Passar para a frente

porDiogo Machado

30 de janeiro 2025 - 16:49
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Vivemos no tempo dos monstros. A raiva e o desespero que alimentam os monstros são a resposta ao presente precário e ao fatalismo do futuro cancelado. O futuro da esquerda dependerá de saber construir uma alternativa radical a tudo isto.

Até há bem pouco tempo, a imigração não era de todo um tema saliente no panorama político português. Ao longo de diferentes governações e maiorias parlamentares, este sempre foi um assunto pacificado, algo que merecia até um relativo apoio por parte da população. Sucessivos estudos de opinião a nível europeu mostravam ao longo dos anos que a imigração não era uma preocupação significativa dos portugueses, ao contrário da tendência europeia.

Mais ou menos de repente, a imigração instalou-se no centro do debate público desde há cerca de um ano, merecendo discussão e cobertura televisivas permanentes, e instando até o governo a adotar medidas da extrema-direita contra imigrantes na ânsia de cavalgar nesta onda. Hoje, a imigração já se assume como uma preocupação central de muitos portugueses e os tropos da extrema-direita sobre imigrantes já são quase lugares comuns.

A centralidade que este tema adquiriu na esfera pública e o seu impacto na formação de cosmovisões individuais e de grupo só tem uma explicação: o ativismo insidioso do Chega, que ‘empurrou’ o tema da imigração para a agenda, com grande sucesso.

Este exemplo anedótico mostra que uma caraterística da extrema-direita contemporânea é a sua capacidade de fixar a agenda; mais do que isso, de disputar a hegemonia cultural, de propor uma ideologia apelativa capaz de concorrer com outras, de conquistar influência social e formar (inter)subjetividades. Aliás, diria até que neste momento esta disputa está a ocorrer à direita: entre o neoliberalismo em declínio desde 2007-08 e a emergente mundividência racista e autoritária da nova extrema-direita.

Estas são hoje as cosmovisões mais pervasivas na nossa sociedade: por um lado, o individualismo, a competição e os sentimentos pró-mercado/anti-Estado; por outro, o etno-diferencialismo, a autoridade, a desconfiança e o ressentimento. A esquerda – falo daquela que não se rendeu ao neoliberalismo – tem ficado fora desta disputa. Não só a sua influência política e social tem diminuído, como não tem sido capaz de apresentar uma proposta político-ideológica apelativa e mobilizadora, que seja capaz de rivalizar com o neoliberalismo, e agora com a extrema-direita.

Poucas pessoas se assumirão como anticapitalistas ou como socialistas. Apesar de uma grande coincidência a nível das preferências da generalidade eleitorado com as bandeiras tradicionais da esquerda portuguesa (defesa do SNS público, escola pública, aumentos de salários), muitas pessoas hesitariam em dizer-se de esquerda e cada vez menos votam nos partidos de esquerda.

Sabemos que o declínio da esquerda radical está profundamente relacionado com o contexto histórico: com o avanço do neoliberalismo e a desestruturação do mundo do trabalho e do sindicalismo, com a queda da URSS e consequentes violentas campanhas ideológicas (‘o fim da história’) contra as ideias socialistas, que conseguiram efetivamente estigmatizá-las aos olhos das massas, com a concentração de poder económico numa minoria de ultra ricos, com enorme influência na política, meios de comunicação social e redes sociais, empenhados em marginalizar-nos.

No entanto, seria desonesto ignorar as responsabilidades da esquerda na forma como tem reagido e atuado neste contexto desfavorável. Não cabe aqui uma análise aprofundada deste fenómeno (procurei fazê-la aqui). Queria focar-me apenas numa dimensão: a forma como temos articulado a nossa resposta política.

