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FAO estimula políticas públicas contra a fome

Delegados de 33 países da América Latina e das Caraíbas debateram ontem, sob os auspícios da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o esboço de uma estratégia regional para minimizar os efeitos da carência dos alimentos, que afecta principalmente a população com menos recursos económicos.

Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

Num relatório técnico aprovado no dia 14 de Abril, os delegados destacaram "a importância de uma acção público-privada, no contexto de políticas públicas para alcançar um desenvolvimento rural inclusivo e sustentável, a fim de superar o grave contraste da persistência da fome numa região altamente produtora de alimentos".

O documento reconhece "que a combinação de crescimento económico com uma distribuição mais igualitária de rendimentos é condição necessária para vencer a fome" e assinala que os incentivos à agricultura familiar não são suficientes para superar a pobreza rural, ao defender maior investimento em infra-estrutura e serviços agrícolas. O director regional da FAO, o brasileiro José Francisco Graziano, defendeu na XXX Conferência Regional para a América Latina e as Caraíbas a adopção de políticas públicas diferenciadas para regiões e grupos sociais diante do risco da fome.

"Carece de sentido comprar um fato pronto-a-vestir, é preciso mandar fazer um sob medida. Cada grupo social tem as suas particularidades e especificidades", disse Graziano ao assinalar que essas políticas começam a dar frutos animadores nalguns países, como Bolívia e Peru, além de Brasil e Chile. "Temos de nos aproximar dessas populações e para isso temos de desenhar políticas sob medida" acrescentou Graziano, que também propôs a adopção de mecanismos de regulamentação para manter a estabilidade dos preços.

Os especialistas atribuem a inflação internacional dos alimentos a uma crescente procura de nações muito povoadas, como China e Índia, à decisão dos Estados Unidos de aumentar a produção de etanol derivado do milho e, ainda, a factores climáticos responsáveis por uma queda na produção de alguns países, à carestia petrolífera e à influência da especulação financeira. Diante do risco de insegurança alimentar, alguns países da região decidiram adoptar diferentes tipos de controle de preços, como Argentina, Bolívia e Venezuela, enquanto outros, com o Brasil, preferem manter políticas sociais de distribuição gratuita de alimentos à população de baixos rendimentos.

O director-geral da FAO, Jacques Diouf, estimulou os países-membros a adoptarem novas estratégias, seja inovando em matéria de política agrícola e segurança alimentar ou aumentando o investimento no campo. "Para aproveitar as oportunidades, necessitamos de políticas consistentes e sustentáveis e de investimentos em capital humano, infra-estrutura rural e outros bens públicos", disse Diouf. A FAO destacou a importância da cooperação regional para uma educação alimentar que ajude a aumentar a proporção de proteínas e alimentos frescos na dieta das populações sem recursos, numa acção promovida por governos com participação do sector privado, de organizações da sociedade civil e de organismos internacionais.

Os delegados manifestaram a necessidade de os documentos da FAO indicarem clara e inequivocamente as enfermidades transfronteiriças que não estão presentes na região, diante da aplicação injustificada de restrições sanitárias que têm consequências no comércio internacional de alimentos. As recomendações de nível técnico que abordam a questão dos combustíveis agrícolas e o seu impacto na produção de alimentos vão começar a ser analisados pelos ministros dos 33 países, depois da abertura do segmento de alto nível da conferência, que terá a participação do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

16/04/2008

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Resto dossier

Biocombustíveis e crise alimentar

O preço da alimentação tem vindo a subir drasticamente em todo o mundo, devido aos aumentos brutais dos preços de produtos como o trigo, o arroz, o milho e a soja. Já houve verdadeiras rebeliões da fome em países como o Haiti, Camarões, Burkina Faso, Egipto. Mas o que está a provocar estes aumentos?

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Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

Haiti: Crise dos preços dos alimentos provoca desespero

Haiti importa a maior parte da comida que consome, como resultado de políticas de livre mercado que sufocaram a produção nacional. Há 30 anos, o país produzia quase todo o arroz que consumia. Mas, no final dos anos 80, o arroz barato importado inundou o país, depois de uma junta militar ter começado a liberalizar a economia, com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Agora, sucedem-se  os protestos pelo alto custo de vida

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Alimentos: Preços sobem e tensão mundial cresce

Enquanto os preços dos alimentos continuam a aumentar em todo o mundo, algumas das nações mais pobres no Sul em desenvolvimento correm o perigo de sofrer agitações sociais e políticas.

Por Thalif Deen, de Nova York, para a IPS

Brasil vive efeito destrutivo dos biocombustíveis, diz Time

A revista Time afirma, numa reportagem de capa, que o Brasil oferece um exemplo "vívido da dinâmica destrutiva dos biocombustíveis". A reportagem, intitulada "O Mito da Energia Limpa", afirma que políticos e grandes empresas estimulam bicombustíveis como alternativas ao petróleo, mas isso está a provocar uma alta dos preços de alimentos, intensificando o aquecimento global e fazendo o contribuinte pagar a conta.

Lula exalta os biocombustiveis

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva defendeu fortemente os biocombustíveis e criticou os que se esquecem do impacto dos altos preços do petróleo na produção de alimentos, no seu discurso na XXX Conferência Regional para a América Latina e as Caraíbas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

Aposta nos biocombustíveis coloca em perigo produção de alimentos

O recurso crescente a biocombustíveis supõe uma ameaça à produção mundial de alimentos e pode colocar em perigo a vida de milhões de pessoas em todo o globo. Esta advertência foi feita em Londres pelo professor John Beddington, principal assessor científico do governo britânico, no seu primeiro discurso público desde a nomeação para o cargo. 

A nova geração de biocombustíveis é outro desastre ambiental

Para além da regeneração de óleos alimentares usados, não existem biocombustíveis sustentáveis. Mesmo a fonte mais produtiva - o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil central - cria uma dívida de carbono que leva 17 anos a ser paga.

Por George Monbiot, publicado originalmente no Guardian

Os biocombustíveis da fome

Diz o Banco Mundial que o preço global dos alimentos aumentou 83% nos últimos 3 anos. O trigo, o leite e a manteiga triplicaram o seu preço desde 2000 e o frango, o arroz e o milho custam hoje o dobro. Este aumento é generalizado nos bens alimentares e é para durar, avisam os especialistas. Estima a FAO e a OCDE que alguns produtos agrícolas vão continuar a sofrer aumentos de preços na ordem dos 20 a 50% ao longo dos próximos 10 anos. Perante esta realidade soa o alarme da crise alimentar e da fome.

Por Rita Calvário 

Bloco propõe suspensão das metas para os biocombustíveis

Em conferência de imprensa no Parlamento, o deputado Luís Fazenda, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, apresentou um projecto de lei que visa a suspensão dos objectivos nacionais para a incorporação de biocombustíveis, alertando para a actual crise alimentar que provocou alertas de governos e de organismos internacionais. Fazenda defendeu que não está em causa o tipo de produto agrícola que é cultivado para produzir biocombustível, mas sim o facto de essas culturas serem feitas em solo arável que assim não pode ser utilizado para fins alimentares.