Está aqui

Poluição no Tejo: Bloco pede demissão do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) foi responsável, em 2016, pela alteração da licença da Celtejo, que permitiu à empresa quase triplicar os valores de descarga. Ministro do Ambiente desresponsabiliza APA, elogiando o seu trabalho. Última atualização às 12h23 de 16.02.2018.
A 24 de janeiro, um manto de espuma branca com cerca de meio metro cobriu o rio Tejo na zona do concelho de Abrantes, distrito de Santarém, junto à queda de água do açude insuflável. Fotografia de Paulo Cunha, Lusa.

Durante a audição parlamentar conjunta com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território sobre a poluição no Tejo, o deputado bloquista Carlos Matias afirmou que a APA passou uma licença “a legalizar o que era ilegal”, lembrando que a própria Celtejo, sinalizada como a principal fonte de poluição no Médio Tejo, assumia que estava a incumprir os limites de efluentes da licença emitida em 2014.

O presidente da APA alegou que a alteração, em 2016, da licença da Celtejo, que permitiu à empresa quase triplicar os valores de descarga que estava autorizada a fazer no rio - o parâmetro CBO5 de descarga passou de 0,9 kg/tSA (tonelada de celulose seca ao ar) para 2,5 kg/tSA -, teve como objetivo a diminuição da carga poluente descarregada, e que “isso aconteceu já em 2017”.

Os argumentos de Nuno Lacasta não convenceram, contudo, o deputado bloquista: “Se os dados da diminuição da carga orgânica resultam do autocontrolo (feito pela própria Celtejo), isso é a história que a empresa conta. Vale o que vale, e vale muito pouco”, avançou Carlos Matias.

“Se o objetivo era reduzir, como é que há tanta carga acumulada agora?”, questionou o deputado, assinalando ainda que "há celulose a mais, a licença foi errada e é preciso tirar consequências".

“O presidente da APA falhou e, portanto, deve demitir-se”, concluiu Carlos Matias.



A 24 de janeiro, um manto de espuma branca com cerca de meio metro cobriu o rio Tejo na zona do concelho de Abrantes, distrito de Santarém, junto à queda de água do açude insuflável.

As análises realizadas confirmaram a origem desta catástrofe ambiental na indústria da pasta de papel. A Agência Portuguesa do Ambiente detetou níveis de celulose 5 mil vezes acima do normal, e indicou a Celtejo como responsável por 90% das descargas naquela zona do rio Tejo, em Abrantes.



"Estou orgulhoso do que fizemos"

O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, recusou, esta sexta-feira, dia 16 de fevereiro, as críticas ao dirigente da APA, e elogiou o bom trabalho desta entidade.

"Tenho um hábito de gestão que é, quando existe um problema, resolvê-lo, conheço outros que, quando existe um problema, o que interessa é encontrar um culpado e flagelá-lo", afirmou o ministro do Ambiente, à margem da sessão de abertura do Congresso do Tejo III - Mais Tejo, mais Futuro.

"Existindo um problema, estamos a resolvê-lo com a equipa que temos e para isso precisamos de todos e da APA com um papel muito importante neste processo", acrescentou João Matos Fernandes.

Durante a sua intervenção na abertura do Congresso, o governante elogiou o trabalho das autarquias, da APA, da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT) e da EPAL: "Estou orgulhoso do que fizemos".

"Chegámos ao dia de ontem [quinta-feira] e nenhum ponto de amostragem de rede", desde fronteira até Constância,"tinha menos de sete miligramas de oxigénio, sendo que a jusante do Zêzere havia mais do que nove miligramas”, assinalou Matos Fernandes.

Avançando que “temos que garantir que assim será no futuro", o que passa pela definição de novos formatos de licenças para as indústrias que lançam efluentes no rio, o ministro vincou que “esta batalha está claramente ganha".

Dois crimes ambientais detetados por semana

De acordo com o responsável da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT), esta entidade realizou, no ano passado, 246 ações de inspeção na bacia do Tejo, que deram origem a 115 autos de notícia por crimes ambientais, o equivalente a uma média de dois crimes ambientais detetados por semana.

Nuno Banza lembrou ainda que está a decorrer uma investigação do Ministério Público às descargas no Tejo.

Termos relacionados Política, Poluição no Tejo
(...)