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Maio 68: De Cannes a Paris, o mês que sacudiu o mundo

Se há uma herança de Maio, que é a dos movimentos sociais que então se expressaram, é a luta contra o sexismo, ou contra o racismo, ou pelos direitos civis, ou pelo ensino público, ou pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras na empresa, que definiram o mínimo de que parte a vida democrática. Por Francisco Louçã
Conferência de imprensa com os realizadores Claude Lelouch, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Louis Malle, Roman Polanski - festival de Cannes, 1968
Conferência de imprensa com os realizadores Claude Lelouch, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Louis Malle, Roman Polanski - festival de Cannes, 1968

Talvez não se sentisse ainda nada que igualasse o glamour de hoje, esplendoroso em lantejoulas e decotes, mas o Festival de Cannes já era uma festa em 1968, quando completava os seus 22 anos. Contrastava com os mais velhos Óscares de Los Angeles, não tanto pelos néons e fanfarras, mas porque registava um emergente cinema europeu, filho do pós-guerra. Apesar disso, na Europa olhava-se para Hollywood e, no festival que foi inaugurado na noite de 10 de maio, a gala foi preenchida com a projeção em 70 milímetros de uma cópia restaurada de E Tudo o Vento Levou, o sucesso do ano sinistro de 1939 e que, ao evocar a Guerra Civil norte-americana e o vendaval de destruição então desencadeado, adivinhava a guerra que então começava na Europa.

Os organizadores não deixaram nada ao acaso, convidaram mesmo a última sobrevivente do elenco original, Olivia de Havilland, que tinha 22 anos quando o filme foi rodado (prometeram-lhe então a candidatura a Óscar como protagonista feminina, mas o realizador torcia por Vivien Leigh, que foi naturalmente a escolhida). Olivia não veio, não chegaram a acordo sobre o cachet pedido, mas nada podia estragar a festa. Grace Kelly, princesa do Mónaco e ex-atriz, era a estrela da noite, vários embaixadores prometiam presença e nem se notava a falta de algum ministro. Jantar de cerimónia e fogo de artifício, houve de tudo, alegria e festa. Entretanto, em Paris, a polícia carregou nessa mesma noite contra os estudantes barricados no Quartier Latin.

A noite de 10 para 11 de maio

Se fosse possível encontrar um rastilho para uma explosão social, talvez tivesse sido a prisão no dia 20 de março de 1968 de um estudante, Xavier Langlade, dirigente de um pequeno grupo de dissidentes do partido comunista, a Juventude Comunista Revolucionária, quando protestava contra a guerra do Vietnam em frente às instalações parisienses do American Express. Para organizar a sua defesa, alguns estudantes da faculdade de Nanterre, nos arredores de Paris, criaram o Movimento 22 de Março, entre eles Daniel Cohn-Bendit e Daniel Bensaid, que viriam a desempenhar papeis destacados na política e nos debates de ideias em França ao longo dos anos seguintes. O M22M decidiu ocupar a faculdade e começou a revolução, tal como era vista de Nanterre.

Um mês e meio depois, chegados aos primeiros dias de maio, os estudantes liceais manifestam-se e ocupam as suas escolas, nas universidades discute-se tudo e vive-se vibrantemente a contestação: a França vai sendo abalada pelos filhos da sua prosperidade, mas também os sindicatos começam a sentir a cólera que se vai revelando em greves selvagens, sem autorização legal.

No dia 2 de maio, uma “jornada anti-imperialista” é proibida em Nanterre e a faculdade é fechada. Os estudantes vão juntar-se aos da Sorbonne, no centro de Paris. No dia 10, uma manifestação de liceais junta-se às cinco da tarde na praça Denfert-Rochereau, serão talvez vinte mil ao início, vai engrossando e dirige-se depois para o Quartier Latin, onde está a Sorbonne. Às 21.15, a primeira barricada é erguida na Rua Le Goff e, em pouco tempo, serão sessenta por todo o bairro, a mais imponente na Rua Gay Lussac, onde moraram os escritores George Sand e Paul Valéry e onde vivera Picasso até há uma dúzia de anos. Dizem os anais que o presidente De Gaulle, despreocupado, foi para a cama às dez da noite.

