Está aqui

A revolução tecnológica atual e as suas implicações sociais

No domínio do emprego é pertinente a pergunta: será que teremos um futuro sem empregos? Artigo de Paulo Marques Alves, que participará no Debate “A revolução tecnológica atual e as suas implicações sociais”, com António Chora, no Fórum Socialismo 2017.
Robótica feita em casa - Foto de Fumi Yamazaki/flickr

Robótica, inteligência artificial, plataformas digitais (Amazon, Booking, Uber, etc.), algoritmos, internet das coisas (IoT), nuvem, fábricas conectadas, realidade aumentada, big data, additive manufacturing (AM), também conhecida como 3D printing, indústria 4.0., economia digital, economia colaborativa são, entre outros, termos de que ouvimos falar cada vez mais frequentemente e que se referem à revolução tecnológica atualmente em curso.

Tal como sucedeu nas revoluções tecnológicas anteriores, os receios das implicações da crescente incorporação de trabalho morto no processo de trabalho e consequente substituição do trabalho vivo são muitos. Recordemos a este propósito o movimento luddista da primeira revolução industrial. Colocam-se igualmente questões relativas a outras implicações sociais da utilização das tecnologias, como sejam a privacidade e as condições e as relações sociais de trabalho, sendo real o perigo do aprofundamento da tendência para a sua degradação, como alertam muitos autores, que se referem a este processo como “uberização das sociedades”.

No domínio do emprego é pertinente a pergunta: será que teremos um futuro sem empregos?

Nas décadas de 80 e de 90 vários cientistas sociais (Rifkin, 1995; Gorz, 1988, 1997, 1998; Offe, 1989; Beck, 2000; Méda, 1995; Habermas, 1981, entre outros), ainda que partindo de pontos de vista teóricos diferentes e utilizando argumentos diferenciados, decretaram o fim do trabalho ou, quanto muito, a sua secundarização nas sociedades do capitalismo tardio.

Atualmente, outros autores traçam cenários igualmente pessimistas. É o caso de Frey e Osborne (2013), que analisaram o impacto previsível da computorização sobre mais de 700 profissões, tendo concluído que 47% dos empregos se encontram em risco nas próximas duas décadas. O maior risco incidirá nas profissões menos qualificadas, havendo em algumas delas (operadores/as de telemarketing, motoristas, secretárias/os, vendedores/as, cozinheiros/as, empregados/as de mesa, etc.) uma probabilidade de 99% de serem extintas.

Trabalhos subsequentes, como os de Brynjolfsson e Mcaffe (2014), de Bowles (2014), que afirmou que mais de 50% dos empregos na Alemanha irão ser suprimidos no futuro próximo, o livro de Martin Ford (2015) intitulado Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future” (“Robôs: A Ameaça de um Futuro sem Emprego”, na versão portuguesa de 2016) ou o relatório do Brookfield Institute (2016) concluíram pelo mesmo cenário pessimista.

Menos pessimista se mostra o estudo de Arntz, Gregory e Zierahn (2016), que parte de uma crítica ao trabalho de Frey e Osborne. Enquanto este se centra na profissão, Arntz e colegas centram-se nas tarefas que são desempenhadas, assumindo que em cada profissão as tarefas são muito heterogéneas, algumas das quais dificilmente automatizáveis. No estudo, que incidiu sobre 21 países da OCDE, os autores concluíram que, em termos médios, somente 9% dos empregos são automatizáveis, variando os valores entre os 6% na República da Coreia e os 12% na Alemanha, Áustria e Espanha, facto que será explicado pela existência de diferentes formas de organização do trabalho. Mas, se é improvável que a automatização e a digitalização destruam empregos em larga escala, é salientado que os/as trabalhadores/as menos qualificados/as serão fortemente atingidos/as. Daí o alerta para a necessidade de se assegurar formação profissional para quem vier ou estiver em vias de perder o emprego.

A contrabalançar estas perspetivas pessimistas, um relatório do Boston Consulting Group (2015) concluiu de modo inverso. Nele se considera que a Industry 4.0. terá um impacto positivo no emprego, o qual crescerá 6% até 2025, sendo que na área da engenharia o crescimento será ainda superior, na ordem dos 10%. Em consonância com os estudos anteriormente referidos, a automação desempregará fundamentalmente quem tem baixas qualificações e desempenha tarefas rotineiras e requererá fundamentalmente novas qualificações. Por seu lado, um relatório do Mckinsey Global Institute (2012) estimou que em 2020 se verificaria uma carência de cerca de 40 milhões de trabalhadores/as altamente qualificados/as em todo o mundo e de 45 milhões medianamente qualificados/as só nas economias em desenvolvimento, a par de um excesso de 90 a 95 milhões de trabalhadores/as não qualificados/as a nível mundial.

