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Descer à terra

Os casos de pedofilia que agora estão a encher a agenda estão longe de reflectir um fenómeno novo. O tema ganhou uma dimensão mediática muito significativa nos últimos tempos, criando de repente a sensação de pedofilia generalizada na Igreja Católica. Os media e a forma como geram a agenda conseguem normalmente impulsionar este tipo de efeito pernicioso que nunca é demais recordar.

A pedofilia é evidentemente um problema da sociedade e não da Igreja. E é neste tipo de momentos que mais importa sublinhar tal facto, evitando generalizações e precavendo qualquer tipo de caça às bruxas. Uma organização não pode responder ou ser colocada em causa pelos crimes de alguns dos seus membros. Tal é uma evidência que, por mais redundante que possa parecer, deve ser sublinhada. No entanto, o cenário altera-se quando uma organização encobre há muito tais actos, fazendo com que assistamos agora à abertura de uma autêntica caixa de Pandora. Este é, no momento presente, o cerne das críticas que estão a ser dirigidas à actuação da Igreja.

Mas também é natural que perante o que está a ser descoberto, surjam críticas a uma Igreja que, ao mesmo tempo que prega o ascetismo em todas as frentes e vê o pecado em cada esquina, encobre no seu seio tão hediondos crimes. Estranho seria se tais críticas não surgissem. E estranho seria que as mesmas não desembocassem em outros problemas da Igreja como o celibato dos padres, a menorização das mulheres, entre muitos outros. No fundo, tudo questões ligadas à sexualidade, esse mundo no qual a hierarquia católica parece fazer questão de demonstrar um lamentável arcaísmo.

A Igreja poderá enveredar por dois caminhos no seguimento do que se está a passar. O primeiro implica fechar-se sobre si mesma, proteger-se, esperar que o temporal passe e mudar apenas o mínimo para que tudo fique na mesma. O segundo caminho passa por tirar ilações, não querer que este seja apenas mais um capítulo obscuro da sua história e, quem sabe, concluir que este até pode ser um ponto de partida para uma reflexão sobre a necessidade de mudança, de algum tipo de reforma.

É quase certo que será o primeiro o caminho escolhido (que bom seria estar enganado a este respeito, não é?). É este o rumo que infelizmente nos tem habituado. Mas é pena que a Igreja negue mais uma vez uma necessidade de reforma que é clara não só para os não-católicos, mas também para a maioria dos seus fiéis. Não o constatar indicia um excessivo alheamento do mundo terreno. Tendo em conta a sua importância, a sua influência, os papéis que desempenha, a Igreja necessita de descer à terra. Ninguém pode estar contente ou sequer ficar indiferente a tanta desorientação.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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