João Ricardo Vasconcelos

João Ricardo Vasconcelos

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá

Se usar e roubar os outros é condenável, usar e roubar o Estado, o bem público, ainda beneficia de muita complacência social.

Os casos de pedofilia que agora estão a encher a agenda estão longe de reflectir um fenómeno novo. O tema ganhou uma dimensão mediática muito significativa nos últimos tempos, criando de repente a sensação de pedofilia generalizada na Igreja Católica. Os media e a forma como geram a agenda conseguem normalmente impulsionar este tipo de efeito pernicioso que nunca é demais recordar.

De facto, é uma chatice mas as contas públicas chegaram a um ponto em que todos vamos ter de nos sacrificar um pouco, todos vamos ter de apertar o cinto. É chato que tal venha a acontecer, mas não existe alternativa. Vai ser necessário emagrecer as despesas do Estado, vai ser necessário reduzir algumas prestações sociais, vai ser preciso aumentar alguns impostos e limitar as deduções fiscais. Terá de se cortar no investimento público e não há como escapar a algumas privatizações. São medidas inconvenientes, mas que têm de ser tomadas e infelizmente cada português vai ter de contribuir para tal esforço. Os tempos assim o exigem e o Estado tem de ser gerido como uma casa: em tempos de aperto, tem de se cortar, cortar e cortar. Que remédio, não é?

A greve de ontem foi uma importante manifestação de desagrado dos trabalhadores da Administração Pública perante inexistência de actualizações salariais. Os trabalhadores protestam e bem por serem sempre os bodes espiatórios dos gastos da máquina estatal.

A candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República é uma surpresa que origina sentimentos contraditórios. O currículo do presidente da AMI é inequívoco. A sua verticalidade e seriedade garantem que a candidatura que agora apresenta seja naturalmente forte. O capital de simpatia que foi recolhendo e a consideração que merece em diversos quadrantes políticos, nomeadamente ao longo de toda a esquerda, tornam-no um candidato com grande potencial.

Não era desejável, mas era mais do que expectável que a temática das presidenciais se começasse a impor desde já. A agenda não perdoa e, como é evidente, a capacidade de a inflectir não está ao alcance da maioria dos actores. Manuel Alegre é candidato à Presidência e, também como era expectável, tal está a gerar uma panóplia de reacções nos sectores que o poderão vir a apoiar.

Com a aprovação hoje, na generalidade, do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, dar-se-á um passo importante no sentido da concretização do princípio da igualdade em Portugal. Um passo que ficará tristemente manchado pela legitimação de uma nova discriminação, é certo. De qualquer modo, será um passo importante, um passo que só peca por defeito, um passo justo para uma fatia da população que, vá-se lá saber porquê, em pleno século XXI, continua excluída de determinados direitos.