Corroborando as perspetivas otimistas, dois economistas da Deloitte (2015) trabalharam na longa duração, tendo analisado os resultados dos censos da população na Inglaterra e País de Gales desde 1871, chegando à conclusão de que a tecnologia em vez de destruir empregos, cria-os. Os autores concluem igualmente pelo declínio dos empregos envolvendo tarefas mais pesadas e rotineiras e pelo florescimento em contrapartida dos empregos de carácter social, ligados ao Estado-Providência, e dos ligados à tecnologia.

No entanto, os/as trabalhadores/as mais qualificados/as também parecem não estar ao abrigo do desemprego tecnológico. Recentemente, Jennifer Chayes, que trabalha na área de inteligência artificial da Microsoft, revelou numa conferência que um cientista de dados (data scientist) da empresa havia sido despedido por ter sido substituído por um algoritmo. No ano passado, o Facebook despediu os 15 trabalhadores da equipa de Trending Topics, igualmente substituídos por um algoritmo, o qual ao fim de dois dias cometeu um erro crasso ao deixar passar uma notícia falsa sobre o despedimento de uma jornalista de um dos mais importantes canais de televisão americanos. E ainda no ano passado abriu em Silicon Valley a primeira universidade sem professores.

A realidade é muito complexa, sendo extremamente difícil antecipar o futuro. Mas os riscos de desemprego massivo e de crescimento das desigualdades são grandes. A utopia patronal dos locais de trabalho sem humanos mantém-se. Contudo, a tecnologia nada determina e todos nós somos atores sociais, havendo opções que é possível – e é necessário – discutir (Rendimento Básico de Inserção, diminuição da jornada de trabalho, etc.). Contra o fatalismo, contra os que afirmam que nada podemos fazer, devemos perguntar-nos que direção queremos seguir e agir em conformidade. A catástrofe ameaça-nos. Devemos desde já começar a combatê-la.

Artigo de Paulo Marques Alves, que participará no Debate “A revolução tecnológica atual e as suas implicações sociais”, com António Chora, no Fórum Socialismo 2017. O debate será sábado 26 de agosto, às 14.30h na Sala 2.

Comentários (1)

Resto dossier

Fórum Socialismo 2017

Neste dossier, apresentamos 24 textos de introdução a diversos painéis e debates, que decorrerão ao longo dos dias de sábado (26 de agosto) e domingo (27 de agosto). O Fórum Socialismo realiza-se na Escola Secundária de Camões, em Lisboa.

Se o combate à desigualdade não é só uma expressão bonita para dias de festa, então ele deve traduzir-se em decisões e regras concretas

Há limites para a desigualdade nos salários?

Se o combate à desigualdade não é só uma expressão bonita para dias de festa, então ele deve traduzir-se em decisões e regras concretas. Republicação de artigo de José Soeiro (de 2016), que apresentará o painel “Há limites para desigualdade salarial?”, no Fórum Socialismo 2017

A situação atual põe em perigo a vida das gerações futuras e a própria vida na terra e necessita uma mudança radical e urgente

A urgência de mudar de modelo de segurança alimentar

A situação atual põe em perigo a vida das gerações futuras e a própria vida na terra e necessita uma mudança radical e urgente. Artigo de Samuel Thirion, que participará no debate “Soberania e segurança alimentar, que relação com os circuitos curtos locais”, com Carmen Ibañez, no Fórum Socialismo 2017.

Foto de André Ferreira, Lusa

Bombeiros e proteção civil - que modelo queremos?

Os incêndios e as catástrofes não esperam. Artigo de Sandra Cunha, deputada do Bloco de Esquerda, que debaterá com Armando Silva, dos Sapadores de Coimbra, o modelo de bombeiros e proteção civil, no Fórum Socialismo.

Protesto contra o CETA - é urgente combater este e outros tratados semelhantes, protegendo a democracia, a saúde, o trabalho e o ambiente

CETA: o acordo que pode derrotar a democracia na Europa

O CETA faz parte de uma série de novos acordos internacionais, que, apesar de revestidos com uma capa charmosa, o seu conteúdo é corrosivo para a democracia. Artigo de Isabel Pires, que participará no debate “CETA e tratados comerciais internacionais” com José Paulo Ribeiro Albuquerque e João Gama, no Fórum Socialismo 2017.

