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Uber: e quando chegar a sua vez?

Na “nova economia” não há vencimentos fixos, horários, férias ou fins-de-semana. Trabalha-se sempre que há trabalho. Enquanto ainda há trabalho. Todos passamos a ser empresários de nós próprios.

A inglória luta dos taxistas contra a Uber, ícone maior daquilo que muitos gostam de designar por “nova economia” devia significar muito mais do que o estrebuchar de um setor em declínio face à inevitabilidade do progresso. Porque é, de facto, muito mais do que isso. A comunicação social e os braços armados do marketing das denominadas plataformas eletrónicas tentam ao máximo reduzir a questão à mera escolha entre o velho e o novo, o ultrapassado e o inovador. E os passageiros, encantados com o conforto e com os preços praticados, seguem embalados sem tentar compreender o que está realmente em jogo.

Mas esta “invasão” das plataformas eletrónicas pouco tem de novo, a não ser, porventura, o modus operandi, potenciado pela Internet e pela disseminação do uso de smartphones e aplicações móveis para todos os fins. Na génese do que já é apelidado de “uberização” da economia está um princípio bem antigo e muito caro aos pilares do neoliberalismo: o de que quanto menos regulação melhor e de que o Estado deve meter-se na sua vida e deixar “o mercado funcionar”. Certamente, ouviu muito disto ainda não há muito tempo atrás, recorda-se?

O setor dos transportes, como o do alojamento local ou do retalho não foram sequer dos primeiros onde a chamada uberização da economia passou a ditar leis. Muito antes, em plena crise económico-financeira global, profissões, sobretudo criativas, ligadas ao design, à comunicação, à produção de conteúdos e até ao jornalismo começavam a conhecer aquele que seria, doravante, o paradigma do “seu” novo ecossistema de trabalho.

Plataformas como o Text Broker, Get a Freelancer e muitas outras prometiam textos únicos e originais, projetos completos de webdesign, websites, aplicações, newsletters ou até campanhas de marketing a “preços acessíveis” e sem mais encargos para os seus clientes. Quer isto dizer que, por valores muito abaixo do praticado no mercado, uma empresa passou a poder encomendar uma campanha de marketing, um website ou até uma revista institucional sem ter departamento de marketing, profissionais de comunicação ou assessores de imprensa nos seus quadros.

Nesta “nova economia”, a estrutura das empresas é reduzida ao mínimo, deixando as funções não essenciais para profissionais externos que trabalham à peça, por meia dúzia de tostões e sem reclamar. Simples, eficaz e muito mais económico. Não há ordenados a pagar ao fim do mês, nem contribuições para a Segurança Social, nem IRS. E muito menos subsídios de férias ou de natal.

As modernas ferramentas tecnológicas permitem hoje, em muitas profissões, trabalhar a muitos quilómetros de distância, sem sequer sair de casa e, ainda assim, comunicar com o mundo inteiro. Quer isto dizer, que, na “nova economia” também não há horários, férias ou fins-de-semana. Trabalha-se sempre que há trabalho. Enquanto ainda há trabalho. Todos passamos a ser empresários de nós próprios, sem vínculos, contratos de trabalho ou direitos sociais.

É claro que a Uber, como as outras plataformas eletrónicas que dominam outros tantos setores do mercado de trabalho, dão outra versão da história, dourando a pílula e apelando ao espírito empreendedor que há em cada um de nós, em cada “parceiro”. Para quem não sabe, um parceiro é um trabalhador, perdão, colaborador, da Uber com veículo próprio. Parceiro porque não tem qualquer vínculo com a empresa e trabalha por sua conta e risco.

A seu cargo fica o pagamento do seu próprio vencimento, dos respetivos descontos e das contribuições para a Segurança Social. Fica ainda por sua conta o pagamento do seguro do carro, do combustível, do IUC e da revisão, bem como de todas as despesas de manutenção e reparação que o automóvel exigir, fruto do desgaste que vai sofrendo. E, o próprio carro, claro está!

Além de ter de suportar todas estas despesas, o parceiro Uber ainda tem de pagar 25 por cento de tudo o que recebe à casa-mãe. Será um modelo “win-win”, como apregoa a multinacional? Talvez seja mais um modelo apenas “win”. Basta recordar que a Uber UK teve, em 2015, receitas de 28 milhões de euros e pagou apenas 454 mil euros de impostos, ou seja, pouco mais de 1,6 por cento do que faturou. E tudo isto numa versão “light”, já que a Uber, em 2016, tinha, em Portugal, uma estrutura com apenas seis funcionários.

Nesta nova economia, há exércitos de microempresários entregues à sua sorte, que trabalham noite e dia para conseguir sobreviver e pôr algum pão na mesa, enquanto as multinacionais das plataformas eletrónicas enriquecem com as royalties exigidas aos parceiros. Isto, enquanto vão contornando a fiscalidade através de sedes em países como a Holanda e contribuindo para uma distribuição cada vez mais desigual da riqueza acumulada.

Este conceito, deveras apetecível para quem emprega, está a disseminar-se a uma velocidade acelerada e não deverá faltar muito para que diversas outras profissões se vejam enquadradas neste novo “modelo”.

E, não tenhamos dúvidas, com este paradigma, são os mais fracos que ficam a perder: os trabalhadores, porque perdem os parcos vínculos e os poucos direitos sociais que ainda subsistem, o Estado, porque arrecada menos receita e vê aumentar significativamente o perigo de insolvências, situações de desemprego e de pessoas no limiar da pobreza, e os próprios clientes porque, mais tarde ou mais cedo, as plataformas, enquanto detentoras do monopólio do negócio, poderão subir os preços ao cliente final a seu bel-prazer.

E, aí, já não haverá volta a dar. É caso para citar, em jeito de aviso ou conselho, um velho poema de Bertolt Brecht:

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
De seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e especialista em copywriting e marketing digital
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