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Impacto laboral do Covid19 será maior entre mulheres e precários

As mulheres são a maioria dos trabalhadores com vínculo precário e também a maioria nas áreas laborais mais afetadas pela pandemia. Investigadoras lembram também a desigual distribuição da conciliação do teletrabalho e do trabalho doméstico, bem como o facto de elas serem a maioria (85%) das famílias monoparentais.
Impacto laboral do Covid19 será maior entre mulheres e precários
Fotografia de Paulete Matos.

O impacto da pandemia de covid-19 no mercado de trabalho já se sente e afeta trabalhadores de todas as áreas. Porém, à semelhança de todas as outras crises, esta afetará mais desproporcionalmente as pessoas e grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade.

Embora o ministério do Trabalho e da Segurança Social não divulgue os dados desagregados por sexo, já é possível antecipar que as mulheres serão o grupo mais afetado pelo impacto da pandemia no mercado laboral, uma vez que são a maioria entre os trabalhadores precários e também a maioria dos trabalhadores nos setores laborais mais afetados.

“Aquilo que já sabemos é que esta crise é sanitária, mas é, também já, económica e laboral. E é distinta da crise que se iniciou em 2008, que começou por afetar as atividades mais vulneráveis ao setor financeiro. O novo [na atual crise] é que os setores de produtividade onde as mulheres estão mais representadas estão mais expostos a vários níveis”, observa Sara Falcão Casaca à agência Lusa.

A professora do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa e coordenadora do projeto Women on Boards explica que estas são a maioria nas áreas de atividade “feminizadas”: saúde e cuidados e serviços de subsistência. As mulheres compõem 92% dos auxiliares de saúde, 83% dos enfermeiros, 55% dos médicos, 80% dos prestadores de cuidados a idosos e pessoas dependentes e dois terços dos trabalhadores de supermercado, restauração e hotelaria.

Além disso, como muitas destas atividades sofrem com a elevada precariedade que lhe é associada, a probabilidade de os trabalhadores afetados terem “almofadas financeiras” às quais recorrer nesta altura é muito inferior.

“Sabemos que as mulheres estão muito mais fragilizadas do que os homens e vão sofrer muito mais com as consequências desta pandemia”, corrobora Helena André, diretora da OIT/ACTRAV (Centro das Atividades para os Trabalhadores).

“Se houver um aumento forte do desemprego – e sabemos que vai haver um aumento muito forte do desemprego –, as mulheres vão ser as primeiras a serem penalizadas no regresso ao mercado de trabalho e em praticamente todos os setores de atividade”, constata, lembrando que a maioria das famílias monoparentais (85%) são compostas por mulheres.

“Não é nada de novo, que não tenha acontecido em crises anteriores, mas mostra-nos que a nossa capacidade para estabilizar a situação e a posição das mulheres no mercado de trabalho não tem sido feita com o cuidado que devia ser feito”, admite a antiga ministra do Trabalho.

Helena André deixa um aviso: “se o teletrabalho passar a ser algo muito mais expandido do que até agora, terão que se procurar seriamente infraestruturas de apoio às mulheres em teletrabalho, sobretudo as que têm familiares a cargo, quer sejam crianças ou pessoas mais idosas”.

“O vírus dos despedimentos tem de ser tratado como uma pandemia e com meios tão poderosos como os que estão a ser mobilizados na área da saúde”, defende José Castro Caldas.

Para o economista, o foco de preocupação devem ser “as pessoas que não têm praticamente nenhum vínculo estável com o mercado de trabalho, cujo rendimento depende de uma atividade que agora está provavelmente suspensa”.

Tratam-se, explica, de “pessoas com relações laborais absolutamente atípicas” que são “uma multidão em Portugal” e “estão completamente descobertas por qualquer forma de proteção, a começar pelo subsídio de desemprego”.

“Para essas, a criatividade [do Governo] tem que ir bastante mais longe do que até agora, porque há um problema de subsistência a que é preciso dar resposta”, corrobora.

Também a Organização Internacional do Trabalho (OIT) fala na “pior crise mundial desde a II Guerra Mundial”. A organização tem publicado relatórios claros a este respeito: quatro em cada cinco trabalhadores foram afetados pela suspensão total ou parcial dos seus empregos; 6,7% das horas de trabalho desapareceram já no segundo trimestre de 2020, equivalendo a 195 milhões de trabalhadores a tempo inteiro.

Despedimentos, diminuição de salários e horas de trabalho, suspensões de contrato e colaborações sucedem-se a um ritmo galopante que não deixa dúvidas: esta crise terá, já está a ter, um forte impacto no mercado de trabalho, sobretudo nas áreas do alojamento e restauração, manufatura, comércio e atividades comerciais e administrativas, bem como na economia informal. Em todas estas áreas laborais, o impacto “afeta desproporcionadamente as mulheres”, assinada a OIT.

“Esta é uma pandemia que vem pôr a nu muitas das fragilidades do tecido económico e social e que nos vai obrigar, provavelmente, a olhar de uma forma diferente para aquilo que têm sido os modelos que temos aplicado até agora. Penso que nada ficará igual e que a forma como nos vamos relacionar, a forma como vamos trabalhar, a forma como nos vamos movimentar vão mudar profundamente”, antecipou Helena André.

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