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27 de Maio: Lembrar para não esquecer

Depoimento de José Reis, autor de "Memórias de um sobrevivente" na audição pública organizada pelo Bloco de Esquerda sobre os acontecimentos do 27 de Maio em Angola e a repressão que se seguiu.
Audição realizada pelo Bloco de Esquerda no parlamento na semana em que passam 40 anos sobre o 27 de Maio em Angola.

Depois do testemunho que acabamos de ouvir, seria arrogância falar de mim. Os meus camaradas, Sita Valles, Admar Valles e Rui Coelho, têm quem os não esqueça e com enorme coragem estão aqui, hoje, 40 anos depois, os seus irmãos, a prestar, mais do que um testemunho, uma verdadeira homenagem.

Vou, como disse, pronunciar-me, não de mim mas sim deles. Deles, os que nos convenceram da sua opção socialista, e que afinal não passou de um embuste para nos inventariarem, rotularem e, chegado o momento, nos calarem.

Cumprido o programa mínimo do MPLA, com a conquista da independência, a 11 de Novembro de 1975, abriu-se o debate sobre o conteúdo do Programa Maior. O MPLA movimento, a frente aonde cabiam todos os patriotas e nacionalistas que se opuseram ao colonialismo, tinha que se adaptar aos novos tempos, "empenhar-se na reconstrução nacional de maneira a criar as bases para o socialismo e criar o seu dinamizador lógico, o partido da classe operária", diz-nos Agostinho Neto no discurso de encerramento da 3ª Reunião Plenária do C.C., que ocorreu de 23 e 29 de Setembro de 1976. Porém, a heterogeneidade das forças de libertação nacional engendraram o aparecimento de várias tendências ideológicas. Do MPLA movimento, ou seja, dessa frente, já pouco havia a esperar. Urgia a entrada em cena de uma outra força, de uma vanguarda que dirigisse a luta anti-imperialista e anti-capitalista. Ou o MPLA se transformava ou surgia a nova entidade. Foi ganhadora a primeira opção. Na citada 3ª Reunião Plenária, as moções apresentadas por Nito Alves ganharam a dianteira e as conclusões apontaram na transformação da Frente em Partido da Classe Operária.

Surpreendentemente, ou talvez não, os autores das teses que acabavam de se impor, com o apoio do presidente, sublinhe-se, há muito se sentiam acossados pelos seus inimigos de classe. Já estava em marcha a investida reaccionária do Jornal de Angola, da polícia política (DISA), os militantes de esquerda eram perseguidos, culminando na sua expulsão da organização, tendo-se atingido o cúmulo da provocação com a prisão de camaradas.

Na mesma 3ª reunião, onde vingaram as suas teses, levantaram-se vozes críticas acusando Nito Alves e José Van Dunen da prática fraccionista. Este último propõe então que se crie uma comissão de inquérito para apuramento de responsabilidades. A comissão é presidida por José Eduardo dos Santos mas não trabalhou.

Nito Alves resolve então defender-se, contra-atacando. Para tal redigiu um documento de cerca de 160 páginas, as 13 teses em minha defesa,  que endereça, entre outros, ao Presidente, propondo que seja feita a distribuição interna do referido documento porque, se assim não for, ele próprio se encarregará da sua divulgação.

Entretanto ficou agendada a realização do congresso, (10 de Dezembro de 1977) aquele que vai transformar o movimento em partido. Nito continua a ser o alvo dos ataques das forças que se opõem ao progresso, ao mesmo tempo que a sua popularidade cresce nos bairros, onde se experimenta a implantação do Poder Popular no seio da juventude e nas forças armadas.

Está visto que vai ser ele e a tendência política que lhe está próxima, inclusivé o próprio presidente Agostinho Neto, pensávamos nós, quem vai ganhar o congresso. Mas as forças contrárias não baixam os braços e, muito pelo contrário, tudo fazem para que estes presumiveis vencedores não cheguem ao conclave. Apertam o cerco, os meios de comunicação social, controlados pelo poder, acirram as massas, as prisões continuam a acontecer, as rusgas sucedem-se nos musseques, a provocação sobe de tom e os membros do C.C., Nito e José VD, acabam, à revelia das conclusões da citada "comissão de Inquérito", por serem expulsos daquele órgão superior. Estava ao rubro a provocação que só esperava contar com a reação contrária para, com o apoio das tropas cubanas, desbaratar a insurreição popular, que foi o 27 de Maio. Prenderam e mataram os comunistas, aproveitaram ainda para ajustar as contas dos desentendimentos passados e aclamaram "sob o olhar silencioso de Lénine", como proclamou Agostinho Neto, o partido dos trabalhadores, com os comunistas nessa hora a cevarem as valas comuns as celas das cadeias e os campos, eufemisticamente chamados, "de reeducação".

É esta, em breves palavras, a trama do 27 de Maio. O que daqui para a frente aconteceu já foi profusamente contado. Mas, mesmo assim, não é demais repetir e lembrar para não esquecer.

 


Ouça aqui na íntegra a audição promovida pelo Bloco de Esquerda sobre os acontecimentos do 27 de Maio de 1977 em Angola,

(...)

