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Markus Wolf, o espião legendário

Parecia um roteiro de filme policial. O espião mais bem-sucedido da Europa, Markus Wolf, fugiu misteriosamente da Alemanha Oriental, poucos dias antes da cerimónia oficial da reunificação. A sua esposa, Andrea, recordou aqueles dias tensos, numa entrevista à televisão:

"Sabíamos que, no dia 3 de Outubro de 1990, Markus seria preso. Os advogados aconselharam-nos - e nós éramos da mesma opinião - que o melhor era fugir do país. Portanto, no dia 27 de Setembro, juntamos os nossos papéis e fomos de carro de Berlim para a Tchecoslováquia e, de lá, para a Áustria."

A Procuradoria Geral da República, em Karlsruhe, expedira o mandado de prisão de Wolf por traição à pátria. O espião, que há tempos abandonara o serviço público e se tornara escritor de renome, crítico das lideranças da Alemanha Oriental e autocrítico de sua actividade no Ministério da Segurança, era quase um dissidente. O que o tornava um personagem interessante, tanto para os serviços secretos ocidentais quanto orientais.

Wolf deixou a barba crescer e conseguiu esconder-se das autoridades austríacas. Quatro semanas depois de escapar da RDA, telefonou para um número secreto em Moscovo. O casal foi levado para o aeroporto num carro da KGB - o serviço secreto soviético - e voou para Moscovo. Assim, o ex-chefe de espionagem voltou, perigosamente, às suas origens. Após um ano de asilo político, o casal deixou Moscovo e retornou à Áustria.

No dia 24 de Setembro de 1991, Markus Wolf entregou-se às autoridades alemãs. A RDA, de onde havia fugido, já não existia mais. Com duas limusinas blindadas, foi levado a Karlsruhe, onde permaneceu apenas sete dias na cadeia. Em Maio de 1993, foi julgado em Düsseldorf. Condenado a seis anos de prisão por traição à pátria e suborno, pouco depois passou à liberdade condicional.

Milhares de espiões

Durante o processo no Tribunal do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, ficaram evidentes as dimensões do aparato delator da Stasi (serviço secreto da ex-RDA). Mil funcionários fixos e 10 mil "colaboradores não-oficiais" actuavam na Alemanha Oriental, enquanto 1500 informantes espionavam na Alemanha Ocidental. Eram "soldados" do Partido Comunista, aventureiros, criminosos por convicção, idealistas e até parlamentares.

Os subordinados de Wolf espreitavam por toda a parte: nos ministérios, repartições públicas, partidos e inclusive por cima dos muros dos vizinhos. A vítima mais famosa foi Willy Brandt. O líder social-democrata, precursor e arquitecto dos Tratados do Leste, tropeçou no seu assessor, Günter Guilleaume, informante de Wolf, e acabou por ter de renunciar.

Missão de espionagem

Sobre a sua actividade, Wolf declarou, posteriormente, que a via como missão política da direcção do partido. "Para mim, isso não fazia parte do aparato repressivo, como se diz hoje. Aquilo era uma missão de espionagem, algo romântico, importante e respeitável, que eu conhecia de antigos filmes da União Soviética", alega.

Markus Johannes Wolf sempre foi considerado brilhante. Nascido no sul da Alemanha em 19 de Janeiro de 1923, filho de médico judeu, cresceu em ambiente burguês, mas foi educado no credo comunista. Em 1934, a família buscou refúgio dos nazis na União Soviética. Wolf estudou na escola de aeronáutica de Moscovo e em 1942 entrou no Partido Comunista. Entre 1943 e 1945, trabalhou como redactor e locutor numa rádio alemã em Moscovo.

Após a guerra, começou a trabalhar numa rádio em Berlim e fez a cobertura do julgamento dos criminosos nazis, no Tribunal de Nurembergue. Aos 29 anos, assumiu o serviço secreto na condição de general mais jovem da RDA. Teve uma carreira fulminante e coleccionou várias condecorações. Em 1997, publicou as suas memórias.

Leia também:

A extensa entrevista a Markus Wolf feita pelo jornalista Alexander Thoele em 1995 e publicada no seu blogue

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Resto dossier

20 anos da queda do Muro de Berlim

Há vinte anos, o mundo assistia à queda do Muro de Berlim e à explosão de alegria de um povo em busca da liberdade. Veja neste dossier os factos e as cronologias, vídeos e fotogalerias de Berlim e dos grafittis no Muro; as histórias de repressão e espionagem; a opinião e as memórias de António Avelãs, Natércia Coimbra, Mário Tomé e Francisco Louçã; o relato dos dez meses que abalaram o Leste, por Carlos Santos Pereira; e saiba onde estão os outros muros que falta derrubar.

Por detrás do Muro

A queda do muro tem um significado muito especial: é a vitória da lenta, persistente e tantas vezes ignorada resistência contra a opressão; é a derrota da alienação ideológica perante a materialidade irresistível dos interesses mais profundos das sociedades e dos indivíduos. É a demonstração irrevogável de que o socialismo não pode existir sem democracia e sem a maior liberdade individual. Texto de Mário Tomé.

Vinte anos depois

O socialismo só pode ser o contrário do Muro: liberdade contra a censura, responsabilidade contra o controlo sindical, todos os direitos sociais, incluindo o pluripartidarismo, a liberdade de formar sindicatos ou de fazer greve. Por Francisco Louçã.

