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Paulo Freire: Uma vida dedicada à educação como processo emancipatório

Apesar de Paulo Freire ser considerado o patrono da educação brasileira, os opressores continuam a não perdoar-lhe o “atrevimento” de combater a dominação e de preconizar uma cultura anti hegemónica e emancipatória. Por Graça Marques Pinto.

Paulo Freire, figura maior da pedagogia contemporânea, nasceu no Recife a 19 de setembro de 1921. Até aos nove anos viveu uma infância desafogada, numa família da classe média que conheceu a pobreza em consequência da crise económica e social de 29/30 e se viu obrigada a deixar o Recife. Paulo Freire, ao referir-se a esse período, afirmava que tinha experienciado o que era ir para a escola com fome.

Na adolescência regressa ao Recife, onde completa o curso de Direito, mas o seu percurso de vida é, desde cedo, marcado pela práxis educativa.

Freire opôs-se ao paradigma educacional dominante, que denominou de “educação bancária”, em que o aluno é visto como uma conta vazia a ser preenchida pelo professor, e afirma que "transformar os alunos em objetos receptores é uma tentativa de controlar o pensamento e a ação, leva homens e mulheres a ajustarem-se ao mundo e inibe o seu poder criativo".

Segundo Paulo Freire, o sistema de relações sociais dominantes cria uma "cultura do silêncio", que promove uma auto-imagem negativa, silenciada e suprimida aos oprimidos. A cultura do silêncio também faz com que os "indivíduos dominados percam a capacidade de responder de forma crítica à cultura dominante”.

Estes princípios enformadores da práxis freiriana estão presentes na sua vasta obra, nomeadamente naquele que é, talvez, o livro mais conhecido de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, escrito em 1968, quando estava exilado no Chile.

As suas propostas para uma educação emancipatória, transformadora das pessoas e da sociedade são indissociáveis de uma práxis atravessada por uma permanente análise dos contextos socioculturais e pela relação dialógica com o outro.

Freire não se limitou a refletir sobre a realidade. A sua vida foi marcada por uma intensa intervenção social e pedagógica. Como resposta ao obscurantismo reinante no Brasil e à elevadíssima taxa de analfabetismo, desenvolveu, no “terreno”, aquele que viria a ser conhecido como método de alfabetização Paulo Freire.

Angicos, uma pequena cidade do Rio Grande do Norte com uma elevadíssima taxa de analfabetismo, foi palco, em 1963, de um projeto de alfabetização coordenado por Paulo Freire que abrangeu 300 adultos, conhecido como “Quarenta Horas de Angicos”, tempo total da duração dos “Círculos de Cultura”. A denominação de aulas não era consentânea com a relação dialógica que se estabelecia nesse espaço/tempo. O próprio processo de alfabetização era precedido pelo diálogo com a população, para auscultar da sua situação, cultura e interesses, que determinavam as palavras que seriam trabalhadas no processo de alfabetização.

Entretanto, a experiência de Angicos viria a replicar-se por todo o território, acabando por constituir o pilar do Plano Nacional de Alfabetização de que Paulo Freire foi Coordenador. O golpe militar de 1964, que instaurou uma feroz ditadura no Brasil, pôs fim a este projeto. Paulo Freire e outros membros da sua equipa foram presos e ele é obrigado a partir para o exílio, situação em que esteve 16 anos.

Na sequência da amnistia de 1979, Paulo Freire regressou ao Brasil em 1980, tendo supervisionado o programa do PT para a alfabetização  de adultos de 1980 até 1986. Quando o PT venceu as eleições municipais paulistanas de 1988, foi nomeado Secretário da Educação da cidade de São Paulo, cargo que exerceu de 1989 a 1991. Deve-se a ele a criação Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), um modelo de programa público de apoio a salas comunitárias que, até hoje, é adotado por numerosas prefeituras e outras instâncias de governo.

Apesar de Paulo Freire ser considerado o patrono da educação brasileira, os opressores continuam a não perdoar-lhe o “atrevimento” de combater a dominação e de preconizar uma cultura anti hegemónica e emancipatória. Mesmo depois da sua morte, em 1977, há quem o vilipendie, como o “bufão” Bolsonaro, que, em 2019, o apelidou de “energúmeno”.

A pedagogia emancipatória teve, também, um papel determinante no continente Africano. O pensamento de Paulo Freire enformou os programas educativos de vários países africanos, com particular destaque na área da alfabetização.

Ainda no período da dominação colonial, ter-se-á encontrado com Samora Machel na Tanzânia, e esteve com Amílcar Cabral na Guiné Bissau, encontro que o marcou pelo seu pensamento sobre a “descolonização das mentes”. Após a independência, a pedagogia de Paulo Freire foi determinante no processo de alfabetização nas ex-colónias portuguesas e, em particular, na Guiné Bissau, tendo escrito as Cartas a Guiné Bissau- registros de uma experiência em processo, editado pela editora Paz e Terra, em 1984.