Resto dossier

Tanque cubano barra o acesso à Rádio Nacional de Angola. Foto publicada na 1ª página de O Jornal da época

O 27 de Maio de 1977 em Angola

Há 40 anos, Agostinho Neto, vencedor da disputa entre duas alas do MPLA, deu luz verde a uma chacina que terá chegado às 30 mil vítimas. Neste dossier, o Esquerda.net ouve sobreviventes, relembra os acontecimentos, apresenta documentos praticamente inéditos, discute a urgência de resolver uma grave questão de direitos humanos. Dossier coordenado por Luis Leiria.

 

Jorge Fernandes

“Nito Alves foi uma vítima do maquiavélico Agostinho Neto”

Num depoimento ao Esquerda.net, o engenheiro Jorge Fernandes, sobrevivente do 27 de Maio, relata como viveu os tempos da independência, da organização do MPLA em Angola, e os dois anos e meio de prisão e campo de trabalhos forçados sem acusação nem julgamento. E partilha as conclusões políticas a que chegou após 40 anos. Por Luis Leiria.

Rui Coelho

Será demasiado querer saber porque morreu, e como morreu, o meu irmão?

Depoimento de Maria da Conceição Coelho – irmã de Rui Coelho, um dos desaparecidos no período de repressão que se seguiu ao 27 de Maio em Angola – na audição pública promovida pelo Bloco de Esquerda.

27 de Maio: Lembrar para não esquecer

Depoimento de José Reis, autor de "Memórias de um sobrevivente" na audição pública organizada pelo Bloco de Esquerda sobre os acontecimentos do 27 de Maio em Angola e a repressão que se seguiu.

João Ernesto Valles Van Dunem

Angola: 24 órfãos do 27 de Maio dirigem carta à Presidência

Primeiro signatário é João Ernesto Valles Van Dunem. Órfãos reivindicam a elaboração de uma lista de desaparecidos, exames de ADN para reconhecer as ossadas, a emissão de certidões de óbito, entre outras medidas.

As duas revoluções de Sita Valles

A sua curta vida apresenta todos os ingredientes de uma tragédia grega. A militante que se entregou sem rodeios às revoluções portuguesa e angolana foi devorada por esta última. Pior ainda, o seu nome tornou-se maldito em ambos países. Nenhum argumento pode justificar que se lhe retire o direito à memória. Recordemo-la, pois. Por Luis Leiria.

Capa do livro de Dalila e Álvaro Mateus

"Ainda hoje tenho pesadelos com este horror"

No dia 27 de maio de 1977, começou um dos períodos mais macabros de Angola. Neste dia houve manifestações em Luanda a favor de Nito Alves. A seguir, milhares de angolanos foram torturados e assassinados. Primeira parte da entrevista da Deutsche Welle a Dalila Mateus.

Artigos como este do Jornal de Angola incitavam à violência, à delação e ao ódio

"O MPLA sempre tratou os dissidentes da pior forma"

Vamos tentar perceber os contornos internos e externos da perseguição violenta dos chamados "fraccionistas" pelo MPLA de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola, durante a qual morreram milhares de pessoas. Segunda parte da entrevista da Deutsche Welle à historiadora Dalila Mateus.

Não se pode construir o futuro colocando pedras no passado tentando enterrar a História sem que os enterrados e os seus familiares saibam onde estão os seus entes desaparecidos.

Ao cabo de 40 anos

Os quarenta anos que separam a data dos acontecimentos violentos e armados vividos em Luanda no dia 27 de maio de 1977 dos dias de hoje não chegam para explicar o sucedido, nem para apaziguar a memória. Por Domingos Lopes.

David Zé: enviado por Agostinho Neto para assistir aos festejos das independências de Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, onde interpretou, em cada uma delas, a canção "Quem matou Amílcar Cabral".

Vítimas: os três músicos mais populares do MPLA

As mortes na chacina desencadeada após o 27 de maio foram muito além dos simpatizantes de Nito Alves, atingindo até os mais famosos músicos da área do MPLA. David Zé, que até então cumprira o papel de embaixador cultural de Angola, foi um deles. Já José da Piedade Agostinho salvou-se por ser asmático.

Raúl Castro (à direita na foto) relatou a Fidel as desconfianças de Agostinho Neto em relação aos soviéticos

Memorando de Raúl a Fidel Castro relata desconfianças sobre papel da URSS

Documento até agora desconhecido revela preocupação da liderança cubana devido às suspeitas de Agostinho Neto de que a ação de Nito Alves tivera a simpatia dos soviéticos. Por Luis Leiria.

No primeiro plano, Raúl e Fidel Castro; Jorge Risquet aparece atrás, à esquerda.

Neto pôs Nito sob vigilância 10 meses antes do 27 de Maio

Relatório do chefe da Missão Civil de Cuba em Angola a Fidel Castro revela que dez meses antes dos acontecimentos fatídicos que marcaram para sempre a história de Angola as ações de Nito Alves já eram vigiadas. Por Luis Leiria.

Agostinho Neto e Nito Alves

Cronologia

Para além dos acontecimentos no dia 27 de maio de 1977 e dos seus antecedentes e consequências, optámos por ampliar um pouco a cronologia para oferecer ao leitor um enquadramento geral dos acontecimentos na história de Angola.

Protagonistas do 27 de maio

Veja aqui quem foram os principais protagonistas do golpe de 27 de maio, do lado dos vencedores e dos vencidos.

Angola - o 27 de Maio - Memórias de um Sobrevivente

Sobrevivente do 27 de Maio lança livro

Lançamento de “Angola – o 27 de Maio – Memórias de um Sobrevivente”, de José Reis, será no sábado, dia 27, na casa de Goa, às 17 horas.