1. O mundo mudou. Vivemos uma conjuntura particularmente difícil e avessa à esquerda radical. Nos últimos 20 anos, assistimos a uma penetração acelerada das tecnologias digitais na vida social, cujo resultado tem sido a constituição do que «Bifo» chama um super-organismo bio-informático, onde vigoram os princípios da manipulação e da automação dos comportamentos a larga escala, esvaziando a possibilidade de autonomia individual e de sentido crítico. Sem surpresas, estas tecnologias são controladas por um punhado de oligarcas digitais, não sendo naturalmente neutras do ponto de vista ideológico. Assim se compreende o favorecimento estrutural de conteúdos de extrema-direita nas plataformas digitais, cujo algoritmo operacionaliza o alinhamento entre o segmento dominante do capital e as forças reacionárias que o servem. O facto da geração jovem, a mais conectada de sempre, se estar a voltar massivamente para a extrema-direita demonstra isto com clareza.
2. A abstração digital e financeira são a resposta de um capitalismo que já não produz, cujas inovações tecnológicas e melhorias de produtividade estão desligadas da necessidade social, contribuindo apenas para uma valorização virtual de ativos intangíveis. A crise de acumulação capitalista, em curso desde o final da década de 60, traduz um esgotamento paulatino das soluções para a manutenção do regime de acumulação. Assim se compreende a viragem para o autoritarismo e para a guerra, como táticas para normalizar a violência, para ‘banalizar o mal’, proporcionando desta forma a legitimidade às classes dominantes para remover obstáculos democráticos à exploração. Este contexto estreita a margem de operação para a esquerda, à medida que as classes populares são convencias pela manipulação em massa da inevitabilidade da guerra e de que terão de viver pior, descredibilizando-se a possibilidade de um futuro melhor que a esquerda visa corporizar.
3. Não surpreendem, assim, os resultados destas eleições que sinalizam um movimento de ‘direitização’ da sociedade análogo às tendências acima descritas, assim como ao avanço de uma extrema-direita capaz de arregimentar a raiva das classes populares depauperadas. No entanto, apesar do contexto desfavorável, há forças de esquerda como La France Insoumise em França e o Die Linke na Alemanha que têm conseguido resultados improváveis e, mais importante do que isso, têm feito caminho na disputa cultural e na formação de maiorias sociais. Isto mostra que a margem de manobra à esquerda pode ser maior do que parece.
4. No Bloco, estamos conscientes de tudo isto. Fizemos uma campanha inovadora. Fizemos campanha porta a porta por todo o país, tendo falado com dezenas de milhares de pessoas, e sabendo que a conversa em pessoa é a única forma de contrariar a mediação pela televisão e pelo algoritmo. Focamos o nosso discurso em temas centrais na vida da classe trabalhadora e apresentamos propostas disruptivas como o teto às rendas, que furaram a agenda mediática e polarizaram o debate. Apostamos na inovação estética e comunicativa para fazer a batalha das redes, com algum sucesso. Este trabalho, começado recentemente, não teve ainda frutos no plano eleitoral, mas evidencia uma esquerda desperta para o mundo onde vivemos e disponível para inovar e fazer a luta necessária. Com o conhecimento acumulado da campanha, que ilações podemos agora tirar? O que fazer mais para devolver à esquerda a capacidade de disputar a hegemonia num contexto tão adverso?
5. A experiência do porta a porta foi considerada inequivocamente positiva por praticamente todos e todas as militantes com que falei. Sentimos, apesar da desilusão ocasional das portas que não abrem, que as pessoas estão frustradas, mas têm grande vontade de conversar e de serem ouvidas. Constatamos também que, apesar das ocasionais conversas difíceis e preconceitos complicados de desconstruir, existe recetividade para o nosso programa político, em particular nas classes mais populares. Pudemos ver que a obsessão com imigração, habilidosamente engendrada pelas forças reacionárias e media coniventes, está altamente difundida, mas ela resulta mais de uma revolta com as condições de vida difíceis e falta de responsividade política do que necessariamente de atitudes racistas proeminentes (se bem que têm claramente o seu papel).