Em Portugal, onde nos anos setenta a taxa de analfabetismo era de 25%, o chamado método de alfabetização Paulo Freire foi seguido, a partir de 1970, pelo Movimento Graal, liderado por Maria de Lourdes Pintasilgo e Teresa Santa Clara, que promoveu formações de alfabetização e mobilização cultural em Coimbra e em algumas aldeias no Norte.

A seguir à Revolução, a pedagogia freiriana esteve presente em diversas iniciativas em todo o país e influenciou o Plano Nacional de Alfabetização, cujo manual consagrava o princípio de que a educação deve promover a consciencialização, ajudando-nos a “saber ler” a sociedade onde estamos inseridos e a construir um futuro sem exploradores e explorados. O seu pensamento está também presente nos projetos educativos de diversos movimentos e escolas com uma pedagogia alternativa, de que se destacam o Movimento Escola Moderna e a Escola da Ponte.

A dimensão maior do filósofo e pedagogo Paulo Freire foi reconhecida por dezenas de Universidades de vários continentes, que lhe concederam o grau de doutor honoris causa e foi detentor de inúmeros títulos honoríficos.

Decorridos cem anos do seu nascimento, a pedagogia de Paulo Freire continua a ser inspiradora para quem acredita que a educação pode ser emancipatória e libertadora. A atualidade do seu pensamento está presente nos inúmeros debates e encontros internacionais dedicados a Paulo Freire por ocasião do centenário do seu nascimento.

Obra

  • 1959: Educação e atualidade brasileira. Recife: Universidade Federal do Recife, 139p. (tese de concurso público para a cadeira de História e Filosofia da Educação de Belas Artes de Pernambuco).

  • Paulo Freire. A propósito de uma administração. Imprensa Universitária; 1961.

  • 1963: Alfabetização e conscientização. Porto Alegre: Editora Emma.

  • Paulo Freire. Educação como prática da liberdade. Paz e Terra; 2000. ISBN 978-85-219-0109-9

  • Paulo Freire; Raul Veloso; Luís Fiori. Educação e conscientização: extensionismo rural. CIDOC; 1968.

  • Paulo Freire. Extensão ou comunicação?. Paz e Terra; 2001. ISBN 978-85-219-0427-4.

  • Paulo Freire. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Paz e Terra; 2007. ISBN 978-85-7753-023-6.

  • Paulo Freire. Cartas a Guine-Bissau: registros de uma experiência em processo. Paz e Terra; 1984.

  • Paulo Freire. Os cristãos e a libertação dos oprimidos. Edições Base; 1978

  • 1979: Consciência e história: a práxis educativa de Paulo Freire (antologia). São Paulo: Loyola.

  • 1979: Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 112 p.

  • 1979: Multinacionais e trabalhadores no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 226 p.

  • 1980: Quatro cartas aos animadores e às animadoras culturais.República de São Tomé e Príncipe: Ministério da Educação e Desportos, São Tomé.

  • 1980: Conscientização: teoria e prática da libertação; uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Moraes, 102 p.

  • 1981: Ideologia e educação: reflexões sobre a não neutralidade da educação. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

  • 1982: Sobre educação (Diálogos), Vol. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra ( 3 ed., 1984), 132 p. (Educação e comunicação, 9).

  • Paulo Freire; Antonio Faundez. Por uma pedagogia da pergunta. Paz e Terra; 2002

  • Paulo Freire; Adriano Nogueira; Débora Mazza. Fazer escola conhecendo a vida. Papirus; 1986

  • Paulo Freire; Sérgio Guimarães. Aprendendo com a própria história. Editora Paz e Terra; 2000. ISBN 978-85-219-0371-0

  • Paulo Freire; Adriano Nogueira; Debora Maza. Na escola que fazemos: uma reflexão interdisciplinar em educação popular. Edit. Vozes Ltda.; 1990. ISBN 978-85-326-0237-4.

  • Paulo Freire; Adriano Nogueira. Que fazer: teoria e prática em educação popular. Vozes; 1989.

  • Paulo Freire. Paulo Freire conversando con educadores. Ed. Roca Viva; 1990.

  • Paulo Freire; Donaldo Pereira Macedo. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. Paz e Terra; 1990

  • Paulo Freire, A Educação na cidade. Cortez Editora; 1991.

  • Paulo Freire, A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. Cortez; 2008

  • Paulo Freire. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Paz e Terra; 1997. ISBN 978-85-219-0010-8.

  • Paulo Freire, Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. Olho d'Água; 2008

  • Paulo Freire, Política e educação: ensaios. Cortez Editora; 1993.

  • Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire, Cartas a Cristina: reflexões sobre minha vida e minha práxis, 2003, Editora UNESP, ISBN 978-85-7139-483-4

  • Paulo Freire, ‎Frei Betto, Essa escola chamada vida, 1994, Ed. Ática, ISBN 978-85-08-02764-4

  • Myles Horton; Paulo Freire; Brenda Bell. O caminho se faz caminhando: conversas sobre educação e mudança social. Vozes; 2003. ISBN 978-85-326-2815-2.

  • Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire, À sombra desta mangueira, Olho d'Água. 1995, ISBN 978-85-85428-15-0.

  • Paulo Freire, Sérgio Guimarães, Moacir Gadotti, Pedagogia: diálogo e conflito, 1986, Cortez Editora Autores Associados

  • Paulo Freire, Ira Schor, Medo e ousadia: o cotidiano do professor, 1997, Paz e Terra

  • Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, 2009, Paz e Terra, ISBN 978-85-7753-015-1

  • Paulo Freire, Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos , 2000, Editora Unesp, ISBN 978-85-7139-291-5

  • Paulo Freire, Sérgio Guimarães, A África ensinando a gente: Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, 2003, Paz e Terra, ISBN 978-85-219-0646-9

  • Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido. Editora Paz e Terra; 1968, 2014 Última Edição

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Neste dossier:

100 anos de Paulo Freire: A pedagogia da libertação e da esperança

Decorridos cem anos do seu nascimento, a pedagogia de Paulo Freire continua a ser inspiradora para quem acredita que a educação pode ser emancipatória e libertadora. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Investigação participativa e compromisso com a transformação do mundo - Diálogos com Paulo Freire

Refletimos neste artigo sobre as possibilidades e as limitações de uma investigação participativa, entendida como práxis, ação‑reflexão, na qual se procurou tecer caminhos para que outras formas de fazer ciência, mais comprometidas com a transformação do mundo, se tornem possíveis. Por Inês Barbosa e Fernando Ilídio Ferreira.

Augusto Boal: “Para que eu exista é preciso que Paulo Freire exista”

Paulo Freire inventou um Método, o seu, o nosso, o Método que ensina ao analfabeto que ele é perfeitamente alfabetizado nas linguagens da vida, do trabalho, do sofrimento, da luta, e só lhe falta aprender traduzir em traços, no papel, aquilo que já sabe, no seu quotidiano. Por Augusto Boal.

Paulo Freire e Amílcar Cabral: A descolonização das mentes

O Esquerda.net transcreve neste artigo a apresentação do livro Paulo Freire e Amílcar Cabral: A descolonização das mentes, de José Eustáquio Romão e Moacir Gadotti, escrita pelos autores. Disponibilizamos ainda o pdf desta obra.

Paulo Freire e a governação democrática da escola: organização, participação e autonomia

Administrar a educação e gerir as escolas, tanto como ensinar, revelam-se tarefas político-pedagógicas, implicando portanto um trabalho educativo. E o trabalho educativo, tal como brilhantemente Paulo Freire defendeu, não pode existir sem opção política. Por Licínio C. Lima.

“Cada livro de Freire é uma espécie de relatório sobre o pensado e o vivido”

Em entrevista conduzida por Ruth Pavan, Licínio Lima, cofundador do Instituto Paulo Freire de Portugal, defende que Paulo Freire só sobreviverá “como grande autor se a partir de sua obra, do seu pensamento, das suas pistas, alargarmos o seu âmbito a novos problemas, a novas questões”.

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Pedagogia do Oprimido: breves considerações sobre o texto e o contexto

Na visão freiriana, para que os oprimidos convertam as suas próprias atividades em força revolucionária, precisam de desenvolver uma consciência coletiva da sua própria condição ou formação como classe subalterna. Por Rosa Soares Nunes.

Paulo Freire - Foto reproduzida de Brasil247

Paulo Freire, educador do mundo

Neste artigo, Urariano Mota acusa: “Paulo Freire sofre um segundo exílio post-mortem neste governo Bolsonaro. De Patrono da Educação Brasileira ele passou a ser perseguido de novo”.

Paulo Freire no Occupy

Como o pensamento do educador, que completou 100 anos, pode ajudar-nos a pensar os limites do Occupy e outros “movimento das praças” da década passada? Por Rodrigo Nunes.

O pedagogo da esperança e da liberdade

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao nascer e desenvolver-se, nada mais fez do que confirmar pela prática o que Paulo Freire tinha descrito nas suas reflexões. Por Ademar Bogo.

Colóquio Internacional 100 anos de Paulo Freire

Por todo o mundo, multiplicam-se as iniciativas no âmbito do centenário de Paulo Freire. “Esperança, Ousadia, Indignação” é o tema da iniciativa que decorrerá a 8 de outubro, a partir das 10h30, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A entrada é livre, mas com inscrição prévia.