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As esquerdas e a ditadura militar brasileira

Brevíssimas reflexões sobre as esquerdas brasileiras, nos 21 anos de ditadura militar (1964-1985). Por Carlos Vianna.

Uma explicação pessoal

O texto abaixo é composto por extratos de um projeto maior: um livro que estou escrevendo, com o título de “A Derrota”. Revisados, resumidos para o presente dossiê doEsquerda.net, a quem agradeço a oportunidade. O tempo do livro são estes 50 anos, desde 1964. Com algum toque memorialístico e, por isso, refiro-me ocasionalmente no texto à minha pessoa. Ainda só cheguei a 1984, neste projeto. Assim, aqui, debruço-me mais sobre os primeiros 21 anos, até a posse do primeiro governo civil, em 21 de abril de 1985. Mas não deixo de abordar, brevemente, os seguintes 30, até os dias de hoje. Parto da premissa que nós, esquerda de origem marxista, fomos mais derrotados que vitoriosos. Não só no Brasil, como é óbvio. E apesar de termos, na presidência da República uma representante típica da geração de esquerda da que faço parte, a de 68.

Participei intensamente dos caminhos e descaminhos desta geração de esquerda militante até sair mais uma vez do Brasil. Já vivo em Portugal há 25 anos, dedicado politicamente ao associativismo imigrante, mas sempre ligado no Brasil. Aqui ajudei a criar o núcleo do PT em 1992, mas desliguei-me de qualquer militância partidária há muitos anos.

Espero que a leitura seja enriquecedora para os leitores da Esquerda.net, desejosos de perceber melhor a História do Brasil recente, do ponto de vista da ação das esquerdas.

1964/1974: A derrota da resistência armada

“…a meu ver [a luta armada] teve a significação de violência retardada. Não travada em março-abril de 1964 contra o golpe militar direitista, a luta armada começou a ser tentada pela esquerda em 1965 e desfechada em definitivo a partir de 1968, quando o adversário dominava o poder do Estado, dispunha de pleno apoio das Forças Armadas e destroçara os principais movimentos de massa organizados. Em condições desfavoráveis, cada vez mais distanciada da classe operária, do campesinato e das camadas médias urbanas, a esquerda radical não podia deixar de adotar a violência incondicionada para justificar a lutada armada imediata” (Jacob Gorender, “Combate nas Trevas”)

Jacob Gorender foi das melhores cabeças da esquerda brasileira. Historiador e militante comunista, de uma rigorosa postura intelectual, seu livro é considerado o melhor resumo dos primeiros 20 anos que se seguiram ao fatídico ano de 1964.

O golpe de 1964, amplamente organizado em comum acordo com o governo dos Estados Unidos e suas agências, era previsível, coerente com a ofensiva contra os governos progressistas latino-americanos e tudo que cheirasse à esquerda, desencadeada após a derrota da direita continental que significou a Revolução Cubana.

A derrota de 1964 foi em grande medida uma derrota do Partido Comunista Brasileiro, então quase hegemônico no universo das esquerdas organizadas e muito influente no movimento sindical, estudantil, com vários parlamentares camuflados em outras legendas e influência real no governo João Goulart.

A falta de resistência popular e armada ao golpe, salvo episódios esporádicos, o reboquismo à liderança de Goulart, o clima de ilusão e euforia vivido no PCB antes do golpe vão marcar profundamente o que veio a acontecer a este partido.

A derrota que significou o golpe contra-revolucionário de 1964 e os acontecimentos que a ele se seguiram levaram, dialeticamente, à crise no PCB e na sua política considerada reboquista pelos milhares de dissidentes que o abandonaram a partir de 1964, aí incluídos alguns dirigentes de 1ª linha.

No plano internacional Cuba e a radicalizada China passaram a ser uma alternativa de apoio e inspiração aos dissidentes do comunismo filo-soviético.

A violência, como alternativa tática e estratégica no combate à ditadura, apresentava-se como natural, compreensível e inevitável para muitos militantes insatisfeitos e humilhados pela bota militar. Como dizia um velho militante, conforme contado pelo Eurico Natal, lendário companheiro de Duque de Caxias, ao relatar a justificação daquele seu amigo para aproximar-se de uma organização da esquerda armada: “Eu estou cansado de levar pontapé na bunda, quero dar também.”

A década 64-74, iniciada com a derrubada do governo legítimo de João Goulart, herdeiro político de Getúlio Vargas, vai terminar com a derrota completa da esquerda armada, oriunda em grande parte de dissidências do PCB, que tentou implantar um modelo de guerra revolucionária influenciada pelo exemplo e apoio cubano, a partir de 1968. Também fez parte desta tentativa de deflagração desta guerra a partir do campo o foco guerrilheiro implantado pelo PC do B, partido comunista ligado ideologicamente à China, que já em 1959 “rachou” do PCB, com vários dirigentes históricos como João Amazonas, Pedro Pomar, Diogenes Arruda e outros, alguns dos quais tinham sido parlamentares na breve vida legal do PCB entre 1945 e 1947. Apesar de criticar o foquismo cubano, o PC do B foi a organização de esquerda mais consequente com a ideia de revolução armada a partir do campo. A guerrilha do Araguaia (norte de Goiás, sul do Pará) mobilizou a ofensiva de milhares de militares, nos anos 72-73. Mais de setenta guerrilheiros foram assassinados ou mortos em combate.

O farol de Cuba

O farol de Cuba e a teoria ultra-vanguardista do foco, da “faísca que incendeia a pradaria” foi se alastrando, a partir de 1967. Mas no caso da Dissidência Secundarista e das dissidências da POLOP, as influências polopistas, uma ligação forte ao movimento estudantil e a tradição do PCB ainda nos faziam valorizar “o trabalho de massas”, disputar as entidades, buscar contatos com as classes populares. As greves de Osasco e Contagem em 1968, cujas lideranças tinham ligações às novas organizações de esquerda, dissidentes do PCB e da POLOP em São Paulo e à AP em Minas, causavam uma enorme admiração pela “classe revolucionária” do ideário comunista.

A maior parte dos militantes organizados nas diversas siglas que invocavam o marxismo-leninismo e mesmo no caso da AP, originária da esquerda católica, depois maoísta, era constituída por estudantes secundaristas e universitários. Do Partidão, muitos militantes das gerações pré-64, quadros dirigentes, intelectuais, operários e outros trabalhadores transitaram para as diferentes organizações em formação a partir de 1966. Vários ex-militares juntaram-se a Brizola, num primeiro momento, ou migraram para as várias organizações da esquerda armada, algumas de curta duração. As articulações entre organizações clandestinas e os movimentos populares e operários, como em Osasco de José Ibrahim, Zequinha Barreto e Spinoza, em Contagem, na Baixada Fluminense, no Rio Grande do Sul e outras regiões, também trouxeram vários militantes de origem popular e muitos ativistas do movimento operário para a esquerda armada. A maior ou grande parte dos militantes do PCB, em São Paulo, saem acompanhando Carlos Marighella, líder do comitê estadual do PCB até então, a partir de 1967. O mesmo aconteceu em outros estados, como Pernambuco e no Rio de Janeiro. O velho mpartidão rachou de fio a pavio, entre 1964 e 1967.

O que restou do PCB, a AP (que veio a se fundir com o PC do B a partir de 1972), o PC do B e, em menor grau, a POLOP, são casos à parte, têm uma história mais antiga e continuada e sua atuação não se confundiu com a da esquerda armada dos anos 1968 a 1973. Todas estas organizações tiveram dissidências que engrossavam as fileiras da “esquerda armada”. Tiveram estratégias diferentes, mas também foram severamente atingidas pela repressão, especialmente o PC do B, a única organização verdadeiramente consequente com a estratégia de deflagração da luta armada a partir do campo. Mas até o pacifista PCB, que tinha escapado à repressão implacável centrada na esquerda armada, quando esta foi praticamente dizimada, no fins dos anos 64-74, também sofreu golpes fortes com o assassinato de dirigentes históricos em 1974, como David Capistrano.