No início da madrugada, às 2.15, a polícia de choque carrega sobre os manifestantes e ataca as barricadas. Vai demorar mais de três horas até conseguir restabelecer o seu controlo sobre o bairro. A noite prolonga-se em confrontos duros que se espalham pela cidade. Há 54 feridos hospitalizados.

O responsável governamental em exercício acorda o presidente, o que consta que terá sido mal recebido. Pompidou, o primeiro ministro, regressa apressadamente de uma visita a Cabul e, pouco antes da meia noite do dia seguinte, discursa na televisão para assegurar que contemporiza com as reivindicações dos manifestantes, dada a “profunda simpatia pelos estudantes e a minha confiança no seu bom senso”. Tarde demais, os estudantes voltam às ruas e os sindicatos convocam uma greve geral para a segunda feira seguinte, dia 13 de maio.

Um cocktail ameaçador

Na mesma noite dessa sexta feira, 10 de maio, encontram-se na Avenida Kleber, também em Paris, as delegações norte-vietnamita e norte-americana, chefiadas por Xuan Thuy, que fora ministro dos negócios estrangeiros de Hanói, e pelo embaixador do presidente democrata Johnson, William Averell Harriman. Abriam a primeira ronda de um processo negocial difícil, sabendo-se que os Estados Unidos se encontravam já numa posição militar comprometida e que a surpreendente ofensiva militar dos vietcong em janeiro e fevereiro desse ano, a ofensiva do Tet, tinha provado a capacidade e determinação do exército do Norte e a fragilidade das defesas do Vietnam do Sul. Na segunda feira seguinte, no Hotel Majestic, as conversações deveriam ser formalmente abertas.

A guerra do Vietnam era o foco da contestação da juventude norte americana, mas também da solidariedade europeia. Era o tema forte da política mundial, dado que a década que começara com John Kennedy e com Nikita Kruschev prometera coexistência e distensão, mas acabara por conduzir a uma guerra sem tréguas no Vietnam, Laos e Camboja. O resultado do prolongamento do conflito era tremendo: a hegemonia militar dos Estados Unidos foi posta em causa pela primeira vez na história do século XX e isso tinha consequências para os poderes do mundo. A causa que unificava o protesto juvenil nesses street fighting years, como lhes chamava um refrão de Mick Jagger, era essa guerra.

Para uma geração francesa que tinha sido formada na oposição à guerra da Argélia, a realização em Paris das reuniões para o acordo de paz para o Vietnam era também um sinal de vitória. Para mais, havia uma história francesa de ligações intensas com os intelectuais da revolução colonial: um dos gigantes da filosofia e da literatura francesa, Jean Paul Sartre, tinha cultivado a amizade de Frantz Fanon, o intelectual das independências africanas e dos povos colonizados, e ampliado a sua mensagem. Sartre trazia a aura de ter recusado o Prémio Nobel da Literatura em 1964, porque recusava a institucionalização, ele que já era uma instituição, e projetava a sua influência em vários universos, de Kerouac a Lispector ou Paulo Freire. Apoiando a luta independentista e a dos estudantes, mesmo com o superlativo das estrelas, Sartre emprestou a sua força a este tempo de abismos.

Foi precisamente essa combinação, em vários países, entre a radicalização antiguerra, a cultura crítica da universidade e a rejeição do quotidiano da rotina e da hierarquia que fez nascer o Maio de 68

Tudo se conjugava portanto para fazer desse momento de cedência de Washington nas negociações de Paris um marco da história global, mesmo depois de os rangers norte-americanos terem conseguido uma vitória com o assassinato de Che Guevara na Bolívia em outubro de 1967. O ícone da revolução cubana e da esperança anti-imperialista era lembrado nas paredes de Nanterre e da Sorbonne e nessas negociações em que os vietnamitas ditavam as escolhas.

