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Um estalinista na RDA

O PCP convidou-me em 1979 para ir trabalhar para a RDA. Estamos em 1979, ainda com a revolução na ponta das nossas esperanças, o socialismo de leste parece estar em boa forma, acredito piedosamente que o comunismo é o futuro e não sei uma palavra de alemão. Era o que hoje, em bom rigor, se chamaria um estalinista chapado. Texto de António Avelãs.

O PCP convidou-me em 1979 para ir trabalhar para a RDA. Iria também a Maria Ermelinda e os nossos filhos. Acabara de fazer o estágio pedagógico e ir viver num país socialista era uma aposta interessante. Dados necessários para compreender a situação: estamos em 1979, ainda com a revolução na ponta das nossas esperanças, o socialismo de leste parece estar em boa forma, acredito piedosamente que o comunismo é o futuro e não sei uma palavra de alemão. Era o que hoje, em bom rigor, se chamaria um estalinista chapado.

Fomos muito bem recebidos, instalados primeiro num magnífico apartamento na Fisherinsel (acho que era assim que se chamava), e um mês depois num apartamento mais modesto — mas muito confortável — num bairro novo, na Ho Chi Minh Strasse. Apartamentos muito melhores do que eu alguma vez tivera em Portugal. A minha paixão de que "o socialismo é que era" acentuou-se com a possibilidade de por os putos no kindergarten — eu nunca tinha andado num jardim infantil. E, tanto quanto me recordo, ainda hoje considero que o kindergarten era excepcionalmente bom. Chateavam-nos se os putos não iam bem agasalhados e, se faltavam, lá vinham eles saber o que passava. Um dia houve em que por descoordenação entre nós — os pais — nos atrasámos a ir buscá-los: levei um enorme raspanete, e o que valeu é que era em alemão e eu não percebi quase nada. Se outras coisas não houvesse, o socialismo era o kindergarten e o extremo cuidado com que lá se tratavam as crianças. Mas era também a possibilidade de ir à policlínica do bairro sempre que algum de nós se constipava — e o cuidado extremo com que os médicos nos tratavam. Sobretudo à Mariana, que andava sempre constipada e a quem eles aplicavam as kurzvwelle (não sei se era tratamento eficaz, mas se era no socialismo era bom com certeza). Lembra-me da figura um pouco assustada da "camarada funcionária" quando, na apotheke, perguntei no meu estranho alemão quanto tinha que pagar pelos medicamentos receitados. Nada, está claro! E o socialismo ia de vento em popa quando via as turmas dos putos invadirem a piscina do bairro, onde eu tentava dar uns mergulhos de manhã quando não tinha aulas. Nunca tinha visto nada de parecido nas escolas primárias do meu país. O socialismo é que era!

Imaginem um "portuga" a quem para ensinar a sua língua a adultos alemães, cujo destino eram as colónias portuguesas, é dado um completíssimo laboratório em que se podiam gravar as aulas, se podia ouvir individualmente o que cada um dizia e corrigi-lo. Alunos que evidentemente nunca faltavam e estudavam sempre impecavelmente as lições. O socialismo é que era, carago! E a prova de que estávamos à beira do paraíso era que, quando recebia o ordenado — ganhava bem e parte do vencimento era pago em marcos ocidentais, um privilégio — já vinha descontada a renda da casa, a luz, a água, o aquecimento, que, no seu conjunto, não ultrapassavam 10% do vencimento (era mais ou menos isso). E para tratar de qualquer problema no apartamento ou no prédio, chamava-se o Hausmeister e ele lá tratava do assunto.

Claro que havia coisas que desde logo me pareceram pequenas lacunas no paraíso: havia nos Strassenbahn (eléctricos, uns modernos, outros do tempo da guerra) umas maquinetas estranhas de onde se tirava um papel que era o "bilhete" e onde se deviam pôr uns trocos prefixados. Eu punha — era para alimentar o socialismo — mas a maioria dos "socialistas alemães" entravam, tiravam o papelucho e… não deitavam as moedinhas! Havia socialistas com falta de consciência de classe — o socialismo ainda não era perfeito. O U-Bahn (espécie de metro) era de fugir. E eu, catequizado na teoria de que o futebol era a alienação das massas, não percebia porque é que todos os dias a Fernsehen transmitia um jogo dessa coisa. Para não falar das inenarráveis borracheiras dos camaradas alemães no fim de semana.

Pior um pouco foi quando me apercebi que o Bock, que era o melhor professor de nós todos, não podia ser director lá da escola nem ter responsabilidades porque era crítico do sistema. E também não gostei nada quando tive de ir "à força" agitar uma bandeirinha à passagem do Brejnev. E quando me consegui relacionar com alguns alemães, pude perceber que a maioria deles, mesmo em Berlim, não viviam como eu vivia. Havia bairros e casas degradados, os meus marcos ocidentais eram um luxo, o "muro" perturbava-os mesmo, e o medo da polícia era permanente. E a maioria deles queria continuar socialista. Mas era evidente que ou havia mudanças sérias — ajudaram-me a perceber o bloqueio que se adensava sobre a economia do país — ou aquilo dava para o torto. Apercebi-me disso pouco antes de me vir embora — embora "eles" insistissem para que eu ficasse. Eu era de confiança!

Não seria justo se não me referisse à cultura que se respirava em Berlim. Bons grupos de teatro, bons concertos no Palast der Republik, museus impecáveis, livros muito baratos (pelo menos quando comparados com o que eu conhecia de Portugal...). Pena que o meu alemão fosse bastante limitado.

Lembro-me do mal estar quando, nas Caldas da Rainha, onde regressei uns tempos quando vim para Portugal, na então Casa da Cultura, falando sobre a minha experiência na RDA, coloquei sérias reticências quanto ao futuro... Seriam certamente já os meus "desvios de direita", com que o PCP me viria sistematicamente a mimar nos tempos seguintes.

Assistir à queda do muro pela televisão doeu-me. Era o fim de um sonho. Apesar de tudo, eu fora feliz na RDA e aquela gente merecia muito mais do que ser "anexada" pela RFA. Apesar de tudo, saí de lá a acreditar que o socialismo superaria a crise.

Hoje, aceito que a queda do Muro era inevitável. E foi sadia para nós todos.

António Avelãs

Leia aqui o resto do dossier "20 anos da queda do Muro de Berlim", publicado em 2009.

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Resto dossier

20 anos da queda do Muro de Berlim

Há vinte anos, o mundo assistia à queda do Muro de Berlim e à explosão de alegria de um povo em busca da liberdade. Veja neste dossier os factos e as cronologias, vídeos e fotogalerias de Berlim e dos grafittis no Muro; as histórias de repressão e espionagem; a opinião e as memórias de António Avelãs, Natércia Coimbra, Mário Tomé e Francisco Louçã; o relato dos dez meses que abalaram o Leste, por Carlos Santos Pereira; e saiba onde estão os outros muros que falta derrubar.

Por detrás do Muro

A queda do muro tem um significado muito especial: é a vitória da lenta, persistente e tantas vezes ignorada resistência contra a opressão; é a derrota da alienação ideológica perante a materialidade irresistível dos interesses mais profundos das sociedades e dos indivíduos. É a demonstração irrevogável de que o socialismo não pode existir sem democracia e sem a maior liberdade individual. Texto de Mário Tomé.

Vinte anos depois

O socialismo só pode ser o contrário do Muro: liberdade contra a censura, responsabilidade contra o controlo sindical, todos os direitos sociais, incluindo o pluripartidarismo, a liberdade de formar sindicatos ou de fazer greve. Por Francisco Louçã.

A ordem para disparar

Os disparos mortais contra fugitivos eram, ao lado da vigilância geral, da segurança prévia efectuada pela Stasi e pela polícia, das vedações dificilmente transponíveis e de uma densa ordenação de postos de fronteira, a pilastra angular decisiva do regimento de fronteiras da RDA. Apenas a ameaça com a pena de morte - e em último caso a sua execução concreta - oferecia ao regime do SED a garantia de poder impedir duradouramente as fugas.

Markus Wolf, o espião legendário

A 24 de Setembro de 1991, apresentava-se à polícia na fronteira da Baviera o ex-chefe do serviço de espionagem da ex-República Democrática Alemã (RDA). Markus Wolf tinha conseguido passar um ano escondido em Moscovo.
Por Doris Bulau, da Deutsche Welle

As fugas para o outro lado do Muro

Sempre houve quem tentasse fugir atravessando o Muro das mais variadas formas: através de túneis, carros, barcos, aviões ou simplesmente com escadas. Calcula-se que tenha havido mais de cinco mil tentativas de fuga. Alguns tiveram sucesso. Outros, como Chris Gueffroy, um dos últimos a morrer na fuga, não conseguiram vencer a barreira. O número total de mortes não é consensual, mas um estudo recente patrocinado pelo governo alemão avança com a confirmação de 136 pessoas mortas ao cruzar a fronteira berlinense. Veja aqui uma cronologia das fugas mais espectaculares e também a dos acontecimentos políticos com influência na história do Muro.

Como seria a queda do muro no twitter?

O twitter é hoje uma ferramenta indispensável aos activistas para informar minuto a minuto nos momentos políticos e sociais mais conturbados. Por isso é tão perseguido pelas ditaduras e até por algumas democracias.

Números e factos

Por mais de 28 anos, o Muro de Berlim foi o símbolo da divisão das duas Alemanhas. A fortaleza estendia-se por 155 quilómetros e separava Berlim Ocidental de Berlim Oriental. Muito maior era a fronteira inter-alemã, isto é, entre a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA), de regime comunista. Ela somava 1400 quilómetros, indo da baía de Lübeck, no norte, até Hof, no sul, na fronteira com a Checoslováquia.

Fotogaleria: memórias da Berlim dividida

Para assinalar os 20 anos da queda do muro, centenas de pessoas juntaram-se na rede social Flickr para limpar a poeira dos velhos slides e fotos guardadas no fundo das gavetas.

Há cada vez mais muros por derrubar

Num dos dias mais marcantes da história no século XX, o Muro de Berlim deixou de dividir a cidade. Mas enganou-se quem pensou que este acontecimento anunciava que estava próximo o fim dos muros que separam os povos. Pelo contrário, desde Novembro de 1989, outros muros se levantaram no planeta, mais altos e intransponíveis do que o da capital alemã.

Um estalinista na RDA

O PCP convidou-me em 1979 para ir trabalhar para a RDA. Estamos em 1979, ainda com a revolução na ponta das nossas esperanças, o socialismo de leste parece estar em boa forma, acredito piedosamente que o comunismo é o futuro e não sei uma palavra de alemão. Era o que hoje, em bom rigor, se chamaria um estalinista chapado. Texto de António Avelãs.

O marco de uma nova Era

Na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 caía o Muro de Berlim, a barreira de 165 km de betão e arame farpado que dividia a antiga capital do Reich. Com o muro, desabava o principal símbolo e, ao mesmo tempo, a mais chocante realidade física da divisão da Europa desde 1945. Foi um momento louco, quase irreal, a que o mundo assistiu estupefacto e incrédulo. Era, por um lado, o clímax da vaga de revoluções que sacudira a Europa Central nos últimos meses. E, ao mesmo tempo, o início de uma nova época, o rebentar da última grande barreira que segurava a ordem herdada da II Guerra Mundial. Artigo de Carlos Santos Pereira, publicado na Vida Mundial de Novembro de 1999

Vídeos: olhares sobre o Muro

Uma pesquisa nos canais de vídeo disponíveis na net permite encontrar muito material de arquivo relativo à história do muro de Berlim e em particular os seus últimos dias. Os três vídeos documentais que seleccionámos para incluir neste dossier são um bom ponto de partida para entender o que se passou naquelas semanas. E juntamos dois filmes experimentais feitos em Berlim, antes e após a queda o Muro. Naturalmente, os conteúdos reflectem a opinião dos seus autores.

O Muro de Berlim na Cooperativa Bonifrates

Recordo 9 Outubro de 1989: o movimento “Sem violência” inspirado pela igreja evangélica levava para as ruas de Leipzig mais de 70 000 pessoas que gritavam “Nós somos o Povo!” e exigiam o fim da polícia política Stasi. Um mês depois, a 9 de Novembro, o movimento cívico Novo Fórum, a única organização civil que ousou enfrentar o regime da Alemanha Oriental lutando pela defesa dos direitos cívicos, reúne nas ruas de Berlim Oriental uma multidão pacífica que se dirige aos diversos pontos de passagem do muro e obriga a levantar as cancelas para o Povo passar. Nos dias seguintes, de parede brutal entre povos, o Muro transformou-se numa imensa galeria artística ao ar livre. Texto de Natércia Coimbra.

Fotogaleria: Graffitis no Muro

Os dois lados do muro de Berlim foram cobertos por grafittis e se alguns se assemelham aos que vemos nas paredes de qualquer outra cidade, também há mensagens políticas bem marcadas.