A entrada do FMI em Portugal foi um dos temas que dominaram a agenda da campanha presidencial. Cavaco Silva defendia que não se devia levantar a voz aos grandes países, mantendo-se fiel à sua imagem de marca do "bom aluno" de Bruxelas, enquanto Manuel Alegre apelava a uma mobilização nacional para impedir a entrada do FMI. Com o Governo Sócrates enfraquecido pelos protestos populares e dividido no apoio à sua candidatura, Alegre avisava em janeiro que "a Direita portuguesa quer o poder todo e tem uma agenda política que é a destruição do Estado social".
O primeiro passo para essa tomada do poder foi dado por Cavaco Silva, embora fragilizado pela reeleição mais curta de sempre e pelas fortes suspeitas de ter beneficiado de favores de Oliveira e Costa, seu vizinho de férias e ex-secretário de Estado, fundador do BPN e autor da maior fraude financeira conhecida em Portugal, com a ajuda de outros barões do PSD, um dos quais - Dias Loureiro - nomeado Conselheiro de Estado por Cavaco.
Logo a seguir à tomada de posse, Cavaco aproveitou a oportunidade para desferir um golpe no governo de Sócrates, apelando aos jovens para protestarem nas ruas, em vésperas da manifestação marcada para 12 de março e que surpreendeu toda a gente pelo número e abrangência política dos manifestantes.
José Sócrates apresentaria a demissão pouco depois, ao não ver aprovado no Parlamento um novo pacote de austeridade, não sem antes ter recebido os banqueiros em São Bento, que o pressionaram a pedir um programa de assistência financeira ao FMI e à União Europeia, semelhante aos da Grécia e da Irlanda.
O programa da troika foi subscrito por Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas e o PS pagou o preço da sua governação nas legislativas de junho: o PSD obteve a maioria absoluta e formou com o CDS o governo mais abertamente neoliberal desde o 25 de abril.
Nessas eleições, os partidos que se opuseram ao acordo com a troika não foram beneficiados por isso. O Bloco de Esquerda teve um sério revés eleitoral, perdendo metade da bancada e regressando aos números de 2005. No debate aberto sobre os resultados que o partido promoveu na internet, houve muita discussão sobre alguns dos elementos apontados como eventuais causas desse desaire, como o apoio à candidatura de Manuel Alegre, a oportunidade da apresentação duma moção de censura a Sócrates poucas semanas antes de se demitir, ou a recusa em participar numa reunião com a troika, a pedido desta.
Apesar da vitória confortável, Passos Coelho não teve vida fácil logo a seguir às eleições com a sua própria bancada parlamentar. O ex-candidato presidencial Fernando Nobre, a quem tinha sido prometida a presidência do Parlamento em caso de vitória do PSD, não conseguiu juntar os votos necessários e passou por uma nova humilhação - depois de ter sido severamente criticado por muitos apoiantes por fazer o contrário do que dissera nas presidenciais, aceitando um lugar nas listas do PSD - que o obrigou a renunciar ao Parlamento dois dias depois de lá ter entrado.
Logo nos primeiros meses de mandato, Passos Coelho foi ainda criticado por estar a propor medidas que poucos meses antes disse que nunca faria, como cortar o subsídio de férias e natal, nomear para cargos públicos gente fora da órbita dos favores partidários ou aumentar o IVA na restauração e cafés. Graças às contradições e ao efeito das medidas que tem aplicado, a verdade é que apenas seis meses depois de eleito, o primeiro-ministro já é vaiado por populares em muitas das suas deslocações, tal como aconteceu a José Sócrates no seu último mandato.
Direita junta maioria, governo e presidente
O velho sonho de Sá Carneiro foi concretizado, mas não da forma que o fundador do PSD imaginava. A direita gere o país como um protetorado e cumpre as ordens emanadas por Berlim e Bruxelas: mergulhar a economia na recessão e transferir a riqueza para os credores da banca europeia.
29 de dezembro 2011 - 12:02
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Com Passos Coelho e Paulo Portas no Governo, Cavaco em Belém e Angela Merkel em Berlim, o país afundar-se-á na recessão nos próximos anos. Foto André Kosters.