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"Como não nos podem expulsar do euro, tentam que nós nos vamos embora"

A deputada mais votada da Syriza nas últimas eleições foi a antiga atleta olímpica que rompeu com a bancada do PASOK quando votou contra o primeiro plano da troika na Grécia. Nesta entrevista, Sofia Sakorafa defende uma auditoria à dívida e uma investigação política ao destino desse dinheiro. Por Gemma Saura, do La Vanguardia.
Sofia Sakorafa foi a candidata do Syriza a recolher mais votos nas eleições de 6 de maio.

A Syriza é uma coligação de diversos partidos, alguns dos quais defendem uma saída do euro. Não deviam estar unidos num tema tão crucial?

É muito saudável que haja num partido diferentes opiniões. A antítese é o Partido Comunista, onde há apenas uma linha dogmática e ninguém a pode discutir. Na Syriza há muitas opiniões. Discute-se e quando se decide uma linha todos a respeitam.

Até que ponto o euro é uma prioridade para a Syriza?

Queremos ficar na Europa e mudar por dentro os equilíbrios de poder e as duras políticas neoliberais que estão a ser decididas por um núcleo reduzido de políticos. Não iremos tolerar que o crescimento da Alemanha e da França se faça à custa da sobrevivência da Grécia ou outros povos, como Espanha. Estar na zona euro não pode significar sacrificar o povo, que as pessoas morram à fome. A questão agora não é o euro. Estamos a lutar para sobreviver. E se ficar no euro significar a destruição da Grécia, teremos que sair.

Segundo uma sondagem, 78% dos gregos acredita que o Governo tem de fazer o que for preciso para manter o euro.
 
Não percebo como é que se pode querer permanecer no euro se o preço for um salário de 200 euros ao mês. Mas a Syriza não vai decidir pelo povo. Se a situação se tornar tão difícil e pensarmos que o melhor para a Grécia é sair, pediremos ao povo que se pronuncie nas urnas. Não vamos é dizer uma coisa e depois no Governo fazer outra.

A Syriza diz que a UE não se pode dar ao luxo de expulsar a Grécia do euro, mas na Europa cada vez mais gente acha que essa é a única solução.

Disseram-nos que se não aceitássemos a receita da troika íamos morrer à fome e que se sairmos do euro não teremos futuro. Somos ameaçados por gente que não tem nenhum cargo na UE, como Schäuble, o ministro das Finanças alemão. E a cada ameaça seguiu-se um desastre. Alguém tem de dizer às pessoas que não existe um mecanismo para expulsar um membro da UE. Como não nos podem expulsar, tentam que nós nos vamos embora.

Porque se negam a renegociar o acordo com a troika, como sugerem agora o PASOK e a Nova Democracia?

O acordo não pode melhorar. O que há para melhorar se a destruição é quase total? Não há dinheiro para pagar as pensões, perderam-se os direitos laborais conseguidos durante séculos pelos povos da Europa… O acordo contradiz os princípios fundamentais da UE, os que falam da proteção dos direitos, da proteção social, a proteção das crianças…

Querem atirar para o lixo os acordos assinados?

Nós não dizemos que antigamente é que era bom. Também queremos reformas, que o país seja mais competitivo, o Estado mais funcional, que haja meritocracia. Mas o memorando destruiu o Estado. Já nada funciona. Os hospitais são um caos, não há funcionários para cobrar impostos. Queremos tempo para nos organizarmos e seguirmos em frente.

Também querem deixar de pagar juros.

Pedimos uma auditoria internacional da dívida. Disseram ao povo grego, que é quem paga, que tem uma dívida. Mas ninguém sabe como se formou o o que é que se está a pagar. Esclarecer qual a parte da dívida que é ilegal ou odiosa. Também deve haver uma investigação política: gastou-se naquilo que se disse? Por exemplo, sabemos que a empresa alemã Siemens conseguiu contratos na Grécia pagando um preço exagerado porque subornou políticos. Tudo isto tem de ser investigado porque foram os gregos a pagar, o mesmo povo que acusaram de ser mandrião e corrupto, de passar o dia a dançar apesar de todas as estatísticas mostrarem que somos os segundos da Europa com mais horas de trabalho.

Não falta autocrítica? Porque toleraram tantos anos a corrupção?

Não percebo por que castigam os gregos pela corrupção dos seus políticos, quando a Europa não castigou o povo alemão depois de uma guerra que matou milhões de pessoas e destruiu o continente. A Europa fez bem, a culpa não era do povo alemão mas dos seus políticos. A menos que a Grécia seja o único país onde há corrupção…

Que outras condições põe a Syriza à troika, para além da auditoria à dívida?