A organização da guerrilha do Araguaia pelo PCdoB, afinal a que mais se aproximou do modelo do foco guerrilheiro, foi um capítulo à parte naqueles anos de fogo. Inspirado na teoria maoísta de guerra revolucionária prolongada, relacionado internacionalmente ao PC chinês, o PC do B foi muito mais consequente do que a auto-denominada esquerda armada, mas acabou por ter uma prática até certo ponto também foquista, com uma leitura parcial do que foi a revolução na China e também da realidade brasileira. O PC do B fez na prática, com um trabalho sistemático iniciado já em 1964, o que as várias organizações que propunham a luta armada rural não fizeram, apesar do apoio cubano que algumas tiveram em treinamento para a guerrilha e de outros tipos. No entanto, na época ou mesmo quando a abertura permitiu um debate mais livre e muitos militantes da esquerda armada escreveram suas memórias e reflexões, pouco se reconheceu do significado da experiência de guerrilha rural capitaneada pelo PC do B. No entanto, a guerrilha do Araguaia, na apreciação crítica de Wladimir Pomar, não transcedeu os limites de um certo foquismo, apesar da linha de guerra popular do PC do B afirmar outra estratégia.

Foi a chamada luta armada urbana o que mais marcou a conjuntura num determinado período. Situo o que chamo a 1ª derrota principalmente naqueles anos e nas organizações ligadas ao que se denominou “esquerda armada”. Tais organizações, em maior ou menor grau, estavam ligadas a uma concepção decorrente do exemplo da Revolução Cubana. E não só isso, algumas foram mesmo influenciadas pela ação concreta do governo cubano junto a elas.
 

A Euforia da militância

A partir de 1966 o movimento estudantil reorganiza-se e a militância ativa contra a ditadura passa a ser, gradativamente, uma opção para milhares de jovens.

Esta geração, que ficou conhecida não só Brasil como em outros países latino-americanos e europeus como a geração de 68, vai corporificar, após o golpe de 64, os ideais de luta pela liberdade, pela afirmação de novos costumes, pela liberação da mulher, pela inovativa criação cultural, a luta contra a censura (“é proibido proibir!”), além da sua reação ao conservadorismo geral dos militares e seus apoiantes civis, ao favorecimento do grande capital e ao alinhamento incondicional da ditadura com os Estados Unidos. A utopia de um mundo melhor, mais justo e fraterno tocou o coração de muita gente e foi uma marca desta geração.

A euforia, a paixão, o espírito de missão, os embates com a polícia nas manifestações de rua, a reação aos desmandos da ditadura militar, a descoberta do mundo conspirativo, o projeto de derrubada revolucionária da ditadura tomam de assalto as mentes e corações de muitos jovens.

A depleção das esquerdas

A pulverização das esquerdas foi um processo crescente, a partir de 64. O livro “Tortura Nunca Mais” contabiliza por volta de 40 organizações, algumas meros grupúsculos de vida efêmera. A repressão, sem dúvida, dificultava qualquer processo de convergência, mas as concepções vanguardistas e militaristas também contribuíram para tal, sem falar de um certo caudilhismo de alguns dirigentes, como Marighella, que não cogitou em buscar a união com velhos camaradas do PCB como Apolônio de Carvalho, Mário Alves e Jacob Gorender, tabém dissidentes do Partidão e que viria a criar o PCBR. Nas suas palavras, em 1967: “A mesa das discussões hoje em dia já não une os revolucionários. O que une os revolucionários brasileiros é desencadear a ação, e a ação é a guerrilha”. Em resposta ao convite daqueles camaradas para engrossar o PCBR, Marighella teria respondido, ironizando: “Não saí de um partidão para entrar num partidinho”.

Em 2 anos a euforia iria murchar, a luta pela sobrevivência, as quedas intermináveis, as constantes más notícias, iriam tomar conta do nosso quotidiano. Como os brasileiros sabem rir da própria desgraça, havia um companheiro que dizia já em 1970, com tantas quedas das diversas organizações: A turma do “oba-oba!” agora está na base do “epa-epa!”.

Sem contar os mortos e presos de 1964, a partir de 1966, com recrudescimento depois do Ato 5, a esquerda vai progressivamente passar por um processo classificado numa tese acadêmica1 de “depleção”, um conceito da medicina, que significa, segundo o Houaiss, “perda de elementos fundamentais do organismo, especialmente, água, sangue e eletrólitos.” Ou “estado ou condição de esgotamento provocado por excessiva perda de sangue”.

As últimas mortes foram as dos dirigentes do PC do B, o massacre da Lapa em 1976. Até lá, foram centenas de mortos, em diversas circunstâncias mas, na maioria dos casos, sem direito à defesa. Foram muitos milhares os atingidos, desde detidos por pouco tempo até os que amargaram vários de prisão depois de passar quase sem exceções por torturas.Para o exterior outros tantos, muitos depois de passarem pelas prisões. Muitos familiares e amigos de militantes também foram detidos, como meus pais, irmão e até um, interrogados e não poucos torturados, para darem informações sobre aqueles. Ao longo dos anos, a ditadura criou uma poderíssima estrutura de informações e repressão direta, não só para o combate aos “subversivos”, mas também às organizações e movimentos populares, às oposições em geral, à vigilância dos funcionários públicos. O SNI estava presente em todos os ministérios, empresas estatais, embaixadas. A censura, o medo, a presença de infiltrados e colaboradores do sistema de informações eram o quotidiano do país .

A derrota foi profunda e extensa.

A influência de Cuba

As tentativas de interferência do governo cubano na revolução brasileira levaram a um dos episódios mais trágicos da luta armada no Brasil: a volta do III Exército da ALN, massacrado pela repressão”2

Como explicar a enorme influência da revolução cubana e do seu governo, mais especificamente do DGI - Dirección General de Inteligencia do Ministério do Interior, comandada pelo mítico vice-ministro Manuel “Barbarroja” Piñeiro Losada3, marido de Marta Harnecker e coordenador da política oficial de exportação da revolução.

Antes de buscar uma resposta para isso e indo mais atrás na História, é um fato que os partidos comunistas no mundo sempre foram um pouco (ou muito) vassalos de Moscou e, no caso de algumas de suas dissidências, de Pequim.

No Brasil, a malfadada experiência do pretenso movimento militar-civil de novembro de 1935, apoiado e mesmo impulsionado por Moscou, deveria ter gerado lições sobre a interferência externa nos movimentos revolucionários. A chamada Intentona Comunista foi um projeto de derrubada do governo Getúlio através do assalto e tomada de quartéis seguido de uma revolta popular de apoio ao à iniciativa de algumas dezenas de oficiais ligados à ANL e ao Partido Comunista. O prestígio de Luis Carlos Prestes, recém convertido ao comunismo, seria fundamental para a adesão dos quartéis. A derrota desta aventura esquerdista, orquestrada em Moscou com Prestes, ajudou sobremaneira à consolidação da ditadura de Getúlio Vargas. O capital político acumulado nos 2 últimos anos antes da Intentona esborou-se e as prisões encheram-se.

Em 1934 articulou-se e em março de 1935 foi lançada, num comício onde o jovem Carlos Lacerda leu o manifesto, uma ampla frente democrática, a ANL - Aliança Nacional Libertadora, que transcendia a influência do PCB e poderia ter sido um instrumento importante na luta pela democratização do país. No entanto, a leitura em julho de um manifesto ultra esquerdista de Prestes num evento da ANL, conclamando à derrubada de Getúlio e à tomada do poder pela ANL, precipitou sua ilegalização. O PCB e o Comitern já tinham se decidido desde 1934 pela estratégia putchista. Getúlio soube dos preparativos do golpe através do espião inglês e também quadro do Comitern (III Internacional Comunista), o alemão Johann de Graaff4. Getúlio, velho matreiro, deixou correr os preparativos do golpe pelo PCB/Comitern, para melhor capitalizar politicamente o fracasso do dito e justificar o endurecimento da sua ditadura. A repressão não se reduziu ao PCB e aos agentes do Comitern, como a famosa Olga Benário e Harry Berger, entre outros. Estendeu-se aos não comunistas da ANL e as perspectivas de democratização esfumaram-se.

