Olá, Miguel

Quando me confrontei com a ausência insuperável de ti, percebi que coisas houve que não cheguei a dizer-te.

30 de abril 2012 - 17:33
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É sempre assim e contigo não foi diferente. Quando me confrontei com a ausência insuperável de ti, percebi que coisas houve que não cheguei a dizer-te. Porque não me pareciam importantes, ao ponto de te surpreender, dizendo-as. Porque o faço, então, agora? Como tu próprio dirias, porque não sou santa, nem parva – pelo menos, não tanto – e arrependo-me do silêncio consentido.

O Bloco chegou-me pela tua mão. Disseste: lê isto (chamava-se “Começar de Novo”) e depois conversamos. Conversámos e valeu, tem valido a pena. Nunca estivemos, fisicamente, juntos, nem nas vitórias, nem nas derrotas, d´áquem e d’álem mar, porque as geografias do nosso compromisso não eram, não são as mesmas. Mas cada um de nós ‘começou de novo’, sempre, à sua maneira.

Agradeço-te, do fundo do coração, o desafio que, então, me fizeste, não tanto pela extraordinária intensidade que trouxe à minha vida mas, sobretudo, porque tenho a veleidade de pensar que outros/as ‘começaram de novo’ connosco e muitos/as ‘começarão’ amanhã. É claro que a alegria e a esperança fundadora deste nosso projeto político pertencem-te, inteiramente. Mas deixa-me comungar dela, aqui, no meio do Atlântico, até porque me lembro muito bem de tantos/as me perguntarem, logo no princípio, se o Bloco de Esquerda e os Açores alguma vez se entenderiam. Bloco de Esquerda/Açores, estatutariamente autónomo - como a terra e as gentes que defende - é a resposta ao cepticismo militante.

Outra coisa importante: gosto de ti, sem que isso queira dizer concordância absoluta ou seguidismo tático a tudo o que pensaste, fizeste e disseste. E se respeito, muito, o teu percurso de vida, confesso-te que admiro ainda mais a forma como enfrentaste o fim eminente dessa vida. Conturbada, apaixonada, contraditória, às vezes, mas vivida até à última gota, em prol de um horizonte maior, melhor, mais justo e fraterno, no qual eu me incluo e também persigo.

Contigo, porque não concebo outra maneira de te prestar homenagem que não seja esta: reinventar, a cada momento, todas as lutas possíveis, em nome da dignidade humana e da construção de um mundo sem donos. Com o prazer, a convicção e a combatividade que sempre te reconheci. Desculpa não te ter dito mais cedo…

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