Um dos fundadores do Movimento de Nanterre, Bensaid, lembrou a sua viagem em fevereiro de 1968 até Berlim, com alguns colegas apertados num pequeno carro, para participarem num congresso e numa manifestação de solidariedade com o Vietnam. Entre eles, Manuel Castells, então assistente de sociologia, agora um dos sociólogos de referência. Berlim, que era a capital da guerra fria, mas também das maiores ações de protesto antiguerra, era então o centro político da contestação. Rudi Dutschke, estudante de filosofia, e Gaston Salvatore, sobrinho de Allende, eram os líderes do SDS, o grande movimento socialista de estudantes, influenciados pelas ideias de Rosa Luxemburgo e de Antonio Gramsci, mas também pela escola de Frankfurt e pelo escritor Hans Magnum Enzensberge. Eles eram, de facto, os expoentes da nova esquerda europeia.

Foi precisamente essa combinação, em vários países, entre a radicalização antiguerra, a cultura crítica da universidade e a rejeição do quotidiano da rotina e da hierarquia que fez nascer o Maio de 68.

Cannes, a revelação de mágoas escondidas

Quando o festival de Cannes foi inaugurado naquela noite de 10 de maio, mesmo sem se poder adivinhar a noite das barricadas a 700 quilómetros, havia um mal-estar que diversos realizadores e produtores culturais não ignoravam. Dois filmes sobre o Vietnam tinham sido retirados da programação, o que refletia como a guerra oriental se refletia na Europa, mas a principal fonte de crispação tinha sido a demissão de Henri Langlois, um respeitado e exotérico diretor da Cinemateca, por André Malraux, o ministro gaulista da cultura. Malraux era um escritor reconhecido e tinha sido um homem de esquerda, celebrizado pela publicação em 1933 de A Condição Humana, uma tragédia sobre a luta dos comunistas chineses. Participante da resistência antinazi, juntara-se a De Gaulle e era considerado o ministro mais poderoso da sua época. A sua evolução posterior no governo radicalizou-o à direita e o episódio do afastamento de Langlois tinha provocado um choque com os meios culturais. Grandes realizadores, como Hitchcock, Lange, Hawks, Losey ou Kurosawa, anunciaram, em solidariedade com o diretor demitido, que a partir de então proibiriam a passagem dos seus filmes na Cinemateca Francesa. Langlois é o “dragão que guarda o nosso tesouro”, dizia Jean Cocteau. No caso, o governo foi forçado a recuar, mas a ferida ficou e os participantes no festival de Cannes lembravam-se dela. Aliás, Malraux manifestava uma ideia fixa contra a liberdade do cinema: já tinha vetado a exibição de Suzanne Simonin, a Religiosa de Diderot, um filme de Jacques Rivette de 1966.

Assim, quando o festival abriu e chegaram as notícias de Paris, alinhavam-se vários fatores de contestação: o governo, ausente, era detestado, a organização do festival era suspeita e muitos dos cineastas queriam uma arte mais comprometida e inventiva e, sobretudo, manifestar o seu apoio à luta dos jovens. Por isso, logo que se soube que tinha sido convocada a greve geral para 13 de maio, a associação de críticos de cinema pediu a suspensão do festival e a convocação de uma manifestação solidária em Cannes. O presidente da organização, temeroso, contrapropôs o que pensou ser irrecusável: anulavam-se os cocktails e jantares de gala, mas o festival continua como estava previsto.

Protestos que exigem a interrupção do Festival de Cannes - 18 de maio de 1968
Protestos que exigem a interrupção do Festival de Cannes - 18 de maio de 1968