O pano de fundo é a relativa moderação da esquerda no pós-Guerra Fria, tendo abandonado uma retórica marcadamente anticapitalista face à deslegitimação da ideia de socialismo em prol de uma proposta política social democrata mais consensual. Dada a rapidez e intensidade da ofensiva neoliberal, isto foi instrumental para tentar defender (com pouco sucesso, diga-se) as empresas públicas, o Estado social e a legislação protetora dos direitos dos trabalhadores, ainda que se abdique de um horizonte de transformação social mais ambicioso.

Este discurso da esquerda contemporânea, contudo, contém armadilhas perniciosas. Por um lado, ele foca-se em exigências muito circunscritas, em matérias de foro quase técnico e compartimentalizadas (por exemplo, saúde, lei laboral, etc.), desligadas de uma narrativa geral sobre o social. Isto limita o alcance libidinal da proposta da esquerda, que outrora foi tão mobilizadora e inspiradora, ao mesmo tempo que coarta a sua capacidade de disputa cultural com outras ideologias mais totalizantes com disposições que vão muito além de políticas públicas concretas, apontando para formas de ver o mundo, para valores, emoções e aspirações.

Por outro lado, estamos presos a uma postura essencialmente reativa – de choque face às violentas propostas dos neoliberais e da extrema-direita, tentando defender o status quo ex ante e tentando evitar os avanços da direita nestas matérias. O problema é evidente: é a abdicação de iniciativa política, é limitarmo-nos a debater com a direita os assuntos que ela levanta e nos seus termos, argumentando com referência a valores ou factos consensuais na tentativa de demonstrar a irrazoabilidade das suas propostas.

Recuperando o exemplo com que comecei, creio que o debate da imigração ilustra perfeitamente isto. Este assunto foi apadrinhado e tornado saliente pelo governo para esconder a sua incompetência evidente em todas as áreas da governação. Confrontados com as alegações ultrajantes de que a imigração estaria relacionada com a suposta insegurança, empenhamo-nos em mostrar dados de relatórios que mostram que isto não é verdade. Muito bem, mas tem isto resultado no esmorecer destas perceções? Tenho dúvidas. Se é importante dar esta resposta? Claro que sim, mas cingimo-nos muitas vezes a aceitar os temas da direita, sem questionar porque é que os levantam, sem procurar virar a atenção mediática para os nossos temas, sem resistir a debater nos termos que ela fixa, e sem fazer referência a quadros de valores diferentes, a conceções mais alargadas de sociedade por nós formuladas.

Não conseguiremos conquistar pessoas para o nosso projeto se apenas nos definirmos em oposição às direitas. É tempo de recuperar iniciativa política e colocar a direita à defesa, de ser propositivo em vez de reativo. A postura de dar resposta aos problemas do sistema no seu contexto e com a sua gramática não sai da lógica do paradigma ideológico vigente, não produz alternativa e, por isso, não disputa a sua hegemonia cultural.

Já se vai formando a ideia de que nos falta uma grande narrativa à esquerda, evitando a tentação do curto-termismo e da política de ‘apagar fogos’ do quotidiano para desenvolver uma ideologia coerente e abrangente que dispute a cultura, os valores, as visões do mundo e as emoções. Da necessidade de ativar a criatividade radical para construir um projeto de mobilização e de esperança, não só de crítica; que crie um apelo afetivo, emocional, libidinal, e não puramente técnico e lógico; e que tenha uma gramática própria, distinta das ideologias dominantes, abrindo novas possibilidades do real e novos horizontes no imaginário político.

Vivemos no tempo dos monstros. Desde há mais de 40 anos que nos dizem que a única escolha possível é entre neoliberalismo e neoliberalismo; hoje, já parece ser entre fascismo, guerra e caos climático. A raiva e o desespero que alimentam os monstros são a resposta ao presente precário e ao fatalismo do futuro cancelado. O futuro da esquerda dependerá de saber construir uma alternativa radical a tudo isto; quiçá, o da humanidade também.

Diogo Machado
Sobre o/a autor(a)

Diogo Machado

Mestre em Relações Internacionais e trabalhador do setor financeiro
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