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Homossexuais: o retrato diabólico e doente

A ideia de que só alguns membros da sociedade com práticas alternativas às heterossexuais estavam sujeitos às demais doenças e vírus mortíferos, está ultrapassada. Mas, temos que lidar com atos e afirmações estruturalmente discriminatórias, mesmo vivendo em 2022.

Há quem pense, inocentemente, que vivemos numa era longínqua onde são normais e socialmente aceitáveis atribuições e generalizações acerca de doenças, sejam elas de que carácter forem, em torno de Orientações Sexuais. Que essa ideia de que só alguns membros da sociedade com práticas alternativas às heterossexuais estavam sujeitos às demais doenças e vírus mortíferos, está ultrapassada. Mas, partindo do princípio que vivemos numa sociedade estruturalmente homofóbica, temos que lidar com atos e afirmações estruturalmente discriminatórias, mesmo vivendo em 2022 com conhecimentos científicos sem precedentes na humanidade.

Recentemente, numa peça da CNN, de autoria de Catarina Guerreiro – e sim, convém dizer as vezes que forem necessárias o nome desta jornalista até um devido retratamento público – lê-se num título sensionalista que, e cito: “Varíola dos macacos: “Pode ser o início de mais uma epidemia entre os homossexuais ou alastra a toda população”, alerta presidente da Sociedade de Virologia.”

Ora, antes demais, quero realçar que nunca tive qualquer estudo na área da virologia, mas tenho a certeza que não há uma única doença, seja ela sexualmente transmissível ou não, que esteja associada ao simples facto de existirem pessoas homossexuais. Pode parecer óbvio para os demais virologistas ou pessoas com o mínimo de senso comum, mas aparentemente não o é para Vítor Duque, que com as suas informações aparenta compreender tanto de virologia como a Igreja Católica compreendia de Direitos Humanos no tempo da Inquisição.

A Sociedade Portuguesa de Virologia até à data, ainda não teceu uma única palavra sobre as declarações do seu presidente, a verdade é que o silêncio nestes momentos é bastante barulhento e, até, muito revelador.

Não bastou as variadas e profundas hostilizações dos demais meios de comunicação social, da Igreja, dos setores conversadores e demais intervenientes públicos nos anos 80’s e 90’s acerca do HIV/SIDA. Não basta a estigmatização feita pelos serviços públicos de saúde acerca das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) em relações a Homens que tem sexo com Homens. Não basta a desigualdade machista e homofóbica na atribuição da vacina do HPV. Não basta a falta de políticas publicas e esclarecedoras acerca de DST e de combate à homofobia. Não bastaram anos e anos de discriminação na hora de doar sangue. Nada distou bastou, é preciso mais.

É preciso continuar este processo de marginalização. É premente seguir a onda de discriminação perante a comunidade LGBTI+. É urgente que a Comunicação Social alimente este discurso de ódio sem fundamento científico. É necessário reforçar a discriminação contra as pessoas desta comunidade para reverter direitos e conquistas. Tudo isto é importante. Pergunto: Quem ganha com isto? E por quê?

A hegemonia social e política do Homem Heterossexual? O discurso conservador? A religião? Os lucros da Comunicação Social? O Mercado? A extrema-direita? As organizações homofóbicas? Ou todos juntos e ainda mais alguns?

É tempo de fazer com que os que tentam ganhar sempre e sempre com a desinformação acerca da nossa existência percam de uma vez por todas esta batalha. Ajuda a calar um homofóbico. Partilha artigos científicos, divulga formas de ativismo, sê esclarecedor, apresenta dados e factos. A luta nunca foi fácil, mas não será o Vítor Duque ou qualquer outro homofóbico que nos vai parar.

Sobre o/a autor(a)

Ativista estudantil e LGBTI+. Membro do Bloco de Esquerda
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