Em 1935, assim com em 1963/64, era patente a tentativa do PCB de se mostrar perante Moscou como um partido muito mais influente do que realmente era. O culto à personalidade, marca registrada do dito socialismo real, também se refletia nos partidos comunistas na oposição. Prestes, militar de formação, tinha muito de caudilho tenentista e pouco de um verdadeiro líder comunista, com formação ideológica, teórica e e intelectual sólida como, por exemplo, um Álvaro Cunhal do PCP. Este culto, de certa forma, ainda subsiste e as enormes responsabilidades pessoais e o estilo personalista e autoritário de Prestes, que se concretizou em graves desvios ora esquerdistas, ora direitistas do Partidão, começando por 1935, são enormes. Para não falar na queda nas mãos da repressão, por 3 vezes, de suas famosas cadernetas e anotações pessoais, que deram origem a muitos processos e condenações de militantes, como relata Jacob Gorender eu seu livro Combate nas Trevas.

Voltando à relação entre a Cuba revolucionária e a esquerda brasileira no pós-64, vale lembrar que o internacionalismo e o apoio ativo às mudanças políticas na América Latina farão parte da sua política interna e externa, desde o triundo da revolução. A OLAS pretendeu ser uma espécie de Internacional latino-americana, com sede em Cuba. Não vingou. Era compreensível que os movimentos revolucionários latino-americanos, de ideologia comunista ou não, pedissem ajuda à Havana, para treinamento e logística. Também não é de admirar que os cubanos, em troca, quisessem de alguma forma influir nas estratégias e até no cotidiano das organizações mais próximas. Esta relação será muito forte até meados dos anos 70, no caso da América Latina. Mas já antes, a pressão dos soviéticos e outros sobre Cuba para deixar de apoiar as tentativas de revolução armada na América Latina acabou por dar resultado. A margem de manobra e recursos dos setores do governo relacionados com a “exportação da revolução” foi diminuindo, travada pelos dirigentes mais alinhados com a União Soviética.

O que se viu em 1935 com Prestes e o Partidão, esta tendência à auto-valorização na relação com as pátria socialista, misturada com uma visão irrealista do potencial revolucionário dos países latino-americanos, repetiu-se nas relações dos movimentos revolucionários brasileiros (e provavelmente nos de outros países) com Cuba. De um lado, Cuba optou conscientemente pela estratégia da “exportação da revolução”. Era a sua convicção ideológica e a sua reação política ante a política isolacionista e mesmo terrorista de Washington e seus aliados latino-americanos, que expulsaram Cuba da OEA em 1962, só readmitida em 2003. Na década de 60, penso que só o México continuou a ter relações políticas e econômicas com Cuba. O apoio de Cuba aos movimentos revolucionários ou nacionalistas e anti-colonialistas na América Latina e em África manteve-se durante muitos anos e, em alguns casos, envolveu a deslocação de muitos batalhões para países africanos, como Angola e Etiópia, bem apoio pol´tico e material a pequenos países do Caribe. Na América Latina, muitos combatentes cubanos, antes e depois de Che Guevara, estiveram fisicamente envolvidos em movimentos guerrilheiros (Bolíva, Peru, Venezuela, Nicarágua, El Salvador e outros). Em Cuba foram treinados militarmente centenas (se não milhares) de militantes de todo o mundo, em especial da América Latina. Tratou-se de um política de Estado, com poucos êxitos e muitos fracassos e pela qual Cuba pagou um preço de isolamento internacional e de fustigamento de grupos contra-revolucionários, sustentados pelo governo norte-americano, bastante alto. Além de ser uma política de Estado, o apoio a movimentos e governos revolucionários, nacionalistas e anti-colonialistas era uma ideologia popular. Eram muitos os voluntários cubanos, não só militares, disponíveis para ir combater em várias partes do mundo.

As opções estratégicas das esquerdas

Em 1972, no exílio do Chile, numa ocasião fui convidado para uma reunião com um membro do Vietcong, o exército revolucionário do Vietnam do Sul, suponho que também membro do partido comunista, então em visita ao Chile. Da sua palestra, ficou-me gravada uma coisa: o cuidado técnico, político e humano que eles davam na preparação de ações militares, em especial a tomada de aldeias. No meio de uma guerra violentíssima, onde a lei do fuzil prevalece, impressionou-me a ênfase que ele dava à análise das condições políticas e subjetivas para a decisão de se fazer ou não a ação militar. Já na reunião, marcou-me a contradição entre suas palavras e a prática da esquerda armada brasileira, que realizou ações especialmente estúpidas, desumanas, sem qualquer preocupação com as suas repercussões como, por exemplo, matar o indefeso marinheiro inglês David A. Cuthberg,de 19 anos, em suposta solidariedade ao IRA irlandês.5

O terrorismo revolucionário6 , o assassinato político e outros tipos de ações violentas, só se justificam no âmbito de situações e circunstâncias históricas muito particulares. Por exemplo, a maioria dos portugueses compreende hoje, historicamente, o assassinato do rei D.Carlos I em 1908 , por anarquistas radicais, o que precipitou a vinda da República. Mas será que é compreensível e aceitável a morte deste marinheiro inglês? E de outros casos semelhantes. Para não falar de “justiçamentos” de companheiros. Isto foi “revolucionário”? Quais os limites éticos das ações revolucionárias? O que se colheu, politica, ética e humanamente com a violência supostamente revolucionária destes anos?

Do exílio, ficaram também as muitas conversas com Freddy Cárquez, ex-comandante das FALN venezuelanas, cujo comandante mais conhecido foi Douglas Bravo. Freddy seria uns 10 anos mais velho do qu eu e terminava, no Chile, o curso de Medicina iniciado e interrompido na Venezuela. Muito me influenciou e orientou-me na leitura e na discussão sobre a importância das lutas pela democracia e por uma constituinte. Num país de tradição violenta nas lutas políticas, como a Venezuela, mas onde havia eleições e onde a guerrilha rural tinha atingido num certo momento um poder de fogo significativo, com zonas semi-liberadas, Freddy também ajudou-me a ver os erros da estratégia foquista, de seu isolamento político, de seu vanguardismo. Freddy ainda vive na Venezuela, é um médico de prestígio e opositor ao regime chavista.

Na figura de Breno, Carlos Alberto Soares de Freitas, dirigente assassinado da VAR-Palmares, companheiro e amigo íntimo da atual Presidenta Dilma Rousseff, pintada num pilar do viaduto do Rio Comprido, acompanha o seu rosto os dizeres, “Carlos Alberto Soares de Freitas – um mártir da democracia brasileira”. Mas…, lutávamos por democracia?

O meu amigo Oséas Duarte, uma cabeça política privilegiada, em conversa sobre os anos da luta armada, disse-me mais ou menos o seguinte: “só um povinho muito sem-vergonha não reagiria com violência ante tanta violência da ditadura”. Não são suas exatas palavras mas é o sentido do que me lembro. Mas a guerrilha urbana das “organizações armadas” e a incipiente guerrilha rural do Araguaia não foram simples reações à prepotência e violências do regime militar. Derivaram de decisões conscientes de dirigentes veteranos, influenciados e relacionados com os centros de apoio e “exportação da revolução”, Cuba e China. Foram implementadas principalmente por jovens oriundos das classes médias, mas também contaram com militantes veteranos do movimento sindical e dos PCs tradicionais, intelectuais, religiosos, ex-militares cassados ou desertores.

Afinal, qual eram os nossos “objectivos estratégicos”?

Em nome do quê, de quem e para que lutávamos? Éramos agentes conscientes da História (ação) ou reflexos da expectável resistência à violência e opressão de uma ditadura militar que derrubou um governo democraticamente eleito (reação)?

Não há consenso entre os estudiosos e os ex-militantes sobre os objetivos políticos, estratégicos e táticos da esquerda após o golpe e particularmente após o AI-5.

Há quem fale de resistência democrática ao golpe, mas os documentos escritos das várias organizações apontavam para a luta armada pelo socialismo ou pela “libertação nacional” rumo ao socialismo. Só o PCB, em crise permanente devido ao estado de desestruturação contínua a partir de 1964, colocava a necessidade de uma frente ampla pelo retorno à democracia.

