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Lembra-se, é o amianto, sr. ministro?

O “novo” ministro Tiago Brandão Rodrigues parece crer convictamente no mito urbano de que se ignorarmos um problema com muita força ele eventualmente acabará por desaparecer.

Sintra, Loures, Seixal. Três concelhos, três protestos em pouco mais de uma semana a reivindicar a remoção de amianto de diversas escolas tuteladas pelo Ministério da Educação. Três agrupamentos diferentes, três localidades distintas, o mesmo flagelo. Centenas de pessoas nas ruas, cordões humanos, marchas, caminhadas, indignação e protesto.

Professores com o coração nas mãos, pais e mães assustadas, funcionários não docentes desalentados e sem esperança. É esta a realidade que o próximo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, vai herdar do seu antecessor… Tiago Brandão Rodrigues.

A escolha de António Costa até poderia ser irónica, não fosse ser de total mau gosto e motivada por razões políticas mal explicadas. Cai mal nos professores, cai mal nos funcionários não docentes, pior ainda nos encarregados de educação, todos fartos de inércia e de promessas.

Esta escolha é elucidativa da importância que o “novo” executivo dará a este flagelo que afeta equipamentos escolares de norte a sul do país: de Olhão a Guimarães, do Seixal à Portela, de Mira-Sintra a Queluz e a São João da Talha.

A mesma importância com que Tiago Brandão Rodrigues brindou as mais de duas centenas de pessoas – pais, mães, professores e professoras, diretores de escolas, funcionários não docentes, alunos e ex-alunos – que ansiavam por respostas na Conferência “Amianto na Escola Pública: causas, consequências, soluções”, que decorreu a 10 de setembro, na Escola Secundária da Portela, no concelho de Loures.

Mas que viram as suas angústias prolongadas porque do Ministério da Educação nem ministro, nem secretário de Estado, nem sequer um diretor. “Rien de rien”, como cantaria a saudosa Edith Piaf.

O “novo” ministro Tiago Brandão Rodrigues parece crer convictamente no mito urbano de que se ignorarmos um problema com muita força ele eventualmente acabará por desaparecer. Mas, a julgar pelas últimas semanas, terá de o fazer com muito mais determinação.

Um ministro que é como o algodão: não engana!

Esta nomeação de Costa tem, no entanto, uma vantagem: já não ilude ninguém. Tiago Brandão Rodrigues é como o algodão, não engana. Mestre na arte de empatar, doutorado em empurrar com a barriga, Cristiano Ronaldo da indiferença, Tiago Brandão Rodrigues promete mais quatro anos de ausência e falta de diálogo.

Só que desta vez, a comunidade escolar está mais consciente e esclarecida acerca dos perigos que corre diariamente ao deslocar-se para o seu local de trabalho ou de estudo. Professores, encarregados de educação, diretores e alunos sabem hoje muito bem que o amianto é um material extremamente perigoso para a sua saúde e que tem de ser removido de todas as escolas com urgência.

E sabem também que a alternativa aos canais de comunicação formais – tantas vezes surdos e mudos -, são os protestos na rua, as marchas, os cortes de trânsito, as manifestações, as escolas fechadas e os megafones. Porque um mérito ninguém lhe tira, sr. ministro: conseguiu unir toda a comunidade escolar contra si e a sua inoperância. E como isso pode ser difícil!

Fica a promessa de reivindicação sem quartel até ser criada uma lista nacional de escolas a intervencionar, calendarizada, com a despesa devidamente cabimentada e os concursos a decorrer. E até essa lista ser tornada pública e divulgada às direções dos agrupamentos, às associações de pais e a todas as entidades que têm como motivo de existência a defesa da Escola Pública.

Para que, finalmente, as famílias portuguesas possam dormir em paz, sem medo do que possa acontecer aos seus filhos e netas que têm aulas de manhã. E os professores e funcionários não docentes possam trabalhar sem medo do ar que respiram. Porque a nossa Escola Pública merece mais do que um Tiago qualquer!

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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