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A louca ideia “extremista” de pôr os lucros dos bancos a ajudar as famílias

Desde 2008, e segundo dados do Tribunal de Contas, os bancos portugueses custaram ao bolso dos contribuintes mais de 23 mil milhões de euros. Entre BES, BPN, BPP, Banif e outros, o valor ascendeu a quase três vezes o orçamento anual da Educação.

Quando a li, à notícia, veio-me à memória uma frase que uma gestora de balcão de uma conhecida instituição bancária me disse há pouco tempo: “sabe que os bancos não brincam em serviço”. E não brincam mesmo. Mas é porque nós, os eleitores, ou melhor, os que votam nos partidos que nos governam, deixam.

Mas, voltemos à notícia. De acordo com o jornal Eco, periódico especializado em economia, a “escalada das taxas de juro” fez “disparar 80%” os “lucros dos bancos em Portugal, para 5,6 mil milhões em 2023”.

Quer isto dizer, segundo aquele jornal, que “à boleia da escalada das taxas de juro, o sistema bancário nacional registou resultados de 5,6 mil milhões de euros no ano passado, mais 80% face a 2022.”

O resultado é histórico para a banca nacional e foi conseguido “à boleia da escalada das taxas de juro.”

Resultado histórico da banca à custa da subida das prestações da casa

Sensivelmente, uma semana antes, um barómetro da Deco revelava que três em cada quatro famílias portuguesas sentiram sérias dificuldades para pagar as suas contas em 2023.

Segundo o inquérito periódico levado a cabo pela associação de defesa do consumidor, 75% das famílias inquiridas tiveram dificuldades em pagar as suas contas e 7% encontrava-se numa situação crítica.

De acordo com a Deco, “face ao aumento das taxas de juro, quase 28% das famílias enfrentaram dificuldades para pagar os seus empréstimos bancários.”

Os empréstimos bancários surgem mesmo como a terceira despesa que mais aumentou em 2023, mais concretamente, 6% face a 2022.

Não é preciso muito esforço para encontrar uma correlação evidente entre estas duas notícias, separadas por apenas uma semana.

Basta um pouco de bom senso para concordar que a banca podia e devia abdicar de uma parte dos seus quase obscenos lucros para ajudar as famílias que, mensalmente, têm de cortar na conta do supermercado, da luz ou da farmácia para pagar a prestação da casa.

Não será, de todo, uma ideia extremista colocar a banca a ajudar as famílias portuguesas num momento de particular aperto. Não será, certamente, uma monstruosidade colocar parte desses lucros conseguidos à custa da desgraça das e dos portugueses para tornar a sua vida um pouco menos penosa. Ou será?

E quando foram as famílias a salvar os bancos, ainda se lembra?

Para alguns que têm memória curta ou para outros, muito jovens para se recordarem, o período da troika pode assemelhar-se hoje a uma distopia típica de um filme de ficção científica. Só que foi bem real. E muitos sentiram-na bem na pele. Houve quem, desesperado, tivesse tirado a própria vida.

Nesse momento histórico da vida do país, para alguns distópico e distante, as e os portugueses foram chamados pelos governos de PSD/CDS-PP e PS a salvar vários bancos que foram, na altura, vítimas do mercado de que tanto gostam.

Desde 2008, e segundo dados do Tribunal de Contas, os bancos portugueses custaram ao bolso dos contribuintes mais de 23 mil milhões de euros. Entre BES, BPN, BPP, Banif e outros, o valor ascendeu a quase três vezes o orçamento anual da Educação.

Se os lucros astronómicos da banca são o mercado a funcionar, mas, em momentos de iminente insolvência, as regras desse mercado são para inglês ver, então, em alturas de aperto para as famílias, as normas também deviam ser de exceção.

E não, não é radical nem extremista reservar parte dos lucros da banca, anteriormente tão ajudada pelos contribuintes, para salvar a casa das famílias com dificuldades em pagar a prestação. É uma questão de bom senso, de justiça económica e social e de equilíbrio. E esses deviam ser os princípios para uma vida equilibrada e justa em sociedade.

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