Ainda no PCB, o próprio Marighella escrevia em 1965 que “a questão central é o problema das liberdades democráticas”. Mas nos próximos escritos, de 1967 a 1969, já só foca a centralidade da ação revolucionária violenta, mãe de todas as mudanças e unificadora das esquerdas. Em 1967 escreveu: “Todos sabem que a “redemocratização” ou o chamado retorno à democracia com eleições e pacifismo só serve aos interesses dos políticos burgueses, pois não conduz à modificação da estrutura econômica[…]. O que há no Brasil é um círculo vicioso. Os políticos burgueses pregam a “redemocratização” e as eleições e assim vão ao governo, prometendo reformas e liberdades. Em seguida vem novamente o golpe militar, sob o pretexto do “perigo comunista”. E a comédia continua a repetir-se sob a forma de tragédia, como aconteceu com a deposição de Goulart”.

Na verdade, somente uma pequena fração da POLOP, depois na COLINA, inspirada por Guido Rocha, colocou num documento apresentado para o congresso da POLOP em 1967, a importância estratégica da luta pela Assembleia Nacional Constituinte. Esta ideia vai ser retomada timidamente pela DVP (uma pequena dissidência da VAR), em 1971, num documento escrito pelo atual dirigente do PSDB José Aníbal.

De um modo geral, independentemente das análises sobre a necessidade ou não de algum desenvolvimento capitalista autônomo, anti-imperialista e de uma reforma agrária para destruição de restos feudais ou pré-capitalistas no campo antes da implementação de um estado socialista, as várias organizações desejavam que a revolução armada levaria a um governo revolucionário muito próximo do modelo cubano, que lideraria rápidas transformações revolucionárias em direção ao socialismo. Não estava na ordem do dia, pelo menos teoricamente, uma etapa democrático-burguesa com eleições, ampla liberdade de organização partidária e domínio do modo de produção capitalista para desenvolvimento da classe operária e da base social da revolução socialista. Parte das organizações da esquerda armada tinham uma matriz POLOP, mas a ALN (lê-se Marighella) não tinha superado parte da matriz PCB em termos de análise da sociedade brasileira.

O fato é que a reflexão político-teórica sobre as características da sociedade brasileira era muito pobre na esquerda. E uma estratégia política de longo prazo depende deste conhecimento. Para onde ia o Brasil, após 64? Qual o desenvolvimento do capitalismo tal como existia, as condições políticas e subjetivas das diversas classes? Qual o caráter e o tipo de regime militar e civil que ia se construindo após o golpe de 64? Bonapartista, fascista, simplesmente um regime autoritário de direita?

PCB e PC do B tinham modelos e análises teóricas já bastante anacrônicas. A POLOP e alguns novos intelectuais de esquerda (e mesmo alguns antigos, como Caio Prado Jr., Moniz Bandeira, Otávio Ianni, Leôncio Basbaum) procuravam desenvolver novos estudos, novos modelos, a sistematização da crítica às bases teóricas da estratégia do PCB, o grande derrotado em 64. Mas as condições objetivas (tempos de repressão) e o dogmatismo, talvez inerente aos que reivindivicavam-se marxistas, aliados ao impreparo intelectual geral, não contribuíram para o amadurecimento de novas estratégias fundamentadas para os novos tempos. O desprezo explícito pelo estudo, por reuniões para discussões teóricas, o voluntarismo cego, a arrogância e a ignorância caracterizavam a maior parte dos militantes no pós 64, no que toca à necessária reflexão teórico-política. A revolução cubana também ajudou a inspirar este desprezo pela teoria, oferecendo um modelo estratégico de um simplismo exemplar.

Por reação ao “reformismo” do PCB, as formas de luta legais, as bandeiras democráticas, a presença nos sindicatos e centros de estudantes ainda não ilegalizados, a busca de contatos com a oposição “burguesa”, com os artistas e sua luta contra a censura, com as autoridades religiosas oposicionistas, todas estas ações eram consideradas “reformistas” e desprezadas pela “esquerda armada”. Uma ou outra organização teve contatos com deputados progressistas, como Francisco Pinto e até, dizem, com Albuquerque Lima, um general nacionalista, eventual candidato à sucessão de Costa e Silva. Mas de um modo geral, quer por convicção estratégica e ideológica, quer por força da prática violenta e das circunstâncias da conjuntura repressiva, a maior parte das esquerdas abandonou voluntariamente, a partir de 1968, as bandeiras de luta democráticas, a busca de alianças, o combate ao regime por outros meios que não a violência. Até a luta dos familiares de presos, dos advogados e da Igreja, contra as torturas e o regime carcerário, não foi conduzida como em outros tempos, na ditadura Vargas e no governo Dutra. Só mais tarde, a luta pela anistia vai galvanizar todos estes atores e permitir a participação aberta de muitos ex-militantes da esquerda armada, saídos das prisões ou regressados do exílio.

Recorrendo aos intelectuais, alguns dos quais ex-militantes da luta armada, pode-se ler7 as seguintes referências aos caminhos estratégicos da esquerda armada:

A característica mais tragicamente problemática entre todos os grupos que deflagraram a luta armada no Brasil entre os anos 1967 e 1973 foi a ausência de uma clara definição sobre a estratégia revolucionária e, algumas vezes, também sobre a tática de luta.” (Claudinei de Resende, “O Suicídio Revolucionário”)

“…a meu ver [a luta armada] teve a significação de violência retardada. Não travada em março-abril de 1964 contra o golpe militar direitista, a luta armada começou a ser tentada pela esquerda em 1965 e desfechada em definitivo a partir de 1968, quando o adversário dominava o poder do Estado, dispunha de pleno apoio das Forças Armadas e destroçara os principais movimentos de massa organizados. Em condições desfavoráveis, cada vez mais distanciada da classe operária, do campesinato e das camadas médias urbanas, a esquerda radical não podia deixar de adotar a violência incondicionada para justificar a lutada armada imediata” (Jacob Gorender, “Combate nas Trevas”)

Houve grupos que planejaram a ação armada ainda antes do golpe de 1964, caso do pessoal ligado ao Francisco Julião, das Ligas Camponesas. Depois de 1964, buscava-se não só derrubar a ditadura, mas também caminhar decisivamente rumo ao socialismo.

Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, autor do aclamado "Como eles agiam", sobre o funcionamento do regime, Carlos Fico chama de ficção a ideia de resistência democrática. Ele também ataca a crença de que a luta armada foi uma escolha motivada pela imposição do AI-5. A opção de pegar em armas é anterior ao ato institucional. Alguns grupos de esquerda defenderam a radicalização antes de 1968” (MarceloRidenti, professor universitário).”

A descoberta da democracia pela esquerda se dá apenas no exílio, com a leitura de filósofos e pensadores como o italiano Antonio Gramsci e o entendimento correto das manifestações de maio de 1968 em Paris. Acabou virando tudo uma coisa só” (Denise Rollemberg in O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil)

Lutávamos contra o golpe imposto pela violência ao país. O conteúdo do nosso projeto era levar adiante, com mais audácia, as reformas de base do governo Jango. Quem deu o golpe é que quebrou, pela violência, esse processo. O golpe foi dado pela direita, com o apoio da frota americana que chegou a começar o deslocamento para cá.” (João Quartim de Morais, ex-dirigente da VPR, professor universitário em SP)

Cada vez mais se procura despolitizar a opção de luta armada numa tentativa de autocrítica por não termos sido democratas. Nossa atitude foi tão válida quanto qualquer outra. Havia outros caminhos, sim. Poderíamos tentar lutar dentro do MDB, mas achávamos que a democracia já tinha dado o que tinha que dar. “ (Renato Lemos, ex-militante da VAR e VPR, professor universitário no RJ)

As esquerdas radicais se lançaram na luta contra a ditadura, não porque a gente queria uma democracia, mas para instaurar o socialismo no país por meio de uma ditadura revolucionária, como existia na China e em Cuba. Mas, evidentemente, elas falavam em resistência, palavra muito mais simpática, mobilizadora, aglutinadora. Isso é um ensinamento que vem dos clássicos sobre a guerra…

Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática.” (Daniel Aarão Reis, ex-dirigente do MR 8, professor universitário)

O carácter da revolução é o da luta pela independência nacional, a emancipação das oligarquias e o caminho socialista para seu pleno desenvolvimento económico e social.” (Declaração da OLAS, 1967)

Abaixo, algumas frases de Marighella em documentos e entrevistas, nos anos 67 e 68.