Os dois lados entraram em confronto a propósito da projeção de um filme entretanto esquecido de Carlos Saura, Peppermint Frappé, protagonizado por Geraldine Chaplin, com quem o realizador era casado. Tratava-se de um thriller sobre o machismo em Espanha e um dos principais filmes em competição. O facto é que Saura e Geraldine apoiaram o protesto e, com outros, tentaram impedir a abertura das cortinas para evitar a exibição do seu próprio filme. Não sei se perduram imagens de Jean Luc Godard, que perdeu os óculos, de François Truffaut, que foi espancado na refrega, e de Geraldine Chaplin, todos pendurados nas cortinas que iam subindo, a gritar “Projeção Não! Revolução!”, mas mereciam um filme. A cortina abriu em todo o caso, mas Roman Polanski, membro do júri, apoiou os revoltosos, e o mesmo farão Milos Forman, Claude Berri, Louis Malle e Claude Lelouch (que chegara a Cannes no seu iate, o que não deixou de ser notado pelas revistas de sociedade). Para Forman, tudo era muito confuso e disse-o aos seus colegas realizadores: em França via o mar de bandeiras vermelhas dos jovens manifestantes que gritavam pelo socialismo, mas chegava de Praga, onde os jovens contestavam ao lado de Dubcek o monolitismo do poder que exibia esse mesmo nome (em agosto, quando se dá a invasão soviética, Forman ainda estava em Paris) – mas confiava nos seus amigos, Malle, o libertário, e Godard, o maoista, e por isso apoiou-os em Cannes.

A partir desse choque, cresceu a contestação. A 18 maio, dá-se a ocupação da Grande Sala, onde começa um debate-maratona, há centenas de pessoas que querem o microfone, Godard propõe que sejam passados os filmes sem espetadores, Truffaut imagina o contrário, o que parece mais difícil, nenhuma das soluções se impõe. A organização acaba por ceder e o festival foi encerrado no dia seguinte.

Um ano depois, já De Gaulle se demitira, o festival foi reaberto e passou a incluir uma Quinzena dos Realizadores, os tempos tinham mudado. Foram então premiados filmes como MASH, de Robert Altman, um filme sarcástico de repúdio do militarismo, e Easy Rider, de Dennis Hopper, um manifesto da contracultura. O júri era então presidido pelo comunista Luchino Visconti, e destacou-se Z de Costa Gavras, uma história de luta pela democracia nas vésperas do golpe militar grego, com música de Mikis Theodorakis, então preso pela ditadura, e argumento do exilado espanhol Jorge Semprun. Em todo o caso, mesmo com estas mudanças de ambiente, o festival voltava à sua normalidade, com Tarkovsky, Ferreri, Lumet, Malle, Wadja, Rohmer e Malle em competição.

Tinha sido então, nesse protesto no mundo do cinema, só um esplendor na relva, um picnic de protesto domingueiro? Vale a pena medir esse mês de revolta em todos os seus sinais, e a contestação cultural dos anos anteriores terá sido dos mais expressivos e precursores.

O que se anunciava

O caldeirão que transborda em maio de 1968 tinha muito ingredientes. Havia a história política do desgaste das esperanças populares no pós-guerra, revelada na greve geral na Bélgica no inverno de 1960-1, na greve dos mineiros franceses de 1963 ou nas greves e confrontos na Grécia em junho-julho de 1965, dois anos antes de os coronéis tomarem o poder. Os regimes instalados depois da derrota do nazismo começavam a manifestar cansaço: mesmo em França, o partido do pós-guerra, o gaulista, só tinha obtido a maioria de um único deputado nas eleições parlamentares de 1967.

O desgaste do gaulismo era então evidente. Muitos jovens franceses tinham vivido a oposição à guerra da Argélia que marcava a história recente do seu país e os ódios políticos: em 1961, a polícia parisiense tinha massacrado pelo menos duas centenas de argelinos que se tinham manifestado pela independência, prendendo doze mil pessoas, seis mil no Palácio dos Desportos de Versalhes, outros três mil no Estádio de Vincennes – o que só se veio a confirmar por relatório oficial estabelecido 37 anos depois, mas que foi conhecido desde a primeira hora. Mesmo que De Gaulle tenha depois finalmente cedido e aceite a independência argelina, as ondas de choque desse movimento antiguerra já não parariam.

Em Itália, as universidades de Turim e Pisa tinham sido ocupadas em fevereiro de 1967, dando um sinal de partida para um movimento que, de novembro desse ano a Junho de 1968, organiza 102 ocupações de faculdades: os estudantes protestam por todo o país e organizam o seu próprio espaço.