A ordem para disparar

Os disparos mortais contra fugitivos eram, ao lado da vigilância geral, da segurança prévia efectuada pela Stasi e pela polícia, das vedações dificilmente transponíveis e de uma densa ordenação de postos de fronteira, a pilastra angular decisiva do regimento de fronteiras da RDA. Apenas a ameaça com a pena de morte - e em último caso a sua execução concreta - oferecia ao regime do SED a garantia de poder impedir duradouramente as fugas.

Markus Wolf, o espião legendário

A 24 de Setembro de 1991, apresentava-se à polícia na fronteira da Baviera o ex-chefe do serviço de espionagem da ex-República Democrática Alemã (RDA). Markus Wolf tinha conseguido passar um ano escondido em Moscovo.
Por Doris Bulau, da Deutsche Welle

Como seria a queda do muro no twitter?

O twitter é hoje uma ferramenta indispensável aos activistas para informar minuto a minuto nos momentos políticos e sociais mais conturbados. Por isso é tão perseguido pelas ditaduras e até por algumas democracias.

Números e factos

Por mais de 28 anos, o Muro de Berlim foi o símbolo da divisão das duas Alemanhas. A fortaleza estendia-se por 155 quilómetros e separava Berlim Ocidental de Berlim Oriental. Muito maior era a fronteira inter-alemã, isto é, entre a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA), de regime comunista. Ela somava 1400 quilómetros, indo da baía de Lübeck, no norte, até Hof, no sul, na fronteira com a Checoslováquia.

Fotogaleria: memórias da Berlim dividida

Para assinalar os 20 anos da queda do muro, centenas de pessoas juntaram-se na rede social Flickr para limpar a poeira dos velhos slides e fotos guardadas no fundo das gavetas.

Há cada vez mais muros por derrubar

Num dos dias mais marcantes da história no século XX, o Muro de Berlim deixou de dividir a cidade. Mas enganou-se quem pensou que este acontecimento anunciava que estava próximo o fim dos muros que separam os povos. Pelo contrário, desde Novembro de 1989, outros muros se levantaram no planeta, mais altos e intransponíveis do que o da capital alemã.

Um estalinista na RDA

O PCP convidou-me em 1979 para ir trabalhar para a RDA. Estamos em 1979, ainda com a revolução na ponta das nossas esperanças, o socialismo de leste parece estar em boa forma, acredito piedosamente que o comunismo é o futuro e não sei uma palavra de alemão. Era o que hoje, em bom rigor, se chamaria um estalinista chapado. Texto de António Avelãs.

O marco de uma nova Era

Na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 caía o Muro de Berlim, a barreira de 165 km de betão e arame farpado que dividia a antiga capital do Reich. Com o muro, desabava o principal símbolo e, ao mesmo tempo, a mais chocante realidade física da divisão da Europa desde 1945. Foi um momento louco, quase irreal, a que o mundo assistiu estupefacto e incrédulo. Era, por um lado, o clímax da vaga de revoluções que sacudira a Europa Central nos últimos meses. E, ao mesmo tempo, o início de uma nova época, o rebentar da última grande barreira que segurava a ordem herdada da II Guerra Mundial. Artigo de Carlos Santos Pereira, publicado na Vida Mundial de Novembro de 1999

Vídeos: olhares sobre o Muro

Uma pesquisa nos canais de vídeo disponíveis na net permite encontrar muito material de arquivo relativo à história do muro de Berlim e em particular os seus últimos dias. Os três vídeos documentais que seleccionámos para incluir neste dossier são um bom ponto de partida para entender o que se passou naquelas semanas. E juntamos dois filmes experimentais feitos em Berlim, antes e após a queda o Muro. Naturalmente, os conteúdos reflectem a opinião dos seus autores.

O Muro de Berlim na Cooperativa Bonifrates

Recordo 9 Outubro de 1989: o movimento “Sem violência” inspirado pela igreja evangélica levava para as ruas de Leipzig mais de 70 000 pessoas que gritavam “Nós somos o Povo!” e exigiam o fim da polícia política Stasi. Um mês depois, a 9 de Novembro, o movimento cívico Novo Fórum, a única organização civil que ousou enfrentar o regime da Alemanha Oriental lutando pela defesa dos direitos cívicos, reúne nas ruas de Berlim Oriental uma multidão pacífica que se dirige aos diversos pontos de passagem do muro e obriga a levantar as cancelas para o Povo passar. Nos dias seguintes, de parede brutal entre povos, o Muro transformou-se numa imensa galeria artística ao ar livre. Texto de Natércia Coimbra.

Fotogaleria: Graffitis no Muro

Os dois lados do muro de Berlim foram cobertos por grafittis e se alguns se assemelham aos que vemos nas paredes de qualquer outra cidade, também há mensagens políticas bem marcadas.

As fugas para o outro lado do Muro

Sempre houve quem tentasse fugir atravessando o Muro das mais variadas formas: através de túneis, carros, barcos, aviões ou simplesmente com escadas. Calcula-se que tenha havido mais de cinco mil tentativas de fuga. Alguns tiveram sucesso. Outros, como Chris Gueffroy, um dos últimos a morrer na fuga, não conseguiram vencer a barreira. O número total de mortes não é consensual, mas um estudo recente patrocinado pelo governo alemão avança com a confirmação de 136 pessoas mortas ao cruzar a fronteira berlinense. Veja aqui uma cronologia das fugas mais espectaculares e também a dos acontecimentos políticos com influência na história do Muro.