A guerrilha no Brasil não é uma simples forma de luta. É a própria estratégia da revolução”. A estratégia é “conquistar o poder pela violência e destruir o aparelho burocrático militar do Estado, substituindo-o pelo povo armado”

Não pedimos licença a ninguém para praticar atos revolucionários”.

Não devemos ter medo de errar. É preferível errar fazendo do que nada fazer”.

Por seu lado, é interessante assinalar que o próprio PCB falava da ação política violenta, após a derrota de 1964. Num documento do CE RJ do PCB, março 1965, lê-se:

A preparação para a luta armada revolucionária não deve ser identificada com as concepções golpistas que prevalecem em certos setores da frente única. Os comunistas entendem que a luta armada revolucionária deve estar vinculada a todas as formas de luta de massas e chegar a assumir um caráter de massas. A preparação da luta armada precisa se realizar através de todas as formas de lutas de massas, inclusive as formas legais. Sem uma base de massas, organizada e combativa, o movimento armado não terá condições de eclodir ou ficará demasiado vulnerável diante do inimigo. Por sua vez, o movimento de massas, ao entrar em choques mais sérios com a reação, não deverá deixar-se surpreender, nos momentos mais decisivos, sem um apoio de movimento armado, firmemente orientado, como aconteceu a 1º de abril de 1964. Para triunfar na luta pelo poder, o movimento de massas carece, por conseguinte, do apoio armado, ao passo que a luta armada revolucionária só é viável com apoio do movimento de massas” (in Gorender - Combate nas Trevas)

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Há seguramente causas mais profundas do que somente “erros de estratégia”, “excesso de voluntarismo”, “esquerdismo”, “aventureirismo juvenil”, “arrogância”, “subestimação do inimigo”, “influência de Cuba e do foquismo”, “reação às medidas ditatoriais de fechamento dos canais de oposição política” e outras semelhantes para explicar o desastre político, militar e humano que representou aquele período.

A escassa ou insuficiente participação política das classes populares no Brasil ao longo do século XX, que nunca chegaram a formar um ou mais partidos políticos de massa que representassem seus interesses e que viveram poucos anos de relativa liberdade política, mesmo assim bastante condicionada e marcada por restrições aos comunistas, são o pano de fundo do que veio a acontecer. Em comparação com o Chile, Argentina e Uruguai, a experiência de lutas, a estrutura sindical e a organização política partidária das classes populares no Brasil é bastante deficitária até o fim dos anos 70.

O Partidão (até 61 com a denominação PC do B, depois PCB) quase sempre viveu numa feroz clandestinidade ou numa situação de semi-legalidade que o impediu de se estruturar mais amplamente, como partido de massas. Salvo o escasso período da legalização entre 1945 e 1947, quando chegou a ter a 4ª bancada no Congresso, a repressão política sempre condicionou a sua relação com a população. Sua matriz estalinista e fidelidade às orientações e desígnios vindos de Moscou, ao que acresce o anti-comunismo reinante no chamado mundo ocidental, também foram limitações importantes, a par da repressão constante, para o seu desenvolvimento como um grande partido das classes populares, em especial dos trabalhadores manuais urbanos. A democracia interna no Partidão sempre foi precária, para se utilizar uma expressão delicada. O culto à personalidade e à mística prestista, uma constante desde 1935. Apesar de todas estas limitações, endógenas ou exógenas, às vésperas do golpe de 64, o PCB tinha uma forte penetração no movimento sindical e um número significativo de filiados, por volta de 20 mil.

O caudilhismo e paternalismo getulistas (também seguidos por Goulart e Brizola no PTB) e o atrelamento à máquina estatal do movimento sindical, até hoje sem abrir mão do imposto sindical, também condicionaram e impediram parcialmente a formação de um projeto estratégico próprio por parte da parcela mais ativa sindical e politicamente dos trabalhadores brasileiros. Ante a influência getulista e de seus seguidores, o PC nunca conseguiu ter uma política coerente, ora esquerdista e aventureira (1935), ora numa oposição que o aproximava à direita (1954), ora seguidista, de certa forma (1963-1964). Por outro lado, a não reação ao golpe de 64 desmoralizou as diversas lideranças desde o próprio presidente, o brizolismo, o partido comunista, os militares nacionalistas e legalistas e os deputados pró-governo Goulart, perante o povo brasileiro. Como sublinha Gorender, a oportunidade histórica de reação armada ao golpe, em defesa da legalidade democrática e do programa de reformas apregoado pelo governo, perdeu-se. Afirmar, como Quartim de Moraes acima, que “lutávamos contra o golpe imposto pela violência ao país. O conteúdo do nosso projeto era levar adiante, com mais audácia, as reformas de base do governo Jango.não procede, pois este tempo histórico e político de reação ao golpe já tinha passado.

Passada a oportunidade de reação imediata ao golpe, numa ampla frente legalista, só restava às esquerdas a tarefa de se reorganizar e acumular forças para gerar novas dinâmicas de oposição de massas, o que veio a acontecer, até certo ponto, em 67/68.

Com o refluxo do movimento de massa e o endurecimento do regime militar, era duvidoso que houvesse clima político e força efetiva das esquerdas para se passar a um estágio de reação violenta ao fortalecimento da linha dura militar. Mas foi isto que muitos acreditaram ser possível e necessário para o desencadear de um processo revolucionário que envolveria setores ampliados da população. A realidade impôs-se em pouco tempo.

O chamamento à ação concreta de fustigamento e derrubada violenta da ditadura mobilizou uma minoria, comparativamente aos muitos que estiveram dispostos e lutaram efetivamente contra a ditadura em 67/68. De um lado, o regime fortalecia-se e ampliava suas bases nas classes médias com a retomada do crescimento econômico e com muita propaganda contra a ameaça dos “terroristas comunistas” a mando de Havana. De outro, o desencadear das ações violentas rapidamente isolou seus executores de suas bases políticas, que não viam aquela “guerra” como sua.

Estes e, seguramente, muitos outros fatores são necessários para entender o isolamento da esquerda armada em relação às classes populares.

Fazendo um contraponto internacional, as organizações da esquerda armada uruguaia e argentina, já de resto mais unificadas que as brasileiras, como Tupamaros, FAR-Montoneros ou ERP, tiveram um nível de relação orgânica com os sectores mais politizados das respectivas populações muito mais intenso. Seus contingentes de militantes eram muito superiores aos das organizações brasileiras. E mesmo assim, por força de suas orientações vanguardistas e da sanha repressora das forças armadas, sofreram derrotas bem mais profundas e dolorosas do que a isolada esquerda armada brasileira. E não só as organizações em si, mas muitos milhares de cidadãos oposicionistas ou simplesmente seus familiares foram atingidos brutalmente na Argentina e Uruguai.

A Estratégia derrotada

Em 1968 estavam na ativa dirigentes veteranos como Apolônio de Carvalho, Mário Alves, Jacob Gorender, Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Maurício Grabois, João Amazonas, Ernesto Martins, Paulo Wright, Betinho, Alípio de Freitas, Vinícius Caldeira Brandt. Também muitos dirigentes ou militantes mais experientes na casa dos trinta anos, que se iniciaram na esquerda ainda antes de 64. Veteranos de movimentos sindicais e populares, como a grande greve geral de 1953 em São Paulo e do sindicalismo durante o governo de Jango, ligados anteriormente ao PCB como Rafael Martinelli, Rolando Frati, Osvaldo Lourenço, Jover Telles, Joaquim Seixas, ao PC doB ou à AP (Angelo Arroyo, José Duarte, José Novaes, Micheas Gomes), ao brizolismo do MNR, depois na VPR (Aluísio Palhano), várias das novas lideranças operárias surgidas em Osasco e Contagem como José Ibrahim, Zequinha Barreto, ex-dirigentes das ligas camponesas como José Mariano da Silva, ex-militares e até militares na ativa passavam a integrar as novas organizações que surgiam. Toda a liderança estudantil, Honestino Guimarães, Luis Travasos; José Dirceu, Vladimir Palmeira, Jean Marc, Elinor Brito, centenas de dirigentes de DAs, DCEs, UNE, UEEs, UBES, grêmios secundaristas, milhares de ativistas estavam organizados clandestinamente ou sob a influência de organizações de esquerda. Muitos intelectuais, como os irmãos Sader e outros de origem POLOP ou outras, colaboravam com as organizações de esquerda ou até militavam nas mesmas.