Há cinco pontos. Primeiro, a abolição do memorando, de todos os cortes e reformas laborais que  estão a destruir o país. Segundo, a nacionalização dos bancos: a partir do momento em que recebam ajudas públicas, o Estado deve poder ter uma voz no seu conselho executivo, pelo menos até que o dinheiro seja devolvido. Terceiro, a mudança da lei eleitoral. Quarto, a abolição da imunidade para ministros. E quinto, a auditoria.

E se a troika disser não? Têm um plano B?

Vou responder com uma anedota. Uma mulher repara que o marido não dorme há vários dias. Ele diz-lhe que está muito preocupado porque deve dinheiro ao vizinho. Ela abre a janela e grita "Ó vizinho! O meu marido diz que te deve dinheiro. Não to podemos devolver". Fecha a janela e diz: "Agora é o vizinho que não consegue dormir". Isto só se consegue com uma auditoria à dívida. Temos de demonstrar que grande parte da dívida foi contraída de forma ilegal. Até a Alemanha reconhece que a sua economia está a beneficiar da situação grega. Estamos a comprar a 100% do seu preço as obrigações do Estado grego que o Banco Central Europeu adquiriu a metade do preço. O BCE não nasceu para ganhar dinheiro de um país destruído. Não queremos mais especulação com o povo grego.

 


Tradução de Luís Branco. Versão original aqui.

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Resto dossier

O que é a Syriza?

A derrota dos partidos da troika nas eleições de 6 de maio é fruto da resistência social que nos últimos anos tem marcado a vida política na Grécia. Nas urnas, o eleitorado recompensou as propostas socialistas da coligação Syriza e deram-lhe a responsabilidade de liderar a oposição à austeridade e à ruína do país.
Dossier organizado por Luís Branco.

Alex Tsipras: está a ser travada uma verdadeira “guerra entre o povo e o capitalismo”

Numa entrevista ao Guardian, Alex Tsipras defendeu que “a derrota é uma batalha não travada”, sendo que o povo grego está a “lutar para vencer". A derrota do capitalismo não será, para Tsipras, “apenas uma vitória para a Grécia, mas para toda a Europa".

Da antiglobalização ao governo de esquerda

A Coligação da Esquerda Radical surgiu em 2004 e resulta de um processo de diálogo iniciado em 2001 entre muitas correntes da esquerda grega, de inspiração socialista, eurocomunista, ecologista, maoísta e trotskista. Hoje a Syriza é composta por doze organizações e muitas personalidades independentes, entre elas algumas figuras que se afastaram do PASOK nos últimos anos.

"A saída do euro seria um desastre também para os credores estrangeiros"

Em entrevista ao esquerda.net, o responsável pela política europeia do maior partido da coligação Syriza explica a origem e a política do movimento que mudou o mapa político grego e é apontado como favorito às próximas eleições. Yiannis Bournous diz que "está em marcha uma campanha para aterrorizar os eleitores" e pede o apoio dos cidadãos europeus de esquerda ao programa alternativo que a Syriza apresenta.

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A saída da crise está à esquerda

Publicamos neste dossier o resumo dos compromissos programáticos apresentados pela Syriza ao eleitorado nas eleições do passado dia 6 de maio.

Quem é Alexis Tsipras?

Aos 37 anos, o engenheiro civil nascido poucos dias depois da queda da junta militar grega, em julho de 1974, diz estar preparado para  corresponder ao apoio popular e vir a liderar o primeiro governo de esquerda decidido a romper com a receita neoliberal que afundou o seu país.

Carta de Alexis Tsipras a Durão Barroso

Texto integral da mensagem de Alexis Tsipras ao presidente da Comissão Europeia, enviada após ter devolvido o mandato para a formação de governo, na qual chama a atenção para o facto de a solução para os actuais problemas globais estar ao nível europeu.

"As politicas de 'austeridade' exigem suprimir os laços sociais"

Nasos Iliopoulos é uma figura emblemática da Syriza. Secretário de juventude do Synaspismos, o maior partido entre os que compõem a coligação, tem menos de trinta anos, veste-se de forma casual, é eloquente e amistoso. Sentiu na pele os efeitos da repressão. Há um ano, foi brutalmente espancado pela polícia e hospitalizado com ferimentos múltiplos. Foi entrevistado em fevereiro por Alex Nunns, do Red Pepper.

Mensagem de solidariedade do Bloco de Esquerda

Na sequência do resultado eleitoral de 6 de maio, o Bloco de Esquerda enviou uma mensagem de solidariedade e de apoio à iniciativa da Syriza de tentar formar um governo de esquerda para romper com a troika e assim respeitar o mandato popular que deu larga maioria às forças opostas ao memorando que empurrou a Grécia para a catástrofe social e económica.