Os exemplos e os estímulos demonstravam que o mundo estava a girar. Mas é possível que tenham sido os fatores culturais mais profundos, o desgaste do produtivismo e do sonho tecnológico, o conflito geracional com a hierarquia social e as normas morais conservadoras, a criarem o terramoto que se revela em maio

No plano internacional, havia o exemplo da América Latina e da Ásia, em que Cuba e o Vietnam cresciam como exemplos de que o impossível podia ser realizado. E onde ditaduras (Brasil em 1964) e guerras (no Médio Oriente, no Sudeste Asiático) revelavam uma escalada de confrontação com contornos locais apocalípticos. Ou havia também o impacto da Revolução Cultural Chinesa de 1966, que então impressionava a esquerda e acentuava o impacto do dissídio sino-soviético, não se conheciam ainda as purgas e o desastre social provocado por esse processo. Todas estas trincheiras universais pareciam confirmar uma sensação de colapso da ordem mundial baseada na hegemonia da Casa Branca.

Ao mesmo tempo, o império era desafiado dentro de portas. A luta pelos direitos civis constituiu o maior movimento social da história do país, com profundas consequências e, quando Martin Luther King foi assassinado no início de abril de 1968, detinha um forte poder de convocação. Esse movimento alimenta também o protesto antiguerra, e este instala-se nas faculdades e entre os jovens que serão recrutados para as forças armadas e para a guerra nas selvas e cidades do Vietnam. Em paralelo, o movimento hippy promove uma cultura de rebeldia, de pacifismo e de valores libertários que se expressa por exemplo no Summer of Love, o verão do amor, um festival que se realiza em Berkeley em 1967. De todas as formas, jovens contestam a guerra.

Na Europa de Leste, mesmo que fosse uma zona de penumbra e de desconhecimento, dado o compromisso dos então grandes partidos comunistas com Moscovo, surgiam sinais da mesma revolta. Na Polónia, dois intelectuais, Kuron e Modzelewski, escreveram em 1965 uma carta aberta ao partido comunista pedindo democratização, foram presos e condenados. O checo Petr Uhl publicou essa carta em Praga e foi preso. Começava a crescer uma vaga de contestação nestes países e, quando na Polónia foi proibida uma peça histórica sobre a resistência dos estudantes polacos contra o czarismo, que deveria estrear no Teatro Nacional, começou um movimento de ocupação das faculdades de Varsóvia (terminou precisamente no dia 10 de maio de 1968). Na Checoslováquia, Dubcek chegaria ao poder em janeiro de 1968, com a promessa de uma primavera redentora (durou pouco, as tropas soviéticas invadiram o país em agosto desse ano).

Os exemplos e os estímulos demonstravam que o mundo estava a girar. Mas é possível que tenham sido os fatores culturais mais profundos, o desgaste do produtivismo e do sonho tecnológico, o conflito geracional com a hierarquia social e as normas morais conservadoras, a criarem o terramoto que se revela em maio. A juventude é o centro dessas perturbações e não por acaso, então um terço da população francesa tinha menos de vinte anos, em resultado do recente baby boom do pós-guerra (agora essa percentagem será inferior em quase dez por cento). Esse enfado foi enunciado de muitas formas e criou a identidade de uma juventude em chamas.

A cultura que adivinha a revolta

Nanterre, a faculdade onde começou a explosão, tinha uma história particularmente intensa. O movimento estudantil era forte, as ameaças muitas – de raides policiais ou de milícias de extrema-direita, antepassadas do que é hoje a Frente Nacional, que atacavam a faculdade com alguma frequência – e os professores empenhados, destacando-se as grandes figuras intelectuais de Henri Lefebvre e Paul Ricoeur. Formavam-se grupos políticos e viviam-se discussões homéricas, com a sensação da eminência de grandes transformações, de tal modo que os comités de solidariedade com o Vietnam, que organizavam a mobilização liceal, acreditavam na vitória imediata dos guerrilheiros nas selvas distantes e dos seus negociadores no Hotel Majestic, ao lado do Arco do Triunfo. E sentiam a fragilidade do poder ao ouvirem a prosápia de De Gaulle, no conselho de ministros de 19 de maio: “reforma sim, bagunça não”, resumia ele. Malraux, tão excessivo quanto desesperado, terçava contra a “crise de civilização” provocada pelo “niilismo” dos jovens. Como se dizia então, a história morde-nos a nuca, ela já chegou. Mas o que juntou a massa dos jovens na rua?

