Está aqui

WTF? Amianto outra vez?!

Casos há em que as equipas de remoção de amianto são contratadas para retirar telhas e coberturas em fibrocimento e acabam por remover muitos outros materiais bem mais perigosos.

Confesso que, até à data de envio deste texto, estive bastante indeciso entre este título ou o sempre original “Amianto para totós”. Tudo porque parece que grande parte da denominada sociedade civil aparentemente ignora (ou quer ignorar) os perigos substanciais que o amianto representa para a saúde humana.

Há bem pouco tempo, foi possível assistir a uma situação do género, in loco, quando a Assembleia Municipal de Loures aprovou, por maioria, uma recomendação do Bloco de Esquerda para a retirada do amianto das escolas do concelho.

Para fazer face a situações deste género, decidi escrevinhar este pequeno naco de prosa, servido como se fosse para crianças de 4 anos. Ponto prévio: como aqui escrevi há pouco tempo, está cientificamente comprovado que o amianto é extremamente perigoso para a saúde humana. Em poucas palavras, o amianto mata! Aos poucos, silenciosamente, mas mata!

Como também referi na altura, segundo a Direção-Geral de Saúde (DGS), “a exposição a qualquer tipo de fibra de amianto” deve “ser reduzida ao mínimo”. Isto porque “a exposição ao amianto pode causar”, entre outras, “as seguintes doenças: asbestose, mesotelioma, cancro do pulmão e ainda cancro gastrointestinal”. Alguns estudos recentes indicam que o amianto pode estar também na origem do cancro da próstata.

Conferência sobre “Amianto na Escola” em setembro em Loures

Antes de avançar mais no tema, permitam-me um pequeno espaço de divulgação (não publicitário, atente-se). Vai ser possível conhecer, em pormenor, todos os perigos, consequências e materiais potencialmente contendo amianto na Conferência "Amianto na Escola: causas, consequências, soluções", que tem lugar a 10 de setembro, na Escola Secundária da Portela, concelho de Loures. A entrada é livre, mas a inscrição é obrigatória.

Posto este pequeno apontamento de agenda, voltemos ao que nos traz aqui. Para a maioria dos e das leitoras que ainda não mudou de página, o fibrocimento – tipicamente contido nos telhados dos edifícios e pavilhões – será a principal (senão, a única) fonte de amianto potencialmente perigosa para a saúde humana. E apenas se estiver degradado. Isso deixaria muita gente descansada e com a consciência tranquila, não fosse um pequeno pormenor: não é verdade!!!

Tintas, gesso, papel, fios elétricos: tudo isto tem grandes quantidades de amianto

Basta uma pequena pesquisa por algumas das várias fontes credíveis existentes na Internet, como a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), para verificar que o amianto se encontra em muitos mais materiais e muito mais frequentemente do que possamos imaginar.

Entre os mais comuns, contam-se equipamentos de proteção individual contra o fogo ou altas temperaturas, materiais de isolamento elétrico, têxteis, papéis e cartão à prova de fogo, dos quais se destacam as cortinas dos teatros mais antigos, misturas com gesso, argamassas e estuques e até alguns tipos de tinta bastantes utilizados nas nossas escolas.

Casos há em que as equipas de remoção de amianto são contratadas para retirar telhas e coberturas em fibrocimento em escolas ou outros edifícios públicos e acabam por remover muitos outros materiais bem mais perigosos e com uma percentagem de amianto bastante superior.

Alemanha, Austrália e Suíça há muito que baniram o amianto das escolas

Em países em que as questões da saúde pública são levadas a sério, - como a Austrália, a Alemanha ou a Suíça -, há muito que todos os materiais contendo amianto foram retirados e substituídos em todas as escolas.

No Reino Unido, por exemplo, um simples acidente com um camião, que deu origem à queda de material com amianto para a via pública, motivou o corte da estrada nos dois sentidos até que todos os resquícios de amianto fossem retirados.

A esta situação, talvez não seja alheio o facto de, no Reino Unido, estar-se a assistir a um pico de mesoteliomas por exposição ao amianto, devido ao hiato de desenvolvimento da doença, que pode durar várias décadas desde o momento da exposição.

No limite, como a exposição ao amianto é por via de nanopartículas, portanto invisíveis, basta uma paragem no local errado, à hora errada, e algum azar, para mais tarde se sofrer severas consequências.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), alegadamente, a ingestão de amianto não é nociva, no entanto, tratando-se de nanopartículas, sabe-se que, após ingestão, as mesmas são libertadas pela corrente sanguínea e distribuídas pelos vários tecidos. Vários cientistas questionam-se, por isso, se não faltarão mais testes neste sentido.

Longe de querer ser alarmista, como haverá sempre quem apregoe, no que toca ao tema do amianto importa ser rigoroso, exaustivo, transparente e, sobretudo, responsável! É por isso que urge escrever mais textos como este. Mesmo correndo o risco de ser apelidado chato, obcecado ou até demagogo.

Todas as ações, intervenções, conferências, chamadas de atenção, pregões de megafone e textos enfadonhos como este são poucos até que o amianto entre definitivamente na agenda nacional e se torne aquilo que deve ser: um problema de saúde pública e uma prioridade na ação política! Porque o tempo urge e não corre a nosso favor!

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
(...)