Está aqui

NATO, a caminho do Mar da China

A luta pela Paz é inseparável da luta pelo desarmamento e pelo desmantelamento de alianças militares agressivas. Sabemos que isso significa fazer recuar o imperialismo, ou seja, o poder de um ou mais países, poder militar, económico e político que domina terceiros países. Por Luís Fazenda.
Foto Влада на Република Северна Македонија, Flickr.

A entrada de Portugal na fundação da NATO, em 1949, é uma prova substancial e muito exposta de que os Estados Unidos da América não tiveram dificuldade em associar-se a um regime fascista e colonialista, como o de Salazar, para estruturar uma organização militar de alcance geoestratégico.

Tal facto desmente, desde o primeiro dia, a propaganda de uma organização internacional cujo tratado fundador proclama o compromisso com uma herança comum fundada nos “princípios da democracia, das liberdades individuais e do respeito pelo direito”.

O único critério escolhido pelos dirigentes americanos era o de estabelecer a hegemonia internacional e limitar o espaço da União Soviética e seus aliados.

Truman, líder do imperialismo dos EUA à época, pouco lhe importou a natureza da ditadura portuguesa, importou-lhe sim a utilização da base dos Açores no Atlântico e do espaço marítimo português a norte e a sul desse oceano. A base aérea da Terceira no arquipélago dos Açores era um ponto essencial para o reabastecimento do combustível dos aviões militares americanos em deslocação para a Europa ou para o Médio Oriente.

O Tratado de cedência da Base das Lajes (Ilha Terceira) aos EUA data de 1945 e é um tratado bilateral. Mas a presença de forças estrangeiras era anterior. A Base Aérea das Lajes estava a ser usada desde outubro de 1943 pelas Forças Armadas britânicas, na sequência de uma solicitação formal do Reino Unido ao abrigo da velha Aliança Luso-Britânica. Note-se que Portugal era formalmente neutro na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Pela mesma altura, os EUA manifestaram interesse pela mesma posição geoestratégica.

Logo no início de 1944, as forças dos EUA acedem também à Base das Lajes a pretexto de uma missão de apoio à Royal Air Force. No início de 1945, os EUA mudam temporariamente o seu destacamento para a Ilha de Santa Maria. Voltando depois para a Ilha Terceira, em junho de 1946, para assumir o controle da Base das Lajes com a saída dos britânicos.

Ainda hoje os EUA não cedem no controlo da base aérea apesar de ter deixado de ser essencial ao reabastecimento dos aviões de combate e apoio logístico que atualmente têm autonomia energética para atravessar todo o Atlântico. Mesmo assim, na guerra da Ucrânia foi grande o trânsito de caças de combate.

Na Base aérea, os EUA não cumprem a legislação laboral portuguesa nem sequer as decisões dos tribunais relativos a quaisquer conflitos nesse território português, com total impunidade. A Base provocou uma grave contaminação química dos terrenos envolventes e nenhuma autoridade americana procura sequer minimizar os danos ambientais.

EUA e a NATO deram cobertura ao anacrónico "império português" e às guerras de África

Desde o seu início, a NATO, aí destacando-se os EUA, ignorou a questão colonial portuguesa. Depois do colapso das Potências do Eixo, Portugal continuava a deter possessões em Cabo Verde, Guiné, Angola, Moçambique, Índia, Macau e Timor.

Avaliando a viragem na ordem internacional num rumo pró independência dos territórios colonizados por europeus, o regime de Salazar já tinha feito em 1951 uma revisão à Constituição fascista portuguesa de 1933 para esconder formalmente o império colonial atrás de um Estado unitário com "províncias ultramarinas".

As pressões diplomáticas das Nações Unidas sobre Portugal por causa do império colonial começam logo em 1956 e intensificam-se a partir de 1960, com a Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais - Resolução 1514 (XV) da Assembleia Geral de 14 de dezembro de 1960. A resposta da diplomacia portuguesa era a tese caricata de que não possuía territórios não-autónomos. Mas o argumento só ia prevalecendo sob a sombra da “aliança atlântica”.

Em 1961, Portugal é expulso da Índia e inicia-se a guerra de libertação de Angola. Em 1963, é a vez da Guiné iniciar a sua guerra de libertação. E em 1964 Moçambique inicia também a sua luta armada pela independência. As guerras de independência durariam até 1974 com a derrota militar do fascismo e a descolonização portuguesa em 1974/75.

