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Haiti: Crise dos preços dos alimentos provoca desespero

Haiti importa a maior parte da comida que consome, como resultado de políticas de livre mercado que sufocaram a produção nacional. Há 30 anos, o país produzia quase todo o arroz que consumia. Mas, no final dos anos 80, o arroz barato importado inundou o país, depois de uma junta militar ter começado a liberalizar a economia, com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Agora, sucedem-se  os protestos pelo alto custo de vida

Por Nick Whalen, de Porto Príncipe para a IPS

Uma sombrinha com faixas verde, vermelha e amarela é tudo o que protege Hernite Joseph do ardente sol enquanto corta um frango congelado e arruma os pequenos pedaços em montes

"Há muito tempo, quando as coisas iam bem, trabalhava e tinha comida suficiente para alimentar os meus dois filhos pequenos", disse Joseph, que vende frango importado dos Estados Unidos. Ultimamente, os altos preços internacionais dos alimentos tornaram quase impossível atender as necessidades dos seus filhos.

"Os meus filhos agora parecem palitos. Não recebem o suficiente para se nutrirem", disse a mulher no mercado de La Saline. "Antes, se tinha 1,25 dólar podia comprar verdura, um pouco de arroz, 10 centavos de carvão vegetal e um pouco de óleo para cozinhar", afirmou. "Agora, uma pequena lata de arroz custa 65 centavos, e não é arroz bom. O óleo custa 25 centavos. O carvão outros 25. Com 1,25 dólar nem mesmo se pode fazer um prato de arroz para uma criança", acrescentou. Os preços dos alimentos aumentam em todo o mundo, mas o Haiti foi especialmente afectado.

10 dias de protestos pelo alto custo de vida

Este país pobre importa a maior parte da comida que consome, como resultado de políticas de livre mercado que sufocaram a produção nacional. Na semana passada, o presidente René Préval prometeu reduzir o preço do arroz e o Senado aprovou uma moção para demitir o primeiro-ministro, Jacques-Edouard Alexix, por não ter travado o aumento dos preços. Tudo isto ocorre após 10 dias de protestos pelo alto custo de vida, que deixaram pelo menos três mortos. A instabilidade começou em Okay, a terceira maior cidade, e propagou-se rapidamente para o resto do país.

Segundo o plano de Préval, o arroz importado será subsidiado pelo governo com dinheiro doado pela comunidade internacional e pelo sector privado. Actualmente, os importadores vendem um saco de quase 50 quilos de arroz por 51 dólares. O governo assumirá 5 dólares de cada saca e os principais importadores tirarão 3 dólares dos seus lucros por saca. Com este plano, o preço baixaria para 43 dólares, redução de quase 16%. Mas, o acordo entre o governo e os importadores vai durar apenas um mês, e não há garantias de que o preço do arroz subsidiado seja de facto 16% mais barato quando chegar ao mercado.

O plano significou um revés para Préval, que se negara antes a subsidiar arroz importado para não afectar os produtores locais. "O arroz barato importado destruiu o arroz" produzido localmente, disse o presidente. "Hoje, o importado tornou-se caro e a nossa produção nacional está em ruínas, e ainda há mais miséria", acrescentou. Um dos conselheiros do presidente disse que o arroz produzido no Haiti não poderia ser facilmente subsidiado devido ao grande número de produtores e distribuidores.

Nos anos 80, o arroz barato importado inundou o país

Préval prometeu, entretanto, reduzir pela metade o preço dos fertilizantes com a ajuda da Venezuela. Uma saca de 45 quilos de fertilizante custa 43 dólares, obrigando os agricultores pobres a escolher entre comprar esse produto ou enviar os seus filhos à escola. O governo espera agora abastecer-se de fertilizantes, antes que comece a temporada de cultivo em Junho e Julho. Há 30 anos, o Haiti produzia quase todo o arroz que consumia. Mas, no final dos anos 80, o arroz barato importado inundou o país, depois de uma junta militar ter começado a liberalizar a economia, com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O primeiro carregamento de arroz do exