Eduardo Couto

Eduardo Couto

Educador Social e ativista LGBTQIA+. Dirigente do Bloco de Esquerda

A ideia é simples: se há quem continue a insistir que pessoas LGBTQIA+ precisam de “terapia de conversão”, então assumamos a lógica até ao fim dessa ideia. Reconheçam-nos como doentes e, por coerência, tratem-nos como o sistema trata qualquer doença.

A conversa do “vai mas é trabalhar” funciona como um silenciador. Não dá estatuto nenhum, não traz qualquer argumento, mas tenta calar. E assim a praça pública esvazia-se da pluralidade que lhe dá qualidade.

Um café de bairro fecha se o alvará não estiver em dia. Um burlão com colarinho digital consegue delapidar as poupanças de uma família no Instagram e o processo arrasta-se anos.

A dignidade de uma pessoa trans é exatamente a mesma dignidade do trabalhador que, ao final do mês, vê o seu salário ser devorado por uma renda especulativa. São as duas faces da mesma moeda: a liberdade de ser quem se é e a liberdade de viver sem a corda da exploração ao pescoço.

Em Santa Maria da Feira, para um consumo de 180 metros cúbicos, paga-se cerca de 419 euros. No concelho da Moita, o valor ronda os 65 euros. Estamos a falar de uma diferença que levanta uma pergunta política clara: porque é que viver na Feira custa tanto quando o assunto é água?

O apelo ao voto útil parte sempre da mesma ideia inútil: a de que votar em quem acreditamos é um luxo. Um capricho. Algo que se pode – eventualmente - fazer quando está tudo bem (como se alguma vez estivesse estado), mas nunca quando as coisas estão mal.

Como se diz a um filho que o Pai Natal foi a casa dos colegas, mas não à sua? Como se responde quando ele pergunta, se fez alguma coisa errada? É aí que o Natal deixa de ser apenas uma festa e passa a expor, sem filtros, as desigualdades inerentes ao sistema capitalista.

A dignidade não pode depender do sítio onde se dorme. Se aceitarmos que há pessoas que podem ser deixadas para trás, estamos a encolher o país para todos.

A crise atual não é o fim, mas o pretexto para um virar de página. A política emancipatória precisa de reencontrar esse lugar fértil: o da invenção coletiva, o da construção paciente de poder popular, o da imaginação que não teme – e muito menos abandona – a utopia.

O futuro não nos será dado. As batalhas que se avizinham exigem um Bloco robusto, inteligente, e socialmente enraizado. Um Bloco que fale ainda mais com quem trabalha, com quem cuida, com quem estuda e com quem vive a precariedade como condição permanente