Durante todo esse tempo, os EUA e a NATO deram cobertura ao anacrónico "império português" e às guerras de África. E a Casa Branca manteve a sua cumplicidade política com Lisboa, assegurando não só uma posição geoestratégica nos Açores mas também fazendo das colónias portuguesas uma barreira a processos de independência com inspiração socialista. Na mesma linha, embora crítica da existência de colónias, a Comunidade Económica Europeia deixou a ditadura portuguesa à vontade na guerra colonial, afrontando a Carta das Nações Unidas, o que só pode ser lido como uma clara cedência às imposições americanas.

Turquia é o exemplo perfeito da autocracia que a NATO diz combater

Na mesma linha de desprezo da democracia como sistema político e direito dos povos está a pertença à NATO da Turquia, membro desde 1952. Neste caso, basta-nos a história recente para encontrar exemplos flagrantes.

Erdoğan, primeiro-ministro entre 2003 e 2014, é desde 2014 presidente da Turquia. Após a sua primeira eleição declarou pretender exercer um mandato com plenos poderes. Entretanto, uma tentativa falhada de golpe de Estado por parte de elementos do exército, nos dias 15 e 16 de julho de 2016, deu a Erdoğan o pretexto para declarar e sucessivamente renovar o estado de emergência, num interminável ciclo de violência e purgas. O regime militarizado turco tem atirado milhares de opositores para os cárceres, incluindo deputados, sindicalistas e jornalistas. E tem desenvolvido sem freio uma guerra de eliminação dos curdos dentro e fora de fronteiras.

A concentração de poderes em Erdoğan foi entretanto “legitimada” por um referendo para alteração da Constituição, realizado em 2017 ainda sob estado de emergência e com acusações de fraude eleitoral. Desde agosto de 2018 o estado de emergência foi substituído pela nova lei “anti-terrorismo” como cobertura para a ação autoritária do governo.

A Turquia pode até ter eleições mas a islamização crescente do regime e o poder do grupo do caudilho Erdoğan não permitem que esse ritual ultrapasse a caricatura. A Turquia é o exemplo perfeito da autocracia que supostamente Biden quer combater e, no entanto, é um aliado estratégico dos EUA.

Creio não carecer de mais demonstração que a NATO não foi criada para defender a Democracia e não é um instrumento de combate a autocracias como a NATO de hoje gosta de se proclamar. Em toda a sua existência, a NATO defendeu os interesses dos Estados Unidos que nela tiveram o principal encargo e absoluta direção política, como lembrou Trump com rudeza, para escândalo de Merkel.

Do anacronismo pós-guerra fria à aliança ofensiva contra "o inimigo sem rosto"

A definição desse inimigo estratégico, as "autocracias", de meridiana clareza na era Biden, supera finalmente os acontecimentos desencadeados pelo 11 de Setembro nos Estados Unidos e dá um novo enquadramento à política norte americana, cuja escalada de conflito pode assemelhar-se à passada Guerra Fria.

Após o colapso do Pacto de Varsóvia e da derrocada da União Soviética, a NATO passou a funcionar com um conceito estratégico anacrónico, datado de 1991 e ainda muito marcado por um mundo bipolar que desapareceu nesse mesmo ano. As intervenções militares na Bósnia (1992 e 1995) e no Kosovo (1999) foram classificadas como crises étnicas e humanitárias, excepções no novo mundo unipolar onde a democracia de mercado era apresentada como o fim da história. Em 1999, um novo conceito estratégico introduz a “out-of-area doctrine”, alargando o âmbito geográfico de intervenção da NATO à periferia da região euro-atlântica, e o conceito de “riscos multidimensionais”, tornando o conceito de defesa mais nebuloso, um misto de defesa e de segurança.

O ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001, torna-se um momento fundamental para a redefinição do papel da NATO. O artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, que aciona a defesa comum em caso de agressão a um dos membros, e cuja criação tinha subjacente um hipotético ataque do extinto Bloco Leste à Europa Ocidental, acabou por ser invocado pela primeira vez pelos EUA contra um inimigo difuso: “o terrorismo”.

