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Lula exalta os biocombustiveis

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva defendeu fortemente os biocombustíveis e criticou os que se esquecem do impacto dos altos preços do petróleo na produção de alimentos, no seu discurso na XXX Conferência Regional para a América Latina e as Caraíbas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

 

Antes do seu discurso, o mandatário criticara os "palpiteiros", em referência ao relator especial das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, que qualificou a produção de bioenergia como "um crime contra a humanidade".

"Os biocombustíveis não são os vilões que ameaçam as nações pobres", disse Lula aos representantes de 33 países da região, para argumentar a sua rejeição às manifestações de temor de que o aumento da produção de bioenergia leve à redução de alimentos. "Não são os países pobres os responsáveis pelo aumento do preço do petróleo e das emissões de CO² (dióxido de carbono, principal gás causador do efeito estufa)", acrescentou. Por isso, expressou a sua surpresa diante da "tentativa de criar uma relação de causa e efeito entre o desenvolvimento dos biocombustiveis e a escassez ou o aumento de preços dos alimentos".

"Muitos criticam em lugar de comemorar"

"A minha surpresa aumenta quando constato que são poucos os que mencionam o impacto negativo do aumento dos preços do petróleo sobre os custos de produção e transporte de alimentos e sobre os custos de produção de fertilizantes", prossegui Lula. "São poucos os que reclamam do impacto nocivo e duradouro dos subsídios e do proteccionismo (comercial por parte dos países industrializados), e muitos criticam em lugar de comemorar o aumento do consumo de alimentos nos países em desenvolvimento mais dinâmicos", ressaltou.

O presidente afirmou que o aumento da procura em razão do forte crescimento do consumo de alimentos na China, Índia e em particular o Brasil, onde 11 milhões de famílias pobres recebem uma cesta básica mensal através do Programa Bolsa-Família. "A boa nova é que mais pessoas estão comendo mais e melhor", afirmou Lula, reiterando o compromisso do seu governo com a erradicação da fome e convocando os demais países do hemisfério a fazer o mesmo. Nesse contexto, lamentou que as estruturas internacionais não estejam preparadas para alcançar esses objectivos, chamando de "distorções causadas durante décadas pelo proteccionismo e pelos subsídios dos países ricos".

FAO debate biocombustíveis

Lula anunciou que no dia 3 de Junho vai participar de uma conferência especial em Roma, convocada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) para debater a questão dos biocombustíveis. Cerca de 80% dos dois milhões de veículos fabricados anualmente no Brasil já podem funcionar com gasolina, álcool ou com a mistura de ambos em qualquer proporção. Actualmente, toda a gasolina vendida no país contém 25% de etanol. Além disso, o Brasil estimula a produção de biodiesel entre pequenos agricultores, como forma de aumentar o rendimento de famílias pobres. Tanto a produção de cana-de-açúcar para produzir etanol quanto a de oleaginosas para o biodiesel vão ocupar apenas 5% da área agrícola do país até o fim desta década.

A produção agrícola geral brasileira utiliza 50 milhões de hectares, uma extensão semelhante ao território da Espanha, e outros 20 milhões de hectares são destinados a culturas permanentes e florestas plantadas. Mas estima-se que a área imediatamente cultivável é de 90 milhões de hectares, sem prejuízo de se destinar zonas de preservação e para proteger a selva amazónica, que ocupa 40% do território deste gigante sul-americano.

Direito à alimentação e à segurança alimentar

A FAO destacou num documento divulgado na conferência que "para o projecto de políticas públicas de produção de biodiesel é prioritário levar em conta a dimensão do direito à alimentação e à segurança alimentar da população, principalmente a dos sectores mais vulneráveis". O comité que elaborou o documento estima que a FAO "poderia dar uma contribuição importante ao mapeamento da capacidade bioenergética de cada país e às possibilidades que oferece a produção de biocombustiveis nos países interessados".

