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O valor da Europa

Após a vitória do Brexit, criou-se um mito de um eleitorado arrependido. Os números mostram que não só a saida da União Europeia é aceite como desejada por uma maioria expressiva e inter-partidária. 
Margaret Thatcher em campanha para o referendo de 1975.
Margaret Thatcher em campanha para o referendo de 1975.

Após a vitória do Brexit a teoria era a seguinte: a maioria dos cidadãos não queria realmente sair da União Europeia e, mais especificamente, quem votou brexit não sabia o que estava a fazer. Em suma: enganaram-se. 

Esta teoria foi sustentada por semanas de notícias e vídeos no youtube de brexiters arrependidos. Vários sinais contrariavam esta narrativa, desde logo as manifestações pró-remain não serem particularmente participadas apesar de serem em Londres, a cidade com maior voto pró-união europeia. 

Criou-se assim um mito que ora se chamou “os 48%” ou “os 52%”, onde existiria uma maioria do eleitorado que legitimaria a revogação do referendo de 2016.  

Um ano depois, Theresa May não só está a negociar um “hard brexit” [uma saída inequívoca da UE] como se prepara para uma provável vitória, numas eleições antecipadas convocadas especificamente para legitimar a sua estratégia nas negociações com a união europeia. Se os 48% existiram, hoje ninguém sabe onde estão. 

O número crucial para entender a decisão de Theresa May ao convocar eleições antecipadas - algo a que não era obrigada até ao início de 2019 - não são os euro-entusiastas, nem a popularidade dos Conservadores britânicos no eleitorado ou a depressão do Labour, mas sim os 69 por cento que consideram que o governo “tem o dever e obrigação de sair da UE”. A verdade é que apenas 21 por cento consideram que o governo (este ou o próximo) deveria bloquear o Brexit ou convocar um segundo referendo. 

Nem sequer a hipótese de um “soft brexit” - uma saída da UE que mantenha alguma forma de parceria privilegiada - reúne um consenso minimamente próximo dos 48%. Segundo uma sondagem da YouGov, apenas 24 por cento considera que é mais importante um espaço de comércio livre do que controlar a livre circulação de pessoas, enquanto que 40% acredita que ambas as coisas são possíveis (algo que o Conselho Europeu rejeita). 

Mas, acima de tudo, 52% por cento acredita que o resultado das negociações vai ser “bom para o Reino Unido” e apenas 22 por cento pensa o contrário; enquanto que 61 por cento acreditam que o plano de Theresa May “respeita o referendo” contra apenas 11%. Uma saída dura da UE é apoiada por 64 por cento dos eleitores, contra12 por cento. E, mesmo em caso de as negociações correrem mal, 55 por cento apoiam a posição de Theresa May de que “nenhum acordo é melhor do que um mau acordo”, contra 24 por cento que discordam. 

Se considerarmos o voto do referendo de 2016 à luz dos círculos eleitorais das eleições para a Casa dos Comuns, apenas 35% dos círculos apoiariam ficar na união europeia, uma soma que deve ter descido drasticamente desde que a saída se tornou uma realidade. 

Estes números ajudam a explicar três escolhas políticas importantes para estas eleições. Em primeiro lugar, a ambiguidade de Jeremy Corbyn face ao Brexit. 

O Labour fez campanha para permanecer na UE, dando valor aos benefícios nos direitos sociais e laborais que a adesão tinha garantido para os trabalhadores britânicos. Não convenceu e essa parece ser uma lição que Corbyn assumiu. Na apresentação do programa eleitoral não só se distanciou como tentou assumidamente afastar totalmente a discussão do Brexit da campanha para se centrar em propostas anti-austeridade. As últimas sondagens, realizadas após a apresentação do programa de governo, dão-lhe a primeira recuperação significativa nas sondagens. 

De modo inverso, Theresa May definiu as eleições como um plebiscito à sua estratégia de negociação com a união europeia. Mas, a cinco dias das eleições, este parece ser um assunto que pouco proecupa os britânicos que se concentram em questões de política doméstica. 

Por último estão os Liberais (Lib Dem), que definiram a sua estratégia eleitoral totalmente na ideia de rejeição do Brexit. É a estratégia que mais se alimenta dos mitos criados na imprensa após o referendo e que iria ganhar da ambiguidade do Labour face ao Brexit. No entanto, nada disto se parece estar a verificar. Não só as sondagens não apresentam nenhuma acumulação de forças como a sua mensagem não parece alterar a opinião de ninguém face ao Brexit. Permanecer na UE é, neste momento, algo impensável para a maioria do eleitorado. 

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