É porventura impossível medir com exatidão a influência da contracultura na formação dessa consciência, na determinação de agrupamentos e na dinâmica social, em comparação com outras histórias e causas. Mas é irrecusável que houve um caldo de cultura que estimulou, registou, adivinhou ou pelo menos disseminou esses elementos de revolta. E foi isso que explicou como ela chegou ao Festival de Cannes.

É irrecusável que houve um caldo de cultura que estimulou, registou, adivinhou ou pelo menos disseminou esses elementos de revolta. E foi isso que explicou como ela chegou ao Festival de Cannes

A Nouvelle Vague do cinema francês, o Free Cinema de Inglaterra, o Cinema Popular de Itália, o Novo Cinema Brasileiro, todos comungavam a descoberta de novas formas de representação, mas também uma crítica social empenhada. Essa crítica florescia num contexto que é anterior à hegemonia da televisão como meio de comunicação e de entretenimento, ou seja, de conformação social, e em que a cultura do cinema e do cineclube determinam a presença ou mesmo a associação dos espectadores. O cinema não era só um lugar de culto, era um lugar de encontro; algum cinema não queria ser uma forma de entretenimento, mas de convocação.

Alguns filmes enunciavam assim um protesto diretamente político contra as guerras ou a repressão: Stanley Kubrick, com o seu Caminhos da Glória (1957), contava a história de um general francês que, na Primeira Guerra, desencadeia uma catástrofe militar e procura ocultar a sua responsabilidade condenando três soldados; em 1960 filma Spartacus, o protótipo do herói coletivo; Glauber Rocha lança em 1964 Deus e o Diabo na Terra do Sol, sobre a violência no sertão brasileiro; Gilles Pontecorvo concluiu em 1966 a Batalha de Argel, que viria a ser proibido pelas autoridades francesas; Carlos Saura filma em 1966 A Caça, uma evocação das memórias da guerra civil espanhola e, no mesmo ano, Basilio Patino conclui Nove Cartas a Berta. Em 1967, é estreado o panfleto antiguerra Longe do Vietname, um filme coletivo de Godard, Varda, Resnais, Lelouch e Ivens.

Se a guerra foi um tema presente nestes autores, foi no entanto na representação da vida quotidiana que eles se afirmaram, em particular com a Nouvelle Vague francesa, que tem o seu auge entre 1958 e 1962. Nela nasce uma geração de cineastas que marcará os acontecimentos e as décadas seguintes em França, são os que vão dirigir o levantamento de Cannes: Louis Malle conclui em 1958 Os Amantes, que escandaliza pelo sexo explícito, Truffaut no ano seguinte tem os 400 Golpes, uma história da cise e desorganização familiar, e Alain Resnais, com guião de Marguerite Duras, estreia Hiroxima, Meu Amor (1959), uma exploração misteriosa sobre a bomba atómica em paralelo com uma relação amorosa esgotada, que foi retirado da competição em Cannes pela organização e se tornou talvez o mais influente manifesto da Nouvelle Vague. Godard realiza a sua primeira longa metragem em 1960, A Bout de Souffle, com guião de Truffaut, que, já como crítico dos Cahiers du Cinéma se lançara contra o “cinema instalado”. A mistura de nostalgia e desespero que Belmondo e Jean Seberg representaram em A Bout de Souffle é o seu retrato do tempo.

A mesma questão foi tratada por Bernardo Bertolucci em 1964 com Antes da Revolução, um filme inspirado em A Cartuxa de Parma de Stendhal, e que conta a história de um estudante incomodado pelo conformismo e pela rotina. Era um tema próximo do de Georges Perec, com o seu livro As Coisas, de 1965, que narra o enfado de um casal de psicólogos, que viaja para vencer a modorra da vida de classe média e que acabam voltando ao que são, colecionadores de bibelots. Os filmes descrevem um tédio e uma hierarquia social pesada que constituíam o nevoeiro que enredava os jovens, que se reconheciam no retrato e procuravam promessas de resgate. Eles não queriam um cinema ou uma faculdade ou uma vida “instalada”, queriam subverter essa vida e vivê-la.