17/4/2008

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Resto dossier

Biocombustíveis e crise alimentar

O preço da alimentação tem vindo a subir drasticamente em todo o mundo, devido aos aumentos brutais dos preços de produtos como o trigo, o arroz, o milho e a soja. Já houve verdadeiras rebeliões da fome em países como o Haiti, Camarões, Burkina Faso, Egipto. Mas o que está a provocar estes aumentos?

FAO estimula políticas públicas contra a fome

Delegados de 33 países da América Latina e das Caraíbas debateram ontem, sob os auspícios da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o esboço de uma estratégia regional para minimizar os efeitos da carência dos alimentos, que afecta principalmente a população com menos recursos económicos.

Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

Haiti: Crise dos preços dos alimentos provoca desespero

Haiti importa a maior parte da comida que consome, como resultado de políticas de livre mercado que sufocaram a produção nacional. Há 30 anos, o país produzia quase todo o arroz que consumia. Mas, no final dos anos 80, o arroz barato importado inundou o país, depois de uma junta militar ter começado a liberalizar a economia, com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Agora, sucedem-se  os protestos pelo alto custo de vida

Por Nick Whalen, de Porto Príncipe para a IPS

Alimentos: Preços sobem e tensão mundial cresce

Enquanto os preços dos alimentos continuam a aumentar em todo o mundo, algumas das nações mais pobres no Sul em desenvolvimento correm o perigo de sofrer agitações sociais e políticas.

Por Thalif Deen, de Nova York, para a IPS

Brasil vive efeito destrutivo dos biocombustíveis, diz Time

A revista Time afirma, numa reportagem de capa, que o Brasil oferece um exemplo "vívido da dinâmica destrutiva dos biocombustíveis". A reportagem, intitulada "O Mito da Energia Limpa", afirma que políticos e grandes empresas estimulam bicombustíveis como alternativas ao petróleo, mas isso está a provocar uma alta dos preços de alimentos, intensificando o aquecimento global e fazendo o contribuinte pagar a conta.

Lula exalta os biocombustiveis

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva defendeu fortemente os biocombustíveis e criticou os que se esquecem do impacto dos altos preços do petróleo na produção de alimentos, no seu discurso na XXX Conferência Regional para a América Latina e as Caraíbas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

Aposta nos biocombustíveis coloca em perigo produção de alimentos

O recurso crescente a biocombustíveis supõe uma ameaça à produção mundial de alimentos e pode colocar em perigo a vida de milhões de pessoas em todo o globo. Esta advertência foi feita em Londres pelo professor John Beddington, principal assessor científico do governo britânico, no seu primeiro discurso público desde a nomeação para o cargo. 

A nova geração de biocombustíveis é outro desastre ambiental

Para além da regeneração de óleos alimentares usados, não existem biocombustíveis sustentáveis. Mesmo a fonte mais produtiva - o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil central - cria uma dívida de carbono que leva 17 anos a ser paga.

Por George Monbiot, publicado originalmente no Guardian

Os biocombustíveis da fome

Diz o Banco Mundial que o preço global dos alimentos aumentou 83% nos últimos 3 anos. O trigo, o leite e a manteiga triplicaram o seu preço desde 2000 e o frango, o arroz e o milho custam hoje o dobro. Este aumento é generalizado nos bens alimentares e é para durar, avisam os especialistas. Estima a FAO e a OCDE que alguns produtos agrícolas vão continuar a sofrer aumentos de preços na ordem dos 20 a 50% ao longo dos próximos 10 anos. Perante esta realidade soa o alarme da crise alimentar e da fome.

Por Rita Calvário 

Bloco propõe suspensão das metas para os biocombustíveis

Em conferência de imprensa no Parlamento, o deputado Luís Fazenda, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, apresentou um projecto de lei que visa a suspensão dos objectivos nacionais para a incorporação de biocombustíveis, alertando para a actual crise alimentar que provocou alertas de governos e de organismos internacionais. Fazenda defendeu que não está em causa o tipo de produto agrícola que é cultivado para produzir biocombustível, mas sim o facto de essas culturas serem feitas em solo arável que assim não pode ser utilizado para fins alimentares.