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Do Novo ao Velho Labour, e um pouco de Thatcher pelo meio

Margaret Thatcher afirmou que a sua principal vitória teria sido o "New Labour" de Tony Blair. Mas será? Expomos neste artigo uma perspetiva histórica onde Thatcher não teria existido sem as políticas de austeridade aplicadas pelo próprio Labour. 
"O Labour não resulta", cartaz de campanha de Margaret Thatcher em 1979.
"O Labour não resulta", cartaz de campanha de Margaret Thatcher em 1979.

“É bastante irónico que, na campanha histórica de 1979, os Trabalhistas tenham sido obrigados a fazer campanha refutando a ideia de que não tinham instrumentado uma crise social pela sua cisão radical com a política económica até então em vigor - quando foi precisamente isso que fizeram - enquanto que o Partido Conservador voltou ao poder sob a liderança energética de uma mulher que insistia que era precisamente esse o tratamento necessário para a malaise britânica.” (Tony Judt, Postwar, The Penguin Press, p. 539, todos os excertos neste artigo são tradução do esquerda.net). 

É talvez das estórias menos relembradas da história política do Reino Unido (e dos movimentos de esquerda) que a grande traição da Terceira Via blairista - e de todos os seus subprodutos europeus - não começou com Thatcher, mas sim com o próprio partido trabalhista. 

Desde os anos trinta do séc. XX que a política económica no Reino Unido - inclusivamente a dos Conservadores - se mantinha alicerçada num consenso vagamente keynesiano que, tomava por adquirido e essencialmente boa alguma planificação económica, financiamento através de défices e pleno emprego. As crises de 1973 iriam mudar todo o debate com um recauchutamento de ideias sobre mercado livre, tidas como novas e apelativas num contexto de recessão económica, que colocaram o ónus dos problemas sobre o Estado e na coletivização económica supostamente vigente. 

Estava longe de ser o caso. Sim, o Partido Trabalhista mantinha a “propriedade dos meios de produção por parte do Estado, distribuição e troca” como um alicerce programático indiscutível desde 1918 (até Blair, novamente) mas, à exceção das nacionalizações do pós-guerra (tímidas no contexto europeu), “poucos líderes trabalhistas lhe prestavam atenção, se alguns” (p.537). 

A verdade é que o “coletivismo britânico”, contra o qual Thatcher se viria a insurgir no dealbar neoliberal dos anos 80, não provinha propriamente de uma extraordinária presença do Estado na economia - qualquer outro país europeu do consenso social-democrata ultrapassava o Reino Unido neste aspecto -, mas, sobretudo, das instituições de serviços públicos universais, da educação à saúde, passando pelos transportes e estrutura militar (incluindo toda a complexa rede semi-privada da indústria militar, desagregada a favor da indústria norte-americana precisamente pelos trabalhistas nos anos 60. Novamente, a ironia). 

No governo conservador de Edward Heath (1970-74), um ataque à indústria mineira resultou numa vaga grevista que obrigou Heath a marcar eleições que os trabalhistas ganharam (por curta margem), ainda sob a liderança de Harold Wilson (algo que quase se repetiu com Thatcher dez anos mais tarde, não fosse o impulso mediático da guerra das Malvinas). E foi com o sucessor de Wilson - James Callaghan - à frente do governo que os trabalhistas pediram um empréstimo ao Fundo Monetário Internacional em 1976. 

Nos três anos seguintes, os trabalhistas iriam colocar em prática uma política agressiva do que hoje chamamos de “políticas de austeridade”: cortes agressivos nas transferências sociais; privatizações (notoriamente, foram os trabalhistas que venderam a participação pública na British Petroleum em 1976); controlo estrito da inflação; quebra dos salários; o fim do pleno emprego como objetivo económico, aceitando um nível elevado de desemprego como necessário para uma economia “saudável”; e criação propositada de toda uma periferia social de desfavorecidos, de trabalhadores não sindicalizados e precários, provocando um aumento galopante de desigualdades sociais (com a hostilização de toda a sua base social, os trabalhistas perderam as eleições de 1979). Em suma, tudo o que atribuímos como um pacote original de Thatcher. 

É por isso que quando Tony Judt escreve que “Margaret Thatcher não era, bem vistas as coisas, uma candidata provável para o papel revolucionário que viria a ter” (p.539), está a ser mais certeiro do que aquilo a que se dá crédito. Se é verdade que, tal como a própria admitiu, a maior vitória de Thatcher foi o “New Labour” (terceira via de Tony Blair), também é verdade que o “novo conservadorismo” de Thatcher teria sido impossível sem a submissão antecipada do “velho Labour”.

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