Não vale a pena olhar para trás. A saudade do tempo que passou é sempre uma construção mitológica e autocontemplativa: nem chegámos aqui trazidos por uma felicidade que se esvaiu, nem havia uma magia que organizava o nosso mundo e que se esgotou.
Francisco Louçã, Três mudanças sem retorno.
No rescaldo das eleições legislativas, mais ainda do que em momentos anteriores, o “problema de comunicação” da esquerda vem à tona. Comunicamos bem ou mal? “As pessoas” entendem-nos? As propostas eram boas, mas não foram bem explicadas? O que fazer para comunicar melhor?
Já escrevi aqui que, por norma, sou cético a essa abordagem centrada na “comunicação”. Temo que seja superficial ou até despolitizada, que lhe escapem os problemas mais estruturais, que reproduza uma lógica em que a comunicação se sobrepõe à organização, à análise social e política, à definição estratégica.
Claro que há elementos de comunicação que devem ser tidos em consideração. A taxação dos “ricos” não deveria ser apresentada como sendo aos “super-ricos”, aos “milionários” ou coisa que o valha? Os “direitos de quem trabalha por turnos“ não deveriam ser ampliados como “direito à conciliação entre vida profissional e familiar” (colocando a esquerda como defensora, e não oponente, das “famílias”)? A abstração dos “trabalhadores por turnos” não deveria ser substituída por “aquelas pessoas que trabalham à noite, aos fins-de-semana, nos feriados”? Provavelmente, sim.
Porém, há um outro nível do “problema de comunicação” que vale a pena ser pensado e que reflete questões mais estruturais e estratégicas. Para o fazer, proponho uma pequena provocação. Como são ouvidas e interpretadas algumas das fórmulas comuns, omnipresentes no discurso da esquerda, pelos ouvidos de um trabalhador médio, daquelas e daqueles a quem nos dirigimos? Proponho um pequeno dicionário experimental que traduza como são interpretadas parte das nossas expressões-chave:
“Defender a constituição”: defender o regime que falhou à maioria do povo, manter as coisas como estão, opor-se a mudanças que, para pior, não devem ser.
“Estado de direito”: o Estado afastado do povo, inalcançável, cujos meandros e mecanismos de poder são incompreensíveis para o cidadão comum, acessíveis apenas a uma casta privilegiada logo, usados contra a maioria do povo.
“A Esquerda”: grupo de partidos onde se destaca o PS, logo, responsável pela governação de parte importante das últimas décadas no país.
Direitos humanos: “Pois, e os meus direitos, porra?”
Isto é, evidentemente, uma caricatura. Até porque “o povo”, e mesmo a classe trabalhadora, não é homogéneo. Isto será mais verdade para as gerações mais novas, para os setores menos escolarizados – ou seja, aqueles menos beneficiados pelo elevador social que, durante várias décadas, o regime económico-social nascido em 1975 garantiu. Em partes da população que ainda têm contacto, ou memória ativa, com as tradições da esquerda, o jargão progressista e democrático ainda terá algum eco. Mas essas são tendências em retrocesso acelerado.
Constatar que, para a maioria do povo materialmente interessado na defesa dos direitos constitucionais, a expressão “defesa da Constituição” pouco diz, não pode significar que abdicamos de defender esses direitos e de combater a revisão constitucional da direita. Isso é evidente. Perceber que “A Esquerda” é hoje uma expressão ambígua que junta no mesmo saco o centro-esquerda responsável pelo estado do país e aqueles que o combatem não implica que deixemos de nos afirmar como sendo de esquerda. Talvez um bom critério, para escolher cada expressão que usamos, seja pensar se essa palavra ou fórmula alguma vez faz parte do discurso quotidiano de um trabalhador comum, ou se só aparece na sua vida vinda de fora, na Televisão, pela boca de “políticos”. Porque a maioria das pessoas fala, naturalmente, de direitos constitucionais – do estado do SNS, da educação, do emprego, do valor das pensões; está interessado que os seus filhos e netos vivam em segurança, num mundo de paz e não sejam discriminados e violentados – mas não chama a isso “direitos humanos”; e, em grande medida, deseja uma mudança social que traga uma vida melhor à maioria do povo – contudo, nem sempre o associa à esquerda, e certamente não ao PS. Algumas destas expressões teremos de abandonar, outras de disputar. Contudo, um bom princípio é evitar as abstrações e a ambiguidade.
Para terminar, voltemos ao início. Este é um problema de comunicação. Mas é muito mais do que isso: é uma questão estrutural e de estratégia política.
Estrutural porque: o consenso em torno do regime da democracia-liberal (ou democrático-burguês, ou de democracia capitalista, em termos marxistas) está em decadência acelerada. E não foi a extrema-direita quem o feriu de morte, foi a crise capitalista de 2008 e os seus gestores, foram Passos e Portas, mas também Costa. O neofascismo impulsiona uma maciça politização reacionária dessa crise, aprofundando-a, mas não a cria. O fim da ascensão social de largas camadas da população, durante décadas impulsionada pelas “conquistas de Abril”, é a base material que explica o fim dos “valores de Abril”. E portanto, que explica o curto-circuito da comunicação fundada nessa ordem e nos seus valores. Novos valores, ou os mesmos renovados, virão de novas conquistas – arrancadas na mais dura das lutas.
Este é, assim, também um problema estratégico: atrás da escolha das palavras vemos um dilema de estratégia: cabe-nos a defesa da ordem que desmorona ou a luta por uma nova? E qual? (Não confundamos estratégia com tática, é evidente que combateremos a revisão constitucional da direita e os retrocessos que ela representa – mas é esse o nosso horizonte estratégico?) Detrás da escolha estratégica, encontramos a orientação social: para que classes falamos, centralmente? Para os segmentos cada vez mais estreitos (mas com maior impacto da opinião pública, na academia, etc.) que mantêm ainda alguma réstia de ascensão social e que, portanto, se agarram com tudo às ideias abstratas do consenso moribundo? Ou (sem virar as costas aos primeiros) orientamo-nos para os que foram deixados para trás pelo modelo económico-social em crise?
É disto tudo que falamos, quando falamos de comunicação. Também neste terreno, a inércia é a maior armadilha, pois tudo está posto em causa.