Assim a NATO prosseguiu o caminho de se estruturar como uma aliança ofensiva (na propaganda diz-se defensiva) podendo intervir em qualquer parte do mundo para combater "um inimigo sem rosto”. O terrorismo era produto de movimentos islâmicos radicais, sobretudo, e atacava interesses americanos, incluindo multinacionais do petróleo ou da construção.

Nesta fase, os EUA tentaram estabelecer uma parceria com a Rússia e uma entente com a China, a braços também com problemas de terrorismo nos seus territórios. O ataque às Torres Gémeas em 2001 consolidou esta viragem estratégica e levou às invasões do Afeganistão (2001), pela NATO, e do Iraque (2003), por uma coligação de parte dos membros da NATO. Ou a Líbia em 2011. Estes países eram presumíveis santuários de várias dessas milícias terroristas, que se multiplicaram, e até de armas de destruição maciça, afinal uma invenção dos serviços secretos.

O Iraque, sobretudo, era um bom negócio para as empresas americanas. O incremento das guerras e do terrorismo foi o resultado prático dessa estratégia que incendiou o mediterrâneo e demonizou o mundo islâmico, exceto a ditadura saudita, o maior santuário do terrorismo de origem salafita, como a Al-Qaeda, mas aliado dos EUA.

Entretanto, a par com a corrida aos armamentos e com rivalidades na Europa e no Pacífico, os Estados Unidos, após um mandato errático de Donald Trump, vêm clarificar que "o inimigo agora tem rosto", a saber China e Rússia, designadas por autocracias. A lógica da “guerra preventiva" utilizada no Iraque, considerando inimigos aqueles que eventualmente têm força para os confrontar. Toda a questão terrorista é relegada para segundo plano. O que importa aqui é desenvolver a ameaça militar em paralelo com a competição económica com a China. Como a ameaça preventiva é fraco discurso para mobilizar a opinião pública mundial, os EUA estão a provocar conflitos que alimentem a psicologia de guerra.

Guerra de Putin serviu para “lavar a cara” da NATO perante os povos da Europa.

Estender a NATO à Ucrânia, com armamento que pode atingir a Rússia, o que já acontece igualmente na Polónia, é em tudo semelhante à crise dos mísseis em Cuba de 62 em que os EUA não aceitaram a instalação desses mísseis que poderiam visar o seu país. É só inverter os espelhos.

Tal facto não justifica a criminosa invasão russa da Ucrânia, ordenada por Putin, e a guerra com todo o cortejo de horrores. O ataque a populações civis é o triste signo deste martírio. Muito menos justifica desejos de expansão imperialista sobre territórios internacionalmente reconhecidos como pertencentes à Ucrânia. A russofilia da região de Donbass estava protegida pelos Acordos de Minsk como autonomias, o que não foi aplicado por Kiev, para tragédia prevista. A sinistra guerra lançada pelos nacionalistas de Putin, e apoiada pelos nacionalistas do Partido Comunista da Federação Russa, teve como efeito “lavar a cara” da NATO perante os povos da Europa.

Na Europa mal esquecíamos a anterior guerra europeia da ex-Jugoslávia, em que se perfilaram “limpezas étnicas”, crimes contra a humanidade, sobretudo da Sérvia, e não menos criminosos bombardeamentos da NATO de 1999 a 2004. Também aí os pretextos americanos sobre ”razões humanitárias” não disfarçaram com os seus “danos colaterais” a barbárie para impor o controlo geopolítico. Também na Jugoslávia a guerra foi provocada pelo reconhecimento americano do Kosovo, a que se seguiram os vários processos de secessão que poderiam ter sido encaminhados por via negociada para respeito das nacionalidades como o fizeram a Chéquia e a Eslováquia, por exemplo. As provocações da NATO não desculpam a Sérvia. Como agora, as provocações da NATO não desculpam a Rússia de Putin.

Agitar nacionalismos leva-nos para conflitos de escala mundial

O mesmo se pode passar com a China, excitando conflitos territoriais acerca de pequenas ilhas do Mar da China, ou fazendo grande alarido com uma próxima invasão de Taiwan, por sinal, território chinês reconhecido pelas Nações Unidas. A China tem ambições hegemónicas na área e é pouco provável que queira reforçar alianças militares nucleares contra si. Nem todos na Ásia funcionam como o vizinho falcão australiano sempre disposto a todas as guerras americanas. Mesmo a posição da Índia vai ser muito relevante para o jogo de forças. Os EUA acham natural realizar manobras militares nas imediações da China mas consideram uma potencial ameaça que a China realize manobras militares na mesma zona.

