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Erik Olin Wright (1947-2019) e a racionalidade insubmissa

O sociólogo americano faleceu esta quarta-feira. Revisitando Marx através do marxismo analítico, foi um especialista na análise das dinâmicas atuais das classes sociais e um promotor das “utopias reais”.
Foto de Aliona Lyasheva/Wikimedia Commons

Professor de Sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison e ex-presidente da Sociedade Sociológica Americana, Olin Wright ficou conhecido pelos seus trabalhos sobre classes sociais primeiro. A partir dos anos noventa, desenvolveu um projeto chamado Real Utopias Project tendo, no seu âmbito, editado uma coleção de livros.

Parte importante da sua obra pode ser lida gratuitamente na sua página.

Marxismo analítico

Erik foi uma das figuras de proa do movimento denominado marxismo analítico. Estes autores procuravam conjugar o racionalismo da filosofia analítica com os pressupostos marxistas. Por isso, dizia recusar tanto a marxologia, a busca da interpretação correta de Marx, quanto a Marxolatria, a sua adoração acrítica. Na sua versão, o marxismo analítico era uma forma de buscar cientificidade, clareza de raciocínio e entender as ligações entre as motivações individuais e o quadro geral social.

Classes

O modelo tradicional de duas classes em confronto parecia-lhe inadequado e simplista. A alternativa de lhes somar apenas o conceito vago de classe média também não resolvia as complexidades da realidade. Daí que Olin Wright se dedique a compreender estas classes cuja pertença é mais difícil de encaixar. Para o fazer empreendeu amplos estudos empíricos e comparativos da estrutura e consciência de classes em várias sociedades. Interessavam-no os “lugares contraditórios dentro das relações de classes” e avançou com a possibilidade de algumas camadas intermédias ocuparem simultaneamente posições em mais do que uma classe. Vai ainda defender a complexidade das localizações de classe para analisar as formas individuais de ligação com as relações de classe (através das relações pessoais e familiares e da dinâmica das carreiras).

Utopias reais

A partir do início dos anos 1990, a sua investigação centra-se nas alternativas ao capitalismo que não se confinassem ao modelo soviético. Nasce aí, o Real Utopias Project, termo que procura captar a tensão entre as aspirações morais a um mundo livre de opressão e as dificuldades dadas as limitações da realidade. Ou seja, sendo um dos defensores de uma “revolução intersticial”, a ideia de que a transformação social deveria ocorrer através do alargamento de espaços de empoderamento social, também aí procura ter um olhar racional não disfarçando os problemas, limites, entraves da sua proposta, nomeadamente as pressões do capitalismo, aconselhando que se deveria juntar esta perspetiva com a forma de revolução-ruptura tradicional, sempre insistindo na rede democrática como sua base. Nas suas palavras, as utopias realistas “funcionariam se lá chegássemos; são utópicas porque incorporam ideais emancipatórios”.
O projeto de estudo das utopias reais dedicou-se a procurar casos empíricos que prefigurassem alternativas às instituições e estruturas existentes. Foi nesse âmbito que estudou a wikipedia, as bibliotecas públicas, as experiências de agricultura urbana comunitária, o rendimento básico incondicional, as cooperativas de trabalhadores, a economia social. Processos que seriam não-lineares, levantariam sinergias ao nível local pelo que poderiam “acelerar a criação de utopias reais transformativas”.

Erik e a vida

Na sua última publicação, a 18 de janeiro, quando a morte se aproximava inexoravelmente, Erik Olin Wright explicou detalhadamente e sem ilusões o seu estado de saúde declarando que lhe faltava “um tempo muito limitado nesta maravilhosa forma de poeira estelar”. Facto que dizia encarar sem medo, sem queixas e de que sublinhou o carácter extraordinário: matéria tão complexamente organizada “que é capaz de refletir sobre a sua coisidade e sobre como tem sido algo extraordinário estar vivo e consciente de que se está vivo e consciente de que se está consciente de que se está vivo. E dessa complexidade vem o amor e a beleza e o significado que constitui a vida que eu vivi.”

Decidi aproveitar este extraordinário privilégio que tive, não para viver uma vida de auto-indulgência mas para criar sentido para mim e para outros através da tentativa de fazer do mundo um lugar melhor.”

Considerava-se um privilegiado por ter “contra todas as probabilidades não viver uma vida de medo e sofrimento pelas crueldades da nossa civilização”, por não ter nunca “sentido o medo da fome, da insegurança física no meu bairro”, por ter tido os recursos para criar da melhor forma a sua família.

Por isso, dizia-se preenchido na “vida incrivelmente significativa e intelectualmente excitante que viveu.” E escolheu para o seu final estar confortável, “não estar drogado”, estar presente mas “apenas no contexto de estar verdadeiramente vivo.

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