Miguel Portas

O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.

02 de maio 2012 - 20:08
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Conheci o Miguel no Liceu. Tínhamos aquelas idades em que três anos de diferença ainda fazem toda a diferença. Preso aos 15 anos, militante comunista e dirigente do MAESL antes do 25 de Abril, ele era uma figura de referência. Ele já estava em Económicas e só frequentava o Passos Manuel como controleiro da UEC.

O PREC acabara e a bipolarização radicalizada entre os POP's que dominaram o Liceu e a direita que acabara de ganhar a Associação, abria a oportunidade para ensaiarmos uma das primeiras listas de unidade entre a UEC e a JS, sarando as feridas que a revolução abrira.

Iniciámos então uma nunca esgotada negociação, que alimentámos ao longo de todos estes anos, tantas vezes sem qualquer propósito, que não a amizade e o gosto de desafiarmos os acordos impossíveis, eu sempre o tratando provocatoriamente por Suslov e ele tratando-me carinhosamente por Bernstein.

O Miguel Portas teve sempre uma extraordinária capacidade de liderança, descobrindo talentos, mobilizando capacidades, lançando iniciativas, organizando tudo e todos, do Festival pela Paz em Tróia, às múltiplas publicações que animou, do Contraste à Vida Mundial, com uma personalidade transbordante de energia e criatividade, sempre em inevitável tensão com os limites inerentes às organizações em que militante e disciplinadamente se procurava enquadrar.

A Coligação Por Lisboa em que participou, mais como amigo pessoal do Jorge Sampaio, do que como militante do PCP, permitiu à cidade de Lisboa beneficiar do contributo do Miguel Portas, em particular na política cultural, sendo grandes marcas que perduram o modelo de Festas da Cidade e o pavilhão multiusos/rockódromo porque se bateu desde a elaboração do programa de candidatura e que aí está como Pavilhão Atlântico.

Na política, pelo menos, o Miguel foi sempre um sedutor e namorador inveterado. Na primeira metade da década de 90, namorámos bastante. O muro caíra, o PCP abria brechas, o PS revolvia-se em disputas internas, o cavaquismo exigia uma alternativa e era clara a necessidade da recomposição orgânica da esquerda. Ele teve esperança que uma dissidência no PS pudesse fortalecer uma nova força a nascer à esquerda. Eu, que uma nova corrente fortalecesse a diversidade do PS como alternativa. Esvaziámos uns maços de cigarros, bebemos bons copos, comemos muito couscous no Mercatudo, ficámos mais amigos, mas cada um ficou na sua esquerda. Tudo visto havia espaço para o PS se fortalecer e para a Politica XXI, primeiro, e o Bloco, depois, nascerem. E nós sempre podíamos prosseguir a nossa negociação. Poderia até ser uma oportunidade para um novo relacionamento nas esquerdas. Pôde muito menos do que poderia, mas pôde em -poucos- mas importantes momentos como os referendos da descriminalização da IVG ou a oposição à participação de Portugal na invasão do Iraque.

Logo a seguir à primeira operação do Miguel juntámo-nos, a "malta do Passos", num jantar no restaurante do Américo. O Henrique não pôde ir. Mas estiveram o Licas, o Toy, o Farinha, o Mira, a Isabel... Vários. O Miguel teve de sair cedo. Havia um comício onde tinha de ir falar. Ficámos aliviados. Nem a doença, nem a cura mudaram o Miguel Portas. A luta continua, a vida só merece ser vivida com paixão, mesmo que a paixão consuma a vida.

Faltou-nos o tempo. Encontrámo-nos fugazmente em Bruxelas quando o Comité das Regiões não coincidia com a semana de Estrasburgo ou uma missão do Miguel Portas a alguma Palestina; trocámos informações sobre a evolução da doença de um amigo comum, também do Passos e também em Bruxelas, que nos deixou entretanto; jantámos juntos, com tempo, há alguns meses, talvez um ano, com a Marisa ao pé da Place Flagée. Foi muito bom. No fim apanhámos o mesmo táxi e deixei-os à porta de casa. "Liga da próxima vez que vieres". "Claro ou diz alguma coisa quando fores a Lisboa". "Combinado." Segui.

Na última terça-feira de manhã, o Francisco Louçã alertou-me. Ainda enviei um SMS ao Miguel. Como sempre, assinei Bernstein. A negociação que iniciáramos em 1977 não teve continuidade. Desta vez o Suslov não respondeu. Fica para sempre a amizade. No fundo, o que é mais importante.

O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida.

Á Helena e ao Nuno, à Catarina e ao Paulo, ao André e ao Frederico, a todas as famílias Portas, um grande abraço e muito obrigado por tão generosamente terem partilhado connosco o Miguel.

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