Perante o temor de que se precipitem novas guerras apenas para reforçar a vantagem económica e a liderança internacional dos EUA, regressa outra narrativa destinada a consumo "europeu". Isto é, níveis de pressão elevados e ameaças fortes constituem um fator de dissuasão, objetivando a neutralização do inimigo. Esta ideia é perigosamente ingénua. Pode alimentar as “guerras de nervos” que os media tanto gostam mas criam precipícios que podem dar lugar a situações descontroladas. Aliás, a prova máxima dessa falsidade está no argumento da NATO, verídico, de que não pode entrar na Ucrânia sob pena de um conflito nuclear, mesmo para ajudar as autoridades a quem prometeram a entrada na aliança no momento em que resistem à invasão russa.

A nossa expetativa estratégica está nos povos da Rússia, China e Estados Unidos da América, e de toda a população mundial. Agitar os nacionalismos, e os respetivos capitalismos, leva-nos diretamente para conflitos de escala mundial. Meço as palavras sem qualquer exagero de estilo.

Aquelas e aqueles que doutrinam a imprensa ocidental com falácias de “libertar” a Rússia e a China são meros suicidas da paz. A Rússia e a China, embora em menor grau que a NATO, dispõem de armamento nuclear terrestre, de bombardeamento dessas armas, de capacidade submarina nuclear, mais do que suficiente para destruir uma ofensiva americana e dos seus aliados, e para destruir o planeta.

Convém não ter a menor dúvida de que a capacidade de destruição militar é hoje incomparavelmente maior à da Guerra Fria. Além de que as duas Potências, Rússia e China, consideradas como inimigo em conjunto, tenderão a esquecer desconfianças muito antigas e repetidas para consolidar uma aliança contra a NATO e os EUA. Agora, menos virada ao Atlântico e mais ao Pacífico por onde trilhou o imperialismo nipónico na Segunda Guerra Mundial.

Tratar a China e a Rússia como entidades similares é um disparate próprio da propaganda. E também não é avisado julgar que Putin e Xi Jiping sejam iguais. Apesar do papel proeminente que ocupam, Vladimir Putin e XI Jiping não são uns vulgares autocratas.

Putin é herdeiro do expansionismo russo e o seu partido monopoliza o aparelho de Estado e controla o exército com uma gigantesca disciplina que assenta no apelo da Mãe Rússia, apesar do atraso económico. Putin é o militarista convicto da repressão na ordem interna e externa.

Xi Jiping é herdeiro de Mao num misto de nacionalismo e de fomento social, e tem a última palavra sobre o furor capitalista cosmopolita que é hoje a montra da China. O partido comunista chinês é um partido que unifica o poder militar e governativo e não tem paralelo como agente político no globo. Comparar o partido chinês ao partido republicano americano, por exemplo, é falar de uma massa de água gigante contra um copo do precioso líquido. Falar de "autocracias" no geral, e metê-las no mesmo saco, escapa às características dos regimes e, especialmente, à sua solidez, só comprometida com tensões nacionalistas internas, aliás, duramente reprimidas.

Queremos a democracia pela mão dos povos, não pelas armas dos invasores

A luta pela Paz é inseparável da luta pelo desarmamento e pelo desmantelamento de alianças militares agressivas. Sabemos que isso significa fazer recuar o imperialismo, ou seja, o poder de um ou mais países, poder militar, económico e político que domina terceiros países. Só nesta medida há espaço para que a democracia desempenhe o seu papel. Os movimentos democráticos têm de derrotar o trumpismo, a extrema direita, os belicistas europeus e os reacionários que dominam em Moscovo ou em Beijing. A luta democrática pela Paz é dos dois lados. A hipocrisia do imperialismo diz-nos que quer a democracia pelas armas de invasores. Nós dizemos que queremos a democracia pela mão dos povos. A crise climática que desesperadamente nos ameaça, devido à carbonização das economias, só pode ser debelada com recurso a uma estratégia global de redução de emissões de CO₂, timidamente ensaiado no Acordo de Paris. A corrida militarista é a pior notícia para pretender ter sucesso impedindo a degradação do planeta habitável. Aqui também se levanta a democracia pelas mãos dos povos.