O aborrecimento

“Quando a França se aborrece”, era o título de um artigo no diário Le Monde a 15 de março de 1968, escrito pelo seu editorialista Pierre Viansson-Ponté. “O que verdadeiramente caracteriza a nossa vida pública, é o aborrecimento. Os Franceses aborrecem-se. Não participam nem de perto nem de longe nas grandes convulsões que abalam o mundo, a guerra do Vietnam emociona-os, mas não os toca verdadeiramente”.

Continuava o artigo: “A juventude aborrece-se. Os estudantes manifestam-se, mexem-se, lutam em Espanha, Itália, Bélgica, Argélia, Japão, América, Egito, Alemanha, mesmo na Polónia. Têm a impressão de que têm conquistas a obter, protestos a fazer ouvir, pelo menos um sentimento do absurdo que se opõe ao absurdo, mas os estudantes franceses preocupam-se por saber se as raparigas em Nanterre e Antony podem entrar livremente nos quartos dos rapazes, concepção apesar de tudo limitada dos direitos do homem.” E concluía depois de um elenco de aborrecimentos: “Numa pequena França quase reduzida ao Hexágono, que nem é verdadeiramente infeliz nem verdadeiramente próspero, em paz com todo o mundo, sem grande controlo dos acontecimentos mundiais, o ardor e a imaginação são tão necessários como o bem-estar e o crescimento. Não é certamente fácil. O imperativo vale tanto para a oposição como para o poder. Se não é cumprido, a anestesia arrisca-se a provocar a doença. E no limite, isso já aconteceu, um país também pode falecer de aborrecimento”.

Com alguma imaginação, este artigo foi relido mais recentemente como um diagnóstico e não como um prognóstico, como se adivinhasse o que viria uma semana depois. Deixo a interpretação aos intérpretes, mas o facto é que a revolta dos jovens que queriam que as mulheres pudessem mover-se em liberdade no campus universitário era um sino, que o editorialista do Le Monde confundiu erradamente com pasmaceira. Não eram poucas as razões para essa intenção libertadora, e nenhuma podia ser vista como fastio. Só em dezembro de 1967 tinha sido autorizada a pílula anticonceptiva, que até então era regida por uma lei de 1920, depois reforçada pelo regime de Vichy, que determinava que o aborto fosse punido com pena até à morte, sendo a pílula proibida. Nos anos sessenta, os jovens já tinham descoberto que essa moral era hipócrita e tinham que lhe fazer frente para fazerem as suas escolhas.

Nas universidades e nos cinemas, ou em muitos outros lugares de aprendizagem e de socialização, essa França não se aborrecia, vibrava. Aprendia também. Godard, com A Chinesa, em 1967, encenou uma história de estudantes que decoravam o Livro Vermelho de Mao para o recitarem em Nanterre, e provavelmente acreditava nele e neles. E era visto. Outros, mais subtis, tinham contado a história dos tempos da luta de classes, foi o caso do grande filme marxista da década de sessenta, O Leopardo, de Visconti (1963).

No Leste europeu, o polaco Polanski marcara a sua carreira com Faca na Água (1962) e o checo Milos Forman destacara-se com os Amores de uma Loira (1964), sobre o confronto de gerações, que viria a ganhar um Óscar, mas sobretudo com o Baile de Bombeiros (1967), um filme chaplinesco, como escreveu um crítico, retratando o absurdo da hierarquia dos pequenos poderes (continuou depois o mesmo tema, desta vez contrapondo a mediocridade ao génio num grande filme como Amadeus, de 1984). Não estavam sós: na Checoslováquia, Vera Chitylová estreou As Margaridas (1966), uma história criticando o desperdício e introduzindo métodos radicalmente inovadores, declaradamente para levar a ideia de filosofia ao espectador. Foi depois impedida de trabalhar no seu país. Jaromil Jires fez a primeira adaptação de Kundera em 1968, e todos estes realizadores e realizadoras refletiram, quando não trouxeram mesmo para o cinema essa sociedade em mutação, alguns experimentando argumentos antiformalistas através de exercícios de improvisação, ou mesmo de secundarização do argumento, ou de inovação nas regras da montagem.