Robôs industriais em Guangdong, China

Indústria 4.0 e Sindicatos

Falarmos da Indústria 4.0, é falar de alterações de produção, de Robots, PLC, e todo o tipo de atuais e futuros autómatos… Qual vai ser a resposta dos sindicatos face a esta revolução? Artigo de António Chora, que participará no Debate “A revolução tecnológica atual e as suas implicações sociais”, com Paulo Marques Alves, no Fórum Socialismo 2017.

Homenagem às vítimas do atentado em Bruxelas, Bélgica, foto de Christophe Petit Tesson/Lusa

Terrorismo – combater o quê?

Afinal, falamos de quê, quando usamos a palavra “terrorismo”? Quando é que a violência passa a ser adjectivada dessa forma? Texto de José Manuel Rosendo, que participará no Debate “Como combater o terrorismo?”, com Marisa Matias, no Fórum Socialismo 2017.

A finança desregulada persiste e os produtos financeiros complexos multiplicam-se

O que fazem os bancos?

Nove anos após o estalar da crise financeira internacional, os seus efeitos ainda persistem. Texto de Izaura Solipa, sobre o painel, com o mesmo título, que apresentará no Fórum Socialismo 2017.

O povo do Sahara Ocidental luta pelo reconhecimento do seu direito à autodeterminação há muitas décadas

O Sahara Ocidental em debate no Socialismo 2017

O povo do Sahara Ocidental luta pelo reconhecimento do seu direito à autodeterminação há muitas décadas. Artigo de José Manuel Pureza, que participará no Debate “Sahara Ocidental: Um povo e o(s) seu(s) direito(s)”, com António Pinto Pereira, no Fórum Socialismo 2017.

Foto de Die Linke. Landesverband Baden-Württemberg/flickr

Fronteiras, direitos políticos e direitos humanos

O debate sobre sobre fronteiras, direitos humanos e direitos políticos é um debate sobre as próprias fronteiras da universalidade dos direitos políticos. Texto de Mamadou Ba e Sofia Roque, que participam no painel “Fronteiras, direitos políticos e direitos humanos” no Fórum Socialismo 2017.

Segurança Social - Foto de Paulete Matos

As prestações não contributivas

No debate procurar-se-á abordar os fundamentos, o historial e a abrangência de algumas destas prestações não contributivas. Artigo de Vítor Junqueira, que participará no debate “Prestações não contributivas”, com Mariana Aiveca, no Fórum Socialismo 2017.

Mulheres de Abril: Testemunho de Margarida Tengarrinha

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

Coordenação de Mariana Carneiro.


Tinha acabado de fazer 17 anos quando participei na primeira manifestação política. Foi no dia 8 de Maio de 1945, o dia do armistício. Já existia entre nós a noção do que foi a guerra, do que foi o nazifascismo, da aliança do Salazar com o Mussolini e o Hitler. Para mim isso era muito claro. Que não existia, de maneira nenhuma, isenção da parte do Salazar. Por Margarida Tengarrinha

Mulheres de Abril: Testemunho de Joana Lopes

A liberdade que nunca se imaginara poder ser tão grande, as esperanças quase sem limites dos tempos que se seguiram. Sim, tudo isso, mas foi longo o caminho de muitos para lá chegarem – e o meu também foi. Artigo de Joana Lopes, que participará no debate “Mulheres de Abril”, com Margarida Tengarrinha, no Fórum Socialismo 2017.

“Temas como a igualdade de género e o sexismo ganhavam aqui território: primeiro a partir da presença do grupo Djamal no panorama discográfico nacional...”

Abram Espaço que elas estão a chegar, as mulheres no RAP: afirmação e resistência (1990 -1997)

Nesta fala procurarei demostrar como a temática do RAP apresentou pouco depois das suas primeiras aparições, uma grande heterogeneidade de tipologias musicais e de recursos musicais... Artigo de Soraia Simões, que participará no debate “Hip Hop em Portugal”, com Ana Sofia Fernandes, no Fórum Socialismo 2017.

Portugal poderá sofrer os efeitos de possíveis fugas radioativas da central nuclear de Almaraz (Cáceres) e da mina de urânio de Retortillo

O Conflito sobre Almaraz, Retortillo e a transição energética

Portugal poderá sofrer os efeitos de possíveis fugas radioativas da central nuclear de Almaraz (Cáceres) e da mina de urânio de Retortillo. Artigo de Francisco Castejón (coordenador do Movimento Ibérico Antinuclear), que participará no debate “O Conflito sobre Almaraz, Retortillo e a transição energética”, com Pedro Soares, no Fórum Socialismo 2017.

