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Teletrabalho: inquérito mostra uma realidade cheia de problemas

Falta de apoio das empresas, dificuldade de conjugação de trabalho e vida pessoal, horas a mais e dificuldade em desligar, problemas de saúde devido a equipamentos não preparados para o uso que deles passa a ser feito. Esta é a realidade do teletrabalho segundo um inquérito da Escola Nacional de Saúde Pública.
Teletrabalho. Foto de Peter Kaminski/Flickr.
Teletrabalho. Foto de Peter Kaminski/Flickr.

O questionário sobre Teletrabalho e Saúde Ocupacional, do Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública foi publicado esta terça-feira. A partir de uma amostra de 1082 respostas, que os autores salientam não ser representativa da população portuguesa, “quer em número quer ao nível da caracterização dos inquiridos”, concluiu-se que as empresas não têm apoiado os trabalhadores “quer ao nível da saúde e segurança do trabalho, quer ao nível de comparticipação de equipamentos e meios de trabalho, indispensáveis para o desenvolvimento do teletrabalho”.

Outra conclusão é que, uma vez que tem sido e deverá continuar a ser no atual quadro uma modalidade de trabalho “imposta”, se devem repensar “estratégias de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da saúde e qualidade de vida”. O teletrabalho é ainda visto como uma realidade que “coloca grandes interrogações sobre a melhor forma de proteger a saúde de quem trabalha”.

Dos inquiridos, que tiveram a experiência do teletrabalho durante a pandemia, 59% gostariam de, depois do “regresso à normalidade” fazer teletrabalho em tempo parcial, 22% gostaria apenas de ter a opção de teletrabalho esporadicamente e 9% não gostaria que o teletrabalho fosse uma opção.

Teletrabalho em tempos de pandemia

António Brandão Moniz

Um pouco mais de metade, 54%, declara-se satisfeito com o teletrabalho. Mas apenas 37% está satisfeito com o equilíbrio entre o teletrabalho e a vida pessoal: 59% considera que “trabalha mais horas do que o habitual” e 42% considera não ser possível “desligar-se do trabalho” para poder descansar. Quase a totalidade dos trabalhadores, 95%, não recebe qualquer comparticipação da empresa para pagar a ligação à internet.

Por outro lado, a esmagadora maioria (70%) diz que tem total autonomia e flexibilidade “para que possa decidir como e quando termina o trabalho”.

Os números sobre a falta de apoio das empresas são claros: apenas 33% dos inquiridos refere que lhe são disponibilizadas “todas as condições e recursos para poder trabalhar a partir de casa, de forma eficaz”.

Quase metade, 45%, diz que não recebe qualquer tipo de apoio ao nível da formação para desenvolver competências e comportamentos em teletrabalho. Quanto ao apoio ao nível dos equipamentos apenas 489 inquiridos tiveram acesso a um portátil, 2,3% a uma cadeira e a 1,5% foi disponibilizada uma secretária. Metade dos inquiridos responderam, quando perguntados sobre o que melhorariam no espaço de trabalho em casa, que compraria uma “cadeira e secretária adequadas”.

75% das pessoas que participaram na investigação não recebeu qualquer apoio de alguém da área da Saúde e Segurança no Trabalho sobre “como adequar o mobiliário e os equipamentos informáticos para estar mais confortável e ser mais produtivo”.

O equipamento utilizado tem consequências de saúde. 62% usam cadeiras não adequadas para trabalhar. Cadeiras de sala, da cozinha ou outras. Apenas igual percentagens diz fazer “pausas esporádicas e curtas para descansar” durante a jornada de trabalho.

As posições não são também as melhores: 42% fica fora dos ângulos de conforto no manejo do teclado, 62% trabalha com o topo do monitor do portátil abaixo da altura dos olhos, “o que poderá ser um fator de desconforto (ou mesmo dor) cervical”. Apenas 9% utilizam computador com monitor, teclado e rato e destes 33% usa o teclado numa altura diferente da do cotovelo e 47% tem o topo do monitor acima ou abaixo da altura dos olhos.

Entre os que usam portátil sem periféricos (ou seja sem qualquer monitor, teclado ou rato externos) o mousepad é sempre utilizado em 44% dos casos e por longos períodos de tempo, “o que não é aconselhado”.

Na amostra de 1082 pessoas, a esmagadora maioria é do género feminino (75%), a grande maioria (64%) tem entre 30 e 49 anos, metade (51%) está casada ou em união de fato e tem filhos dependentes em casa (48%).

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