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Conta-me como foi

Mas a justiça deste combate pela igualdade constata-se nomeadamente fazendo um pequeno exercício de visita ao futuro. Ou seja, se hoje já nos consegue tirar do sério o nível primário da maioria das discussões em torno destas temáticas, imaginem o que pensaremos destas supostas discussões fracturantes daqui a 15, 20 ou 30 anos.

Imaginem o que diremos em 2025 ao recordarmos que em 2010 ainda se discutia se as pessoas do mesmo sexo se poderiam casar ou não. Imaginem o que diremos ao lembrarmos que alguns propunham então a miraculosa solução de dar um nome diferente à instituição do casamento. Imaginem o que acharemos em 2030 ou 2040 a propósito, de 20 ou 30 anos antes, 90.000 pessoas terem proposto um referendo à igualdade no acesso ao casamento civil. Imaginem o que acharemos sobre as tão grandes reticências quanto à temática da parentalidade homossexual...

Não tenho dúvidas que daqui a 15, 20 ou 30 anos estaremos a rir-nos de tudo isto. No fundo, olharemos tudo com o mesmo ar meio abismado, meio enternecido, meio espantado com que assistimos à realidade tratada na série da RTP "Conta-me como foi". A realidade por vezes dura dos outros tempos até já poderá ser apresentada com uma certa leveza romanceada porque já se encontra distante.

Como é evidente, não quero com isto dizer que a homofobia desaparecerá nos próximos 15, 20 ou 30 anos. É um caminho longo e são necessárias gerações para que muitas mentalidades evoluam, para que muitas discriminações desapareçam. E, como é óbvio, a evolução nestas matérias não acontece sozinha. É preciso fazer com que as coisas evoluam, é preciso lutar permanentemente neste sentido.

Mas tal não exclui a constatação de que o panorama geral tenda a evoluir de facto, que a modernidade vá trilhando os seus caminhos, que os temas deixem de ser fracturantes porque progressivamente vão-se tornando consensuais para uma vasta maioria da população. E é então que temos a certeza que as polémicas em seu torno serão em poucos anos recordadas com uma quase curiosidade dos outros tempos, do tempo que passou, se calhar com direito a banda sonora do José Cid e tudo. É o sinal de que as coisas evoluem. E ainda bem que assim é. 

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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