Por conjugação cósmica dos mercados e dos seus percursos, muitos deles se encontraram em Cannes naquela noite de 10 de maio: Forman, Polanski, os franceses, alguns espanhóis. Todos sentiam essa atmosfera de novidade e de invenção e, quando lhes chegaram as notícias de Paris, souberam que o seu mundo estava a mudar.

A luta, que continua

A noite das barricadas terminou com a imposição da ordem policial, o fim de semana permitiu o reagrupamento de forças e, a partir de segunda feira, deu-se a confluência entre as manifestações estudantis e a greve geral operária. A greve prolongou-se e foram passando os dias: ao fim de uma semana, eram sete a nove milhões em greve (entre 15 milhões de trabalhadores nas empresas). Três semanas depois resistiam quatro milhões e, na quarta semana ainda dois milhões estavam parados, já contra as instruções dos sindicatos. Foi a maior greve selvagem da história europeia, que se prolongou mesmo depois de as centrais sindicais, a 27 de maio, terem assinado em Grenelle um acordo com o patronato e o governo: aumento de 35% no salário mínimo e 10% no salário médio, mais a liberdade de criação de seções sindicais de empresa. Mas muitos trabalhadores e trabalhadoras queriam mais poder social, não lhes bastava mais salário.

A contraofensiva do regime só começou no final de maio. A 29, De Gaulle desaparece, na verdade viajou para a Alemanha para consultar os chefes militares, no dia 30 uma grande manifestação gaulista ocupa as ruas, o governo hesita entre a força militar e as eleições, predomina a solução proposta pelo primeiro-ministro, o parlamento é dissolvido e, a 30 de junho, realizam-se eleições, que o partido gaulista ganha por grande maioria. Um ano depois tenta reforçar a legitimidade do seu poder, convoca um referendo, mas De Gaulle é derrotado e demite-se. Termina assim a revolução de Maio mas também a liderança do regime do pós-guerra.

O que fica então desta época? A revolta juvenil só produziu o festival de Woodstock em 1969? Uns anos mais tarde, as opiniões predominantes parecem afirmar que o resultado das barricadas e da greve geral foi a aprendizagem do narcisismo moderno, ou uma descoberta do hedonismo e da revolução sexual. Como se os cremes antirrugas, os metrossexuais e o jogging fossem a herança de Maio, e os seus filhos sejam uns pimpões que se ocupam a passar o tempo descobrindo o individualismo radical depois do maoismo transcendente. Régis Debray, que andou pela guerrilha do Che e, ao regressar, manteve uma atitude radicalmente intransigente, publicou “Maio de 68, Uma Contrarrevolução Conseguida”, para se juntar paradoxalmente a esta simplificação. A desilusão com a revolução que não houve leva-o a zangar-se por não encontrar uma história domesticada, que cumpra uma profecia e que realize uma ideia, e vê nela a personificação da contraprofecia, a desistência e a acomodação.

Se há uma herança de Maio, que é a dos movimentos sociais que então se expressaram, é a luta contra o sexismo, ou contra o racismo, ou pelos direitos civis, ou pelo ensino público, ou pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras na empresa, que definiram o mínimo de que parte a vida democrática. Essa transformação foi onde nenhuma outra tinha chegado, à produção cultural que antecipou e protagonizou este mês que abalou o mundo, de Paris a Cannes e de Praga a San Francisco. Foi tudo? Foi quase. Os revoltosos de 1968, quem viveu esse PREC, talvez pudessem reconhecer estes versos de Mário de Sá Carneiro em Quási:

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

Artigo de Francisco Louçã, publicado na revista do jornal Expresso de 5 de maio de 2018

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