Se fôssemos citar nomes, seriam tantos, de tanto valor humano, intelectual, ético, jovens tão promissores, tanta gente sacrificada.

Como é possível que tamanha massa crítica, tanta gente, em qualidade e quantidade, tenha conseguido perder um capital político acumulado até 1968 tão significativo?

O marxismo proclama-se uma ciência. As estratégias políticas são, teoricamente, fruto de uma análise “científica” da realidade. No entanto, nem o domínio científico, nem a experiência comprovada de dirigentes e militantes veteranos e centenas de jovens militantes, com razoável preparo intelectual e experiência do ascenso 67/68, foram capazes de produzir uma estratégia minimamente eficaz, uma “análise concreta da realidade concreta”. De assinalar que não havia na fragmentada esquerda o mínimo de espírito de confluência de esforços e disposição para um debate construtivo em torno dos caminhos estratégicos.

Não tenho dúvidas que a responsabilidade dos dirigentes mais graduados é preponderante. Ao se adotar estratégias profundamente equivocadas de confronto com a ditadura, centradas taticamente nas ações armadas e na ilusão da deflagração de uma guerra de guerrilhas de inspiração cubana, de desprezo pela luta democrática e pelas ações de resistência de massas, possíveis mesmo em tempos de ditadura feroz, de culto ao combatente prático em detrimento do quadro política e teoricamente preparado, tudo isto só podia levar ao que levou, um profunda derrota ao nível de perdas humanas, entre mortos, presos, exilados, uma enorme perda de capital político acumulado, um isolamento quase total entre as supostas vanguardas e o povo real, à radicalização, especialização e desenvolvimento de uma enorme estrutura de repressão policial-militar, que atingia não só as organizações, mas fazia do medo um instrumento de poder sobre toda a população.

1974-85 O declínio do regime militar

Em 1974, o que chamo de 1ª derrota das esquerdas brasileiras após 1964, a da resistência armada, estava consolidada. Mas 1974 representa simbolicamente o início de uma resistência de outro tipo à ditadura e a vitória eleitoral do MDB, o único partido de oposição permitido pela ditadura, muito controlado, marca este ponto de viragem.

No Brasil, só com uma nova vaga de ascensão dos movimentos sindicais, populares e por liberdades democráticas, iniciada timidamente a partir de 1974, com a vitória eleitoral do MDB e, mais ousadamente, a partir de 1977, com bandeiras reivindicatórias e democráticas progressivamente ganhando os trabalhadores industriais e outros setores da população, é que se amadureceram as condições para a formação de um partido de massas de esquerda pela primeira vez no Brasil. Em termos políticos, A luta pela democracia burguesa prevaleceu. A derrubada revolucionária da ditadura não aconteceu, sequer a ditadura foi derrotada rotundamente, como poderia, hipoteticamente, ter ocorrido com a radicalização do processo da campanha das diretas.

É forçoso reconhecer que foram outros os principais atores a liderar as mudanças políticas que se iniciaram, de certa forma, com a vitória eleitoral do MDB nas eleições de 1974 e o plano de abertura gradual da dupla Geisel/Golbery. Os militantes da nossa geração, ao contrário das lutas de 68, não estiveram na liderança da campanha das diretas, a grande luta democrática do ocaso controlado da ditadura. Nos palanques, pontificavam Lula, Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela, Severo Gomes. Participamos com entusiasmo nesta grande luta política, tínhamos “nossos representantes” na direção do nascente PT, mas eram outros os grandes decisores. Não por acaso as “Diretas Já” foram “rifadas” pela oposição liberal, em troca da eleição de Tancredo Neves. Mas isto já é outra história, cheia de nuances. Outra derrota. A segunda.

Ascensão e queda de uma luta decisiva, naquele presente , neste futuro

De 1978 a 1982, a luta pelo fim do regime ditatorial, sempre em crescendo, se deu em vários planos, com vários protagonistas. Os trabalhadores industriais, metalúrgicos do ABC à vanguarda, marcaram aqueles anos e catapultaram a liderança sindical de Lula à condição de líder político nacional. Um novo sindicalismo, urbano e rural, crescia como fogo no palheiro. Um dos maiores orgulhos da minha vida foi ter sido delegado, pela oposição sindical da Construção Civil de São Paulo, no congresso fundador da CUT, em 1983, São Bernardo do Campo, os antigos estúdios da Vera Cruz. A nossa articulação política, do PRC, conseguiu levar à Executiva Nacional da CUT, o companheiro José Novaes, velho trabalhador rural comunista, sobrevivente do Massacre da Lapa. O clima do Congresso era de permanente exaltação. No final, com as manobras dos “capas-pretas” a se prolongar para chegarem a uma executiva consensual e os delegados a se impacientarem, o Gilmar dos Bancários de SP, um dos responsáveis pela organização do evento, decidiu mandar colocar a Internacional no som. Foi um momento glorioso, todos a cantar, de punho ao alto, só poucos a saber a letra inteira, um texto antiquado do século XIX, falando da luta gloriosa dos famélicos da terra.

Mas isto é um fait divers. O que quero lembrar e refletir tem que ver com aqueles tempos memoráveis, que antecederam a campanha das Diretas Já, um mote criado por Henfil, numa entrevista do Pasquim a Teotônio Villela, segundo o próprio relata no fantástico documentário Três Irmãos. Foi Teotônio Villela, numa entrevista no Canal Livre da TV Bandeirantes, que, no início de 1983, falou pela primeira vez nas eleições diretas como meio de superação do regime de exceção. Mas já Dante de Oliveira, desde os primeiros dias de seu mandato (janeiro de 1983) recolhia votos para a sua famosa Emenda à Constituição, votada e derrotada por não ter atingido 2/3 dos votos em 25 de abril de 19848.

A bandeira e a campanha das Diretas Já tiveram o condão de canalisar o ascenso de massas, a nível sindical, popular e de reorganização política e partidária das oposições numa luta bem concreta que radicalizava a ofensiva popular anti-ditadura. O “Abaixo a Ditadura” concretizou-se, na nova conjuntura, numa saída “não subversiva”, a realização imediata de eleições presidenciais, mas que significaria uma tremenda derrota política do regime instaurado em 1964. Os militares vetaram e a maioria das lideranças da campanha das Diretas Já capitulou, aceitando a saída negociada pelo PMDB moderado e a cúpula militar. Ao que se somou um grupo de partidários do regime militar capitaneados por Sarney, um zé cortiça, como se diz em Portugal, porque nunca afunda, sempre bóia.

Mas quem era a liderança da campanha? Quais os políticos com força partidária que pontificavam nos grandes comícios?

O movimento agregou diversos setores da sociedade brasileira. Participaram inúmeros partidos políticos de oposição ao regime ditatorial, além de lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantes e jornalísticas. Dentre os políticos, destacaram-se Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, José Richa, Ulysses Guimarães, André Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Gérson Camata, Orestes Quércia, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Luís Carlos Prestes, Fernando Henrique Cardoso, Vander Ramos, Marcos Freire, Fernando Lyra, Jarbas Vasconcelos e dentre personalidades em geral destacaram-se Sócrates (futebolista), Christiane Torloni, Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri, Fafá de Belém, Chico Buarque, Martinho da Vila, Osmar Santos, Juca Kfouri entre outros.