6. O porta a porta, o encontro e a conversa podem bem ser as únicas formas de fazer a luta ideológica com a direita, reconectar a esquerda com as classes populares e, assim, conquistá-las de novo para o nosso lado, num momento em que as outras arenas comunicativas nos são tão desfavoráveis. Por tudo isto, vale a pena continuar. Neste momento histórico, como assinalou Mark Fisher, já não vivemos offline e só nos conectamos quando precisamos de alguma coisa, mas vivemos, sim, online e só nos desconectamos se a isso formos obrigados. Há uma verdadeira epidemia de solidão e dessensibilização provocada pelo isolamento e atomização dos indivíduos na era digital. Neste sentido, o contacto com as pessoas, não só no porta a porta, mas também em convívios, festas, discussões abertas nos bairros, é uma arma política verdadeiramente transformadora, no sentido em que só assim se fomenta a convivialidade, a inter-identificação, a empatia e a solidariedade, que são fundamentais para vencer os projetos de ódio e darwinismo social das direitas. A nossa missão deve passar, então, pelo enraizamento social e territorial, pelo contacto frequente com as populações, pela escuta ativa. Um partido popular que enquadra efetivamente as massas em vez de apenas disputar o seu voto nas televisões de 4 em 4 anos pode ser a receita para a construção de uma maioria social em tempos difíceis.
7. A enorme experiência acumulada desta campanha permite-nos também perceber outras coisas. No contacto direto, apercebemo-nos que a forma mais eficaz de desmontar a retórica mentirosa, mas pervasiva, da extrema-direita sobre a imigração não é a disputa da veracidade, mas sim o redireccionamento do antagonismo. Se apresentamos factos que desmentem os preconceitos sobre os imigrantes, as pessoas retorquem-nos com ‘factos alternativos’: que viram no Facebook, que uma prima lhes contou, que observaram na junta ou no bairro. Constatamos efetivamente que as pessoas respondem melhor a um discurso que apresenta outros culpados numa linha de classe: que lhes diz que o seu problema não é o imigrante que trabalha ao seu lado, mas o patrão que tem lucros altos e paga baixos salários, os milionários que não pagam impostos, os grandes grupos económicos que lucram todos os anos à custa do preço das casas, da energia e da fatura do supermercado.
8. É um erro culpar o povo. O sentimento dominante não é o ódio racial per se, mas sim uma enorme revolta com o estado das coisas, com vidas muito difíceis e cada vez mais precarizadas ao longo dos anos, com a falta de resposta e alternativa políticas a estes problemas. A raiva generalizada tem que encontrar um culpado e o Chega consegue capitalizá-la porque o apresenta de forma clara, cavalgando em preconceitos racistas que o precedem. Reparemos que o imigrante não é apenas insultado, mas apresentado como chave de uma visão sobre a sociedade em que ele é mobilizado como fator explicativo de todas as suas dimensões: o imigrante causa a criminalidade, a falta de casas, a falta de resposta na saúde, etc. A questão não é se as pessoas são racistas ou não, pois sabemos que bem mais que 1,3 milhões de pessoas em Portugal têm atitudes xenófobas; é se essa questão é decisiva para o voto e para a auto-constituição como sujeito político – isso sempre foi e é possível disputar à esquerda.
9. Autores como Didier Eribon têm razão quando acusam a esquerda de ter abandonado o antagonismo como princípio estruturador da sua intervenção política: o apagamento da noção de classe em favor do individualismo neoliberal obliterou as categorias de perceção coletivas das classes populares. No período pós-Guerra Fria, a esquerda por toda a parte tem abdicado de radicalidade para ser palatável para o grande público, capitulando em diferentes graus ao neoliberalismo. Durante demasiado tempo, deixamo-nos enredar no jogo da governance, de nos limitarmos a apresentar propostas para a mera gestão do sistema, sem procurar escapar à sua lógica e gramática nem em fornecer uma leitura alternativa do social.
10. Quando a revolta com o estado das coisas e as atitudes antissistema são maioritárias, não conseguimos evidentemente canalizá-las e corporizá-las no plano político, pois também nós temos aceitado as regras do jogo. Parece-me que única hipótese de travar o crescimento da extrema-direita e a caminhada para o que Fernando Rosas chama ‘autoritarismo de novo tipo’, é disputar as classes populares. Isso implica oferecer-lhes uma cosmovisão coerente, verdadeiramente alternativa às ideologias dominantes, que, mais do que apresentar propostas de política pública compartimentalizadas, apresente uma visão totalizante sobre o social, construindo uma forma de ver o mundo com uma gramática própria, moldando, assim, valores, emoções e aspirações. Esta proposta terá, naturalmente, de contemplar o antagonismo como mecanismo central de mobilização da (justificada) raiva das classes populares, mas em linhas de classe. Isto implica sujar as mãos: definir inimigos claros, construir uma ideia de grupo maioritário popular que suscite a auto e inter-identificação, e de repetir ad nauseum esta mensagem de confronto até que ela destitua as subjetividades de extrema-direita. Temos, de facto, explorado nesta campanha um discurso promissor que coloca a maioria trabalhadora contra os milionários, mas é preciso afinar.
11. A esquerda tem que voltar a corporizar o antagonismo, o antissistema, a radicalidade de forma a reconectar-se com as classes populares, o segmento eleitoral maioritário que é, ao mesmo tempo, o eleitorado natural de uma esquerda anticapitalista. Como visto pela ascensão do Livre, não podemos depender somente de um eleitorado afluente, urbano e diplomado. Isso implica também saber comunicar de forma popular, dando expressão ao eleitorado popular, que se sente esquecido e não representado na política tradicional. Como se faz isto? Com o povo, conhecendo-o e dando-lhe voz, promovendo os seus representantes, em diálogo permanente nos bairros e nas ruas.
12. É preciso também construir um discurso que não seja apenas técnico e focado em propostas concretas, mas que crie um apelo afetivo e emocional. Um projeto de contra-hegemonia eficaz precisará sempre deste apoio pré-teórico e desta energia libidinal, não podendo depender apenas num apelo técnico, lógico e racional, especialmente num período em que será tão difícil ter espaço mediático para tentar provar a razoabilidade das nossas propostas.
13. Parte deste projeto tem que passar por desenvolver um programa coerente e holístico. Mais do que uma agremiação de propostas setorias, um programa deve ser uma visão integrada e verdadeiramente alternativa para o país. Temos um programa muito diferente do centro e da direita, bem sabemos. No entanto, ao limitarmo-nos a apresentar propostas circunscritas e em tudo compatíveis com o status quo, não estamos a responder ao anseio popular por alternativa política. É preciso expandir o imaginário político além do pensável para construir um programa que seja mobilizador e dê esperança num futuro fundamentalmente diferente, mesmo que isso implique romper com dogmas do pensamento dominante. A esquerda tem que mostrar que tem uma resposta estrutural e de fundo para os problemas do país e só com um programa à altura nos poderemos apresentar como uma alternativa credível. Por isso, sim, temos que falar de economia, do modelo económico desequilibrado e dependente de Portugal, de alternativas estruturais, de relações de propriedade. Não tenhamos ilusões: o nosso espaço será cada vez mais estreito e só com disrupção, inovação e rasgo o poderemos alargar.
14. Esta campanha permitiu construir partido. Integramos pessoas novas, reforçamos os laços entre camaradas fazendo a luta em conjunto. Neste momento de recuo, é preciso cerrar fileiras e continuar este trabalho com espaços de encontro e momentos de luta coletiva. É urgente lançar um programa permanente de formação política para capacitar os e as militantes para a luta difícil que se avizinha. Ao mesmo tempo, precisamos de alargar para fora, reforçar pontes com sindicatos, movimentos sociais, associações, comunidades e, claro, também partidos do nosso campo. Este é um tempo de refluxo de toda a esquerda – e a esquerda à altura da história não confunde aliados com inimigos e saberá fazer o diálogo e as convergências necessárias.
15. Os resultados foram difíceis e é fácil ficar-se desmoralizado. No entanto, sabemos pela História que só a esquerda é a real barreira ao fascismo. Quando ele se torna de novo numa possibilidade, a nossa militância e sagacidade política são mais necessárias do que nunca. Saibamos estar à altura.