Em Portugal, esta querela e litígio com a China tem muito de anedótico. A burguesia portuguesa vendeu a empresas estatais chinesas a elétrica nacional, parte da banca e dos seguros. A Universidade estabeleceu cooperação com a Huawei para desenvolver a tecnologia 5G, o comércio com a China expandiu-se. Neste contexto,a perturbação das autoridades foi muita perante as novas ordens de Biden. O ministro de exteriores, Augusto Santos Silva, sintetizou o problema: "os EUA são aliados mas a China é parceira", a China não será aliada mas o capitalismo chinês é benvindo.

É hoje quase uma curiosidade mas é a letra da Lei, a NATO para o regime constitucional português é uma aberração que se espera que desapareça. A Constituição de 1976, fruto da Revolução dos Cravos, advoga a dissolução dos blocos político-militares. Porém, a continuidade na NATO não foi interrompida pelos governos da democracia, apesar desse comando constitucional. Os sucessivos governos da direita e dos socialistas sempre consideraram a participação na NATO como a principal orientação de política externa e salvaguarda política do regime. A pertença à NATO, sem rebuço, é apontada pela burguesia e meios políticos do centro e da direita como impeditiva da participação no governo do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista. De facto, estes dois partidos contestam a organização militar e têm-se oposto ao envio de tropas portuguesas para vários teatros de guerra a pretexto da solidariedade da NATO. A soberania política portuguesa é assim diminuída pela soberania política da NATO, ou da Embaixadora dos EUA, habitual porta-voz desses interesses.

O essencial das tarefas militares portuguesas são logísticas e de policiamento aeromarítimo e terrestre. Portugal dispõe de um parque militar limitado, adaptado a esse perfil NATO. Aliás, a população é bastante antipática à ideia de o governo comprar armamento para missões NATO que não têm nada a ver com o País, uma vez que não se vislumbra que se torne necessária a defesa militar da República no quadro atual. Há alguns anos, hoje pior para a imagem do exército português, foi publicitado um estudo das forças armadas de Espanha que garantia que em 24h Portugal continental era dominado por esse Reino. A conclusão foi humilhante para os generais, restaria como mais eficaz a resistência da guerrilha popular do que a oposição das forças convencionais. Num horizonte desejavelmente regulado por instituições multilaterais de segurança, de livre associação, o Bloco de Esquerda propõe a saída unilateral da NATO. O PCP defende uma saída em simultâneo com a desativação da NATO, quando quer que isso seja.

Biden aparenta ser um pirómano que quer incendiar os estados charneira das áreas de influência da China e da Rússia e desestabilizar a Europa. Não é propriamente uma novidade depois de tão longo “cesarismo” imperial. A cíclica discussão sobre a autonomização europeia da segurança, como uma cooperação entre Estados soberanos, sem o condicionamento nem da América nem da Rússia, pode ter agora uma oportunidade, a de um papel apaziguador para recuperar a Ata de Helsínquia. A Ata de Helsínquia prevista para o degelo da Guerra Fria é um instrumento oportuno para impedir novos ventos gélidos, no que toca ao não uso da força, à inviolabilidade de fronteiras, à igualdade dos Estados.

Alguns setores da esquerda popular querem separar a ação da NATO das políticas internas dos seus estados. Podem até coabitar em governos com partidos pró-NATO, e considerar as decisões belicistas da NATO como extravagantes à política interna que prosseguem. Todavia, os tambores da guerra tomam esses partidos como reféns dos seus governos. Os mísseis lá longe encurtam cá perto a autonomia das alas esquerdas.

A via de oposição à NATO e à guerra, em geral, não pode ignorar as subordinações formais e informais de um Estado. A evolução do partido grego Syriza mostra como a experiência governativa, no quadro de uma dependência que não quiseram alterar, transfigurou um partido anti-NATO num partido pró-NATO, aliás de modo claro e repetidamente afirmado e praticado. Das posições governamentais até ao nível da compra de armamento a Washington, ou da intermediação da solução da questão da Macedónia do Norte, a contento da NATO. A ameaça turca não deveria ser a justificação para essa política. Aliás, o paradoxo exibe-se em serem a Grécia e a Turquia ambos aliados na NATO desde 1952, eles próprios não acreditando que a NATO os proteja. Basta olhar para Chipre com um enclave ilegal turco que a NATO não quer resolver.

