo-liberal forte e robusta, aderindo ao modelo de mercado desenfreado dos anos 1990. De facto, os liberais que estiveram no poder sob o jugo de Ieltsin continuam a dirigir a economia sob Putin, incluindo Elvira Nabiullina, a chefe do Banco Central da Rússia [desde Junho de 2013]. Este sistema neoliberal tem algumas peculiaridades, tais como a mistura de empresas privadas e públicas como a Gazprom ou a Rosneft, que teoricamente pertencem ao Estado mas cujas receitas, na realidade, aterram nos bolsos dos cúmplices de Putin. Este modelo permitiu um crescimento económico impressionante durante a primeira década de Putin no poder e uma relativa resistência às sanções estrangeiras na segunda década.

No entanto, o crescimento conduziu a enormes desigualdades. Hoje, a Rússia é um dos países mais desiguais do mundo, quase a rivalizar com os EUA a este respeito. Em 2019, 58% da riqueza pertencia a 1% da população, e os 10% mais ricos possuíam 83% da riqueza total, segundo o Credit Suisse. Ao mesmo tempo, Putin criou um sistema de "trickle-down" semelhante ao criado por Ronald Reagan no seu tempo. Enquanto as elites se tornaram insanamente ricas e compraram iates e palácios de luxo, a população foi capaz de aumentar o seu nível de vida através de hipotecas e crédito ao consumo. A Rússia tem uma dívida privada desproporcionada, com uma proporção significativa das famílias mais pobres a gastar metade dos seus rendimentos em pagamentos de juros a bancos ou organizações de microfinanças [daí o impacto social do aumento das taxas de juro].

Os oligarcas de Putin podem ser divididos em dois grupos. Alguns deles são os seus amigos de longa data do KGB. Partilham a sua visão imperialista do mundo e provavelmente ajudaram a empurrá-lo para esta guerra. Outro grupo são as pessoas que se tornaram super-ricas nos anos 1990 e que conseguiram manter e aumentar a sua riqueza sob Putin. Eles estão claramente descontentes com esta guerra, e alguns até o dizem publicamente, embora subtilmente.

No entanto, tanto os super-ricos como os tecnocratas no topo da economia russa são completamente desprovidos de qualquer "sensibilidade política". Putin fê-los jurar nunca se meterem na política e eles não ousam questionar as suas decisões. Têm medo dele e aceitam que esta guerra é o destino que irão partilhar com o seu país. De acordo com vários relatórios, Elvira Nabiullina quis demitir-se após o início da guerra, mas Putin ameaçou a sua família e obrigou-a a ficar. No fundo, estas pessoas sentem-se muito confortáveis na sua situação de reféns.

Quando escrevemos um ao outro antes da entrevista, disse-me que o próximo passo de Putin seria invadir a Polónia. Se isso acontecer, há duas possibilidades: ou os EUA/NATO deixarão Putin controlar a Europa de Leste, ou muito provavelmente iremos para uma terceira guerra mundial. Ainda acho difícil imaginar tal cenário, uma vez que as forças militares da NATO parecem ser superiores às da Rússia.

O objetivo de Putin não é fazer guerra à Ucrânia ou à Polónia. Para ele, estes países não existem ou são apenas marionetas dos Estados Unidos. Aos olhos do comando militar russo, a guerra é uma guerra defensiva contra os EUA/NATO/Ocidente, sendo estes termos utilizados como sinónimos. O território ucraniano é apenas o primeiro passo nesta grande guerra. As tropas russas na Transnístria já estão mobilizadas e à espera de se juntarem ao exército russo se este tomar Odessa, o que significaria que seria possível uma invasão da República da Moldávia. Os Estados Bálticos e a Polónia são certamente objetivos a médio prazo. Não é coincidência que Putin tenha exigido a retirada completa das tropas da NATO dos países do antigo Pacto de Varsóvia.

A sua estratégia militar é simples: ameaçar com armas nucleares e conquistar território. Ele vê o Ocidente como fundamentalmente fraco, corrupto e cobarde. Esta atitude é extremamente popular na Rússia, e Putin reforça-a. Há uma profunda convicção na Rússia de que o Ocidente nunca arriscará um conflito nuclear com a Rússia por causa de um país do Leste, seja a Ucrânia ou a Polónia. O que estamos a viver na Ucrânia confirma a sua opinião: a menção de Putin a um conflito nuclear é suficiente para fazer com que a Europa Ocidental questione a sua vontade de ajudar a Ucrânia.

Putin acredita também que tem atualmente uma certa vantagem militar sobre os Estados Unidos em termos de armas hipersónicas. Ele provavelmente pensa que isto seria suficiente para dissuadir os EUA de um possível confronto nuclear. Os militares russos já utilizaram mísseis hipersónicos na Ucrânia, de acordo com as suas próprias palavras, sem qualquer necessidade militar. Isto soa como uma mensagem para o Ocidente. O que é importante é que Putin repetiu que esta vantagem não duraria muito tempo, uma vez que os EUA em breve recuperariam o atraso. Isto significa que ele deve agora capitalizar sobre esta situação.

Como pode a esquerda na Alemanha apoiar a esquerda na Ucrânia e na Rússia nas suas lutas atuais?

Honestamente, penso que o mundo está em grande perigo. Conhecemos este monstro por dentro, e temos poucas ilusões de que ele irá parar por si só. A esquerda tem a vantagem de conhecer a importância dos movimentos internacionais durante as grandes guerras. É por isso que se deve opor à compreensão deste conflito em termos de Estado-nação, uma vez que isso só reforçaria os Estados e enfraqueceria ainda mais o povo. Só a solidariedade internacional pode pôr fim a este monstro. E deve ser parado agora, antes que seja demasiado tarde.

Uma medida importante seria visar o dinheiro dos super-ricos. A guerra mostrou claramente que o capital enlouquece quando não é controlado. O sucesso de Putin em corromper as elites políticas e económicas do mundo baseia-se no seu conhecimento de que a ganância e o interesse próprio são as pedras angulares do capitalismo. Ele acredita firmemente que o dinheiro pode comprar qualquer coisa. Ele sabe que a democracia liberal é uma hipocrisia. Putin é um ultra-neoliberal, ele quebrou toda a solidariedade na Rússia e substituiu-a por um cinismo desenfreado. É por isso que é certo que ninguém vai realmente frustrar os seus planos militares e que todas as sanções acabarão por ser levantadas, porque o capital só está interessado no seu próprio lucro. Existem provas suficientes disto, e a política russa de Angela Merkel é um exemplo perfeito de como a ganância domina o poder político no capitalismo.

Há finalmente uma oportunidade de colocar estas enormes fortunas sob controlo democrático. Agora que esta janela de oportunidade existe, não devemos permitir que o pessoal de Putin se safe e esconda o seu dinheiro. Devemos tomar medidas contra todas as pessoas de outros países que tenham sido subornadas por Putin. Devemos insistir num registo internacional transparente de grandes quantias de dinheiro. Este é um momento crucial para combater as desigualdades, que têm sido fortemente aumentadas pelo dinheiro sujo de Putin. O mundo está finalmente a tomar consciência do perigo do capital, e devemos aproveitar esta oportunidade para mudar a implacável ordem mundial que conduziu a esta guerra.


Artigo publicado em Analyse & Kritik, 30 de março de 2022; tradução do alemão pela redação de A l'Encontre. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net

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