Petróleo Não - Foto de Paula Nunes, no facebook da ASMAA Algarve Surf & Marine Activities Association

Exploração de Petróleo vs. Justiça Climática

A crise climática impõe-nos uma luta com um prazo: uma luta para mudar tudo nas nossas sociedades, antes de as alterações climáticas o fazerem (num outro sentido). Texto de Sinan Eden, que participará no debate “Exploração de Petróleo vs. Justiça Climática”, com Laurinda Seabra, no Fórum Socialismo 2017.

O Fórum Socialismo 2017 decorre nos dias 25, 26 e 27 de agosto

Arquitectura e inclusão

Importa ponderar uma linha orientadora para a produção de habitação colectiva e de massas que seja essencialmente distinta daquela que responde unicamente aos apetites do mercado imobiliário”. Artigo de Ricardo Gouveia de Almeida, que apresentará o painel “Arquitetura e inclusão ” no Fórum Socialismo 2017

Guerra colonial - Foto wikipedia

Colonialismo Português

O debate público dos últimos meses tem mostrado o quão persistente é no inconsciente coletivo nacional a ideia de que o colonialismo português foi desprovido de preconceito racial e se caracterizou por uma dimensão humanista. Artigo de Pedro Schacht Pereira e Elsa Peralta, que participarão no debate “Colonialismo Português”, no Fórum Socialismo 2017.

Salário Mínimo Nacional ou Salário Nacional?

A apresentação no Socialismo 2017 vai discutir quem são os trabalhadores com salário mínimo e os impactos da política de aumentos. Artigo de Ricardo Moreira, que apresentará o painel “Salário mínimo nacional ou salário nacional?”, no Fórum Socialismo 2017.

Marcha global da mariajuana 2017, em Lisboa, foto de Luís Branco

A Redução de Riscos junto de públicos vulneráveis

Questões de ordem e de saúde pública ou um direito individual a uma escolha informada? Artigo de Ximene Rego, que participará no Debate “A política, as drogas e a cidade”, com Ricardo Fuertes, no Fórum Socialismo 2017.

Aurélio Lopes apresentará o painel “Videntes, confidentes e penitentes - A construção do sagrado no universo cultural de Fátima”, no Fórum Socialismo 2017

Videntes, confidentes e penitentes

Porquê, a história do cristianismo se plasma de episódios taumatúrgicos em que as diversas divindades cristãs se revelam aos Homens? Artigo de Aurélio Lopes, que apresentará o painel “Videntes, confidentes e penitentes - A construção do sagrado no universo cultural de Fátima”, no Fórum Socialismo 2017.

Foto de Paulete Matos

Ensino Superior: há autonomia sem Investimento Público?

É imperativo que possamos perguntar: há autonomia sem investimento Público? Artigo de Gonçalo Leite Velho e Luís Monteiro, que participarão no painel “Ensino Superior: há autonomia sem Investimento Público?”, no Fórum Socialismo 2017.

Robótica feita em casa - Foto de Fumi Yamazaki/flickr

A revolução tecnológica atual e as suas implicações sociais

No domínio do emprego é pertinente a pergunta: será que teremos um futuro sem empregos? Artigo de Paulo Marques Alves, que participará no Debate “A revolução tecnológica atual e as suas implicações sociais”, com António Chora, no Fórum Socialismo 2017.

A onda de repúdio que se instalou internacionalmente em solidariedade aos presos políticos do “Processo 15+Duas” não serviu para dissuadir o regime ditatorial de suas práticas repressivas

A violência institucional em Angola

O governo angolano tem coleccionado muitas mortes ao longo do seu reinado de podridão. Artigo de Sedrick de Carvalho, que participará no Debate “Repressão em Angola”, com Jorge Silva, no Fórum Socialismo 2017.

Avião larga água sobre um eucliptal a arder – Vendas Novas, 2 de julho de 2017 – Foto de Miguel A. Lopes/Lusa

Eucaliptal

Serão as vantagens financeiras associadas ao negócio compensadoras dos riscos económicos, ambientais e sociais para a sociedade? Artigo de Paulo Pimenta de Castro, que apresentará o painelEucaliptal”, no Fórum Socialismo 2017.