E foi em São Paulo que a investida democrata ganhou força com um evento realizado no Vale do Anhangabaú, no Centro da Capital, em pleno aniversário da cidade de São Paulo – dia 25 de janeirode 1984. Mais de 1,5 milhão de pessoas se reuniram para declarar apoio ao Movimento das Diretas Já. O ato é liderado por Tancredo Neves, Franco Montoro, Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva e Pedro Simon, além de outros artistas e intelectuais engajados pela causa.” (fonte Wikipedia)

Desde 31 de março de 1983, na pequena cidade de Abreu e Lima, Pernambuco até os grandes comícios do Rio de Janeiro (10/4/84, 1 milhão) e São Paulo (16/4/84, 1,5 milhão), milhões de brasileiros lutaram nas ruas e de outras maneiras pelo direito de eleger o presidente pelo voto direto. Mas no dia 25 de abril, apesar de ter obtido 298 votos a favor, a emenda Dante de Oliveira não obteve 2/3 dos votos na Câmara de Deputados. 112 deputados, covardemente, não compareceram à votação, por ordem do regime militar de Figueiredo e Golbery, o presidente-general em exercicio e o grande estratega do regime, ambos oriundos do SNI, o todo-poderoso Serviço Nacional de Informações.

A nossa geração de militantes de esquerda de 68, apesar de participante, quase não contava na liderança do movimento. De líder influente, o PT só tinha Lula nos palanques. Não era pouco, mas era claramente insuficiente para se contrapor ao poder da oposição “moderada”, veterana de acordos com os militares, com Tancredo Neves à cabeça e Ulisses Guimarães, ora combativo, ora conciliador, nada disposto a “pagar para er” com os militares.

E, assim, milhões de brasileiros, na mais política das campanhas de massas ocorrida no Brasil na sua História republicana, foram derrotados.

A 2º derrota da nossa geração, desta vez, na companhia de milhões e não isolada do povo.

As vitórias apesar da derrota: a reorganização das esquerdas e o Partido dos Trabalhadores

A partir de 1977, lentamente no princípio, os militantes da esquerda brasileira, agora dispersos, saindo pouco a pouco das prisões, voltando do exílio ou organizando-se na clandestinidade, agora mais “suave”, foram refazendo laços e discutindo os passos a tomar.

Poucas organizações se mantiveram enquanto tal. Mas a partir de 1977 a esquerda contava com outro protagonista: o povo que se ia organizando pouco a pouco nos sindicatos, nos bairros, nas universidades. O movimento pela anistia, que explodiu em 1978, juntou familiares e ex-militantes em todo o Brasil. Foi uma luta política da maior importância, parcialmente vitoriosa em 1979, com a libertação dos últimos presos políticos, mas o governo militar impôs uma Lei de Anistia moldada para beneficiar e “blindar” o regime e os torturadores. Até hoje, quando uma ex-presa política, barbaramente torturada na sequência de sua prisão em 1970, ocupa a presidência da República, nenhum torturador ou responsável está preso ou respondeu a juízo, ao contrário do que aconteceu nos países vizinhos do Cone Sul. E o STF, Superior Tribunal Federal confirmou em 2010 que a lei anistiava os torturadores.

A esquerda de origem comunista, nestes anos de declínio da ditadura e prévios ao primeiro governo civil, após 21 anos de regime militar, reorganizou-se em alguns partidos ou tendências, como se identificavam no movimento estudantil e popular: os partidos antigos, PCB e PC do B, o renovado MR-8, oriundo da luta armada, o PRC, dissidência do PC do B organizado em 1981 e que se extinguiu em 1987, diluído no PT, o MEP, de origem POLOP, trotskista e mais presente no movimento estudantil em renascimento e outros pequenos grupos, reunindo antigos companheiros que novamente tinham a oportunidade de se reunir, agora com mais liberdade, apesar de ainda se estar num governo militar. Muitas destas tendências ou diluíram-se ou ainda se mantêm organizadas enquanto tendências abertas no PT.

O grande movimento de reorganização dos militantes de esquerda marxista se deu, a partir de 1980, na construção do PT, o partido dos Trabalhadores.

A formação e afirmação do PT foi, naquela conjuntura de lento e condicionado fim de regime militar, o que de mais importante aconteceu para o Brasil, do ponto de vista dos interesses do povo trabalhador.

O PT foi uma iniciativa de lideranças sindicais, lideradas, por sua vez, por Lula, que desde sempre já se via como candidato a Presidente da República. Este mérito ninguém lhes tira. Mas convergiram na formação e desenvolvimento do PT, espectacular pela sua mobilização, democracia interna e participação popular nos primeiros anos, 3 grandes vectores: os sindicalistas, muitos dos quais com experiência na esquerda clandestina, os militantes e ex-militantes da esquerda de origem marxista, organizados ou não em partidos e tendências clandestinas ou mais ou menos abertas, e os muitos activistas da esquerda da Igreja católica, agrupados ou não em torno da Teologia da Libertação, incluindo até bispos e o cardeal de São Paulo, o saudoso D. Paulo Evaristo Arns, um campeão pelos direitos humanos e contra a arrogância e violência da ditadura. Esta “esquerda” católica vai ser duramente reprimida e dispersa pelos papas de direita João Paulo I e o cardeal e depois papa Ratzinger.

São estas 3 correntes que organizam o PT nacionalmente e elegem os primeiros 15 parlamentares em 1982. Dos quais 3 vão ser expulsos por terem votado na eleição indirecta que elegeu Tancredo Neves presidente, em janeiro de 1985. O PT não aceitou o pacto feito com os militares por Tancredo, o MDB e os dissidentes do partido do governo capitaneados por Sarney e orientou seus deputados para não comparecerem ao colégio eleitoral. São estas 3 correntes que organizam a CUT, uma enorme vitória do movimento sindical autêntico, derrotando a chamada “pelegada” e a burocracia sindical corrupta, ao longo das décadas de 80 e 90, em todo o país.

Com o PT, principalmente até as eleições de 1994, a esquerda viu concretizado o seu sonho de um partido de massas com ideologia socialista, pelo menos como constava em seu programa.

No que se transformou o PT, principalmente depois de atingir o seu objectivo de ganhar as eleições presidenciais, já será objecto de outras reflexões.

Epílogo provisório

A segunda derrota, das Diretas Já e da Constituinte sem a dita Assembleia, de certa forma condiciona e espartilha até hoje o modelo político-institucional-eleitoral brasileiro. A vitória da transição negociada por Tancredo, Ulisses, Sarney e outros com Golbery e Figueiredo, as eleições indiretas, a não opção por uma assembleia nacional constituinte são o pano de fundo da manutenção dum sistema político retrógrado, auto reprodutivo na sua corrupção intríseca. Algo muito distante de uma “democracia amadurecida”, como alguns alardeiam. Mais plutocracia que democracia, onde o velho coronelismo foi substituído, sem desaparecer por completo, pelo domínio de lobbies sofisticados ligados a grupos econômicos financiadores de eleições ou a grandes proprietários rurais e do agro-negócio, a chamada bancada ruralista, pela compra direta ou indireta de votos, pela manipulação ideológica da ignorância e da fé religiosa, como o fazem as igrejas evangélicas e sua bancada no Congresso nacional e por tantas otras ilegalidades que se cometem sob a bandeira do dinheiro nas eleições no Brasil, desde sempre e, mais acentuadamente, após a dita retomada da democracia em 1988, com a nova Constituição.

A 1ª e a 2ª derrotas são aceitas enquanto tal pela maior parte desta geração de militantes de esquerda.

Já a 3ª a divide e divide o país.

Jornalisticamente chamado de “mensalão”, a derrota da tentativa de se desenvolver uma nova praxis política no país, de se alcançar um patamar superior em termos éticos e civilizacionais, na organização política e jurídica da organização do Estado brasileiro, esta derrota, fruto da ação de muitos, dos mais diferentes quadrantes políticos, ideológicos, também traz um gosto amargo para muitos da nossa geração de esquerda. Embora o PT não se possa arvorar como a matriz única desta esperança de renovação, de criação de um Brasil diferente para melhor, não há dúvidas que o caminhar do PT desde sua fundação até a vitória eleitoral de 2002, foi algo novo neste Brasil pós -64, criador de esperanças e ilusões, um partido de massas, de esquerda, um projeto não saído das elites nem reduzido às “vanguardas”. No PT, desde a sua gênese, centenas, senão milhares, de experimentados quadros da nossa geração deram muito de si. De fato, não se pode pensar em PT sem esta componente na sua composição e definição de caminhos, junto com os sindicalistas e a esquerda católica.