A esquerda popular, lutando pela Paz, só pode articular a sua proposta de governo com uma posição mínima de neutralidade militar.

Em muitos países europeus, infelizmente, os sentimentos populares de pânico resignam-se a agradecer e bendizer o chapéu de chuva atómico americano. A denúncia dessa armadilha para o destino dos países, uma proteção autoritária e uma asfixia à democracia dos povos, tornou-se uma coragem de cidadania cívica e um atributo republicano, que só podemos incentivar. Um elemento chave para reaver o constitucionalismo global dos povos, pelo menos à dimensão da Carta das Nações. Passando este interregno terrível da guerra proporcionada por Putin, a escalada dirige-se para o Mar da China. Iremos a tempo?

(...)

Neste dossier:

NATO: A maior e mais letal máquina de guerra

A Cimeira da NATO está marcada para os próximos dias 29 e 30 de junho, em Madrid. A par da resposta à guerra na Ucrânia, discutir-se-á o alargamento da Aliança, a extensão do seu papel e da sua área de influência e intervenção, nomeadamente no que respeita ao Indo-Pacífico. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Combater a NATO em tempos de cólera

A condenação inequívoca e consequente da agressão militar à Ucrânia inscreve-se no mesmo compromisso com a paz que nos leva a combater o branqueamento, alargamento e submissão nacional e europeia à NATO, mesmo em circunstâncias muito mais difíceis. Por José Gusmão.

NATO: de mal a pior

É urgente reconstruir um movimento global de paz que se oponha a todas as alianças militares e aos contínuos aumentos maciços nos orçamentos de defesa. Por Gilbert Achcar.

NATO, a caminho do Mar da China

A luta pela Paz é inseparável da luta pelo desarmamento e pelo desmantelamento de alianças militares agressivas. Sabemos que isso significa fazer recuar o imperialismo, ou seja, o poder de um ou mais países, poder militar, económico e político que domina terceiros países. Por Luís Fazenda.

As origens da guerra, o papel da NATO e os cenários futuros na Ucrânia

Nesta mesa-redonda com três conhecidos académicos da tradição marxista, Étienne Balibar, Silvia Federici e Michael Löwy, Marcello Musto questiona as posições da esquerda face à invasão da Ucrânia, o papel da NATO e as perspetivas de paz.

A NATO volta a focar-se no Indo-Pacífico

A agenda da NATO para 2030 é estender o seu “alcance global”. A prioridade é o Indo-Pacífico, que agora faz formalmente parte da agenda. O alvo principal é a China, enquanto o alvo secundário é a Rússia, que a NATO acredita estar em apuros, tratando-a como tal. Por Anuradha Chenoy.

NATO: a defesa coletiva como cobertura da hegemonia

Graças à invasão da Ucrânia e da guerra subsequente, a organização a que, há poucos meses, fora diagnosticada morte cerebral ganha um elan totalmente imprevisto e um espaço de radicalização do seu conceito estratégico que a cimeira de Madrid consagrará sem rebuço e sem reservas. Por José Manuel Pureza.

Seria uma guerra “fria” a melhor notícia?

A história sugere que a geopolítica global raramente termina pacificamente. Dadas as circunstâncias, uma nova guerra fria – com as forças armadas em grande parte congeladas – pode ser uma boa notícia e isso é o mais deprimente possível. Por Michael Klare.

A ascensão da NATO em África

A ansiedade com a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) em direção à fronteira russa é uma das causas da atual guerra na Ucrânia. Mas esta não é a única tentativa de expansão da NATO. Por Vijay Prashad.

Terrorismo na Europa Ocidental: Uma Abordagem aos Exércitos Secretos da NATO

A existência desses exércitos clandestinos da NATO permaneceu um segredo bem guardado durante a Guerra Fria até 1990, quando a primeira filial da rede foi descoberta em Itália. Tinha o nome de código “Gladio”, a palavra latina para um espada curta de dois gumes. Por Daniele Ganser.