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Bora pagar a crise?

De facto, é uma chatice mas as contas públicas chegaram a um ponto em que todos vamos ter de nos sacrificar um pouco, todos vamos ter de apertar o cinto. É chato que tal venha a acontecer, mas não existe alternativa. Vai ser necessário emagrecer as despesas do Estado, vai ser necessário reduzir algumas prestações sociais, vai ser preciso aumentar alguns impostos e limitar as deduções fiscais. Terá de se cortar no investimento público e não há como escapar a algumas privatizações. São medidas inconvenientes, mas que têm de ser tomadas e infelizmente cada português vai ter de contribuir para tal esforço. Os tempos assim o exigem e o Estado tem de ser gerido como uma casa: em tempos de aperto, tem de se cortar, cortar e cortar. Que remédio, não é?

O parágrafo acima, provocatório q.b., procura sintetizar o tipo de pensamento fatalista que tende a hegemonizar o espaço público em tempos de crise. Não é um pensamento novo, antes pelo contrário. Baseado em duas ou três ideias simples, pretende sempre passar para o senso comum algo profundamente ideológico, algo que longe de ser um fatalismo, é sobretudo uma escolha política.

Ao mesmo tempo que assume algumas das premissas acima expostas como fazendo algum sentido à partida (e.g. em tempo de crise, há que poupar, há que fazer sacrifícios), a maioria da opinião pública também sabe que faz pouco sentido que o esforço se faça sentir sobretudo em quem tem menos rendimentos, faz pouco sentido que se cortem prestações sociais precisamente nos momentos em que elas são mais necessárias, faz pouco sentido privatizar bens que dão lucro e sobretudo fazê-lo em tempo de crise.

É normalmente algures no meio deste tipo de compreensão nebulosa e concordância contraditória que surge a descrença, a insatisfação contida, o conformismo e, para rematar, a tradicional afirmação de que "são todos iguais, defendem todos o mesmo". E mesmo aqueles fulanos dos partidos mais à esquerda que parecem simpáticos e nunca dispostos a desistir, tendem a ser olhados como idealistas demasiado encerrados em cassetes interessantes para alguns, mas que dizem pouco à maioria. Por isso, não raras vezes essa maioria não têm como escapar ao caminho do comer e calar. E, para não variar, acaba por esperar pacientemente que todo este temporal passe depressa, rezando para não estar entre os tristes contemplados com o desemprego.

É por isso que, em momentos como o presente em que ataques cerradíssimos estão a ser levados a cabo contra a justiça social, a esquerda não pode deixar de se reinventar permanentemente. Inovando na forma como chega às pessoas, no envolvimento e mobilização da população para as causas que defende, inovando nas mensagens que transmite, no discurso que a vincula. Como é sabido, não basta ter razão. É preciso demonstrar diariamente, como se fosse sempre a primeira vez, que se possui tal vantagem. Procurar novos meios e novos caminhos para se chegar às pessoas assume-se como esforço permanente e a fuga da cristalização tem de ser um objectivo quotidiano.

O momento presente é demasiado sério para que apenas as receitas conhecidas possam ser mobilizadas. A esquerda tem de, sobretudo nestes períodos, ser exigente, ser inteligente, ser criativa. É tempo de dar tudo por tudo. É tempo de arriscar. E é tempo de agir. Bora cobrar a crise. Bora mostrar a alternativa.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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