Por isso, o progressivo enquadramento deste partido em práticas políticas tradicionais,à medida que tomava progressivamente as rédeas da administração a diversos níveis do Estado, foi criando, progressivamente, uma grande decepção para muitos de nossa geração. O choque do episódio “mensalão”e suas consequências, a aliança para a governabilidade, a renúncia, na prática, a muitas das grandes bandeiras transformadoras, constantes em seu programa, tudo isto e muito mais configuram o que chamo a 3ª derrota. Não por acaso, José Dirceu, um expoente máximo da nossa geração e de sua influência no PT, corporifica esta derrota.

A quarta derrota desta nossa geração de esquerda, nascida políticamente a partir do golpe de 1964, transcende a realidade nacional. Mas paira sobre todos nós que um dia sonhamos com a utopia comunista, com o ideal socialista. E já vem de muitas décadas, quem sabe está mesmo implícita em muitas das concepções, para não falar das práticas, que guiaram milhões de homens no século XX, principalmente. É a derrota do socialismo. Da utopia, da ideologia, do projeto, do marxismo ou de outras ideologias libertárias, do socialismo real nos países onde revoluções ou mudanças radicais impostas levantaram esta bandeira como meta e guia. As vitórias económicas, políticas, militares e sobretudo ideológicas e culturais do sistema capitalista foram profundas. Se a utopia cai, se a vontade de lutar por mudanças radicais e o sonho esvanece para milhões de militantes, então o que sobra é a sobrevivência política, o pragmatismo com sensibilidade social, no máximo, um arremedo de social-democracia. O socialismo é metido na gaveta, como foi.

Estas 4 derrotas, sobre as quais quero refletir no livro ainda em curso, nestas cartas aos amigos, obviamente foram sentidas de diferentes formas e intensidades. Para muitos, as vitórias obtidas a partir das eleições de 74, ou das greves operárias do ABC e das mudanças no movimento sindical, da anistia consentida, da formação do PT ,da vitória de Lula em 2002 e da obra feita nos últimos 12 anos, foram e continuam sendo muito mais importantes que as derrotas. Tais vitórias tiveram outros protagonistas fundamentais.

Ajudamos na mudança, mas não derrubamos a ditadura. Que, aliás, não foi derrubada, não foi abaixo, como tanto gritamos em 1968.

Não quero aqui fazer contabilidade. Mas como tantos já fizeram, em livros, filmes e teses acadêmicas, também quero pensar este caminho desde 1964. É o que muitos fazem a partir dos sessenta anos de idade. Dialogar com os amigos, mas sobretudo comigo mesmo. Tentar compreender. Tentar perceber o sentido de uma vida. Se é que esta tentativa tem sentido.

(Extratos e revisão das “Cartas aos Amigos”, que venho escrevendo desde o início de 2013, sobre as derrotas evitórias da minha geração, pós 64, também conhecida como geração de 68)

Fundador da Casa do Brasil de Lisboa, Carlos Vianna é brasileiro, engenheiro e dirigente associativo do movimento imigrante. 

Sines, 31 de março de 2014, 50 anos depois do fatídico golpe civil-militar da direita brasileira e seus aliados e inspiradores norte-americanos)

 

1 “O Suicídio Revolucionário”, de Claudinei Cássio de Resende (Edições UNESP, 2010)

2 Denise Rollemberg, “O Apoio de Cuba à luta armada no Brasil”, MAUAD 2001

3 Segundo Mário Japa, da direcção da VPR: “…as relações eram muito na base da confiança, das relações pessoais, flexíveis. Não era uma linha fixa, que apoiava ou não… O treinamento… era directamente ligado aos esquemas de segurança do Manuel Piñeiro…, que comandava todo o esquema de treinamento.”

Uma curiosidade, Dirceu fez questão de apresentar Lula a Manuel Piñeiro, quando foram pela primeira vez juntos a Cuba. De comandante a comandante…

4 A incrível história deste alemão pode ser lida no seguinte livro, ainda pouco conhecido: “Johnny, o espião que delatou a rebelião comunista de 1935” de R. S. Rose e Gordon D. Scott, editora Record.

5 O suposto “justiçamento” aconteceu a 05/02/1972, pela “frente armada” ALN, VAR-Palmares e PCBR.

6 Expressão usada por Marighella em entrevista à revista francesa Front, realizada pouco antes de sua morte em setembro de 1969. O título bombástico da entrevista foi a seguinte afirmação do entrevistado: “O Brasil será um novo Vietnam”.

7 Quando não indicado entre parênteses ou no texto, as citações são colhidas por Denise Rollemberg em seu livro citado e também retiradas do livro de Claudinei Cássio de Resende.

8 Em 25 de abril de 1984, sob grande expectativa dos brasileiros, a emenda das eleições diretas foi votada, obtendo 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções. Devido a uma manobra de políticos aliados ao regime, não compareceram 112 deputados ao plenário da Câmara dos Deputados no dia da votação.3 A emenda foi rejeitada por não alcançar o número mínimo de votos para a sua aprovação.

Às vésperas da votação, o Distrito Federal e alguns municípios goianos foram submetidos às Medidas de Emergência do Planalto. No dia 25, houve no final da tarde, um blecaute de energia em parte das regiões sul e sudeste do País, causando apreensão na população que esperava acompanhar a votação pelo rádio. O apagão durou cerca de duas horas e foi, segundo a Eletrobrás (empresa estatal que controlava todo o sistema elétrico nacional na época), causado por problemas técnicos na rede de transmissão.1 Em Brasília, tropas do Exército ocuparam parte da Esplanada dos Ministérios e posicionaram-se também em frente ao Congresso Nacional. Oficialmente estariam ali posicionados para proteger os prédios públicos de atos de desobediência civil. Para a oposição, estes fatos foram mecanismos intimidatórios aplicados pelo governo militar para evitar possíveis surpresas na votação.

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Aos 76 anos e sem mostrar o menor arrependimento, o coronel reformado Paulo Malhães admitiu que torturou, assassinou e desfigurou cadáveres de militantes numa “Casa da Morte” clandestina criada pelos órgãos da repressão em Petrópolis, Rio de Janeiro.

Um promotor brasileiro apresenta indícios do assassinato do presidente João Goulart no exílio

Presidente deposto pelo golpe militar de 1964 morreu em 1976, na Argentina, oficialmente de enfarte; mas suspeita-se que tenha sido vítima de envenenamento praticado no quadro da Operação Condor. Por Alejandro Rebossio, El País

Kennedy discutiu ação militar para derrubar governo brasileiro

“Acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?”, perguntou John Kennedy, 46 dias antes de ser assassinado, numa conversa com Lincoln Gordon, o embaixador americano no Brasil.  

Multinacionais alemãs beneficiaram-se do golpe de 1964

Mercedes, Volkswagen, Bayer, Siemens e Mannesman foram algumas das empresas que financiaram e se beneficiaram com a ditadura. Por Américo Gomes, da Comissão de Presos e Perseguidos Políticos da Ex-Convergência Socialista.

Os média que abraçaram a ditadura do Brasil não fazem “mea culpa”, fazem publicidade

A oposição feroz entre os grandes grupos de comunicação e a censura na ditadura militar é só a imagem que os grandes meios de comunicação querem projetar de si mesmos. Por Caio Hornstein, Carta Maior

As esquerdas e a ditadura militar brasileira

Brevíssimas reflexões sobre as esquerdas brasileiras, nos 21 anos de ditadura militar (1964-1985). Por Carlos Vianna.

Documentários e filmes sobre a ditadura brasileira

Veja uma seleção de documentários e filmes de ficção sobre o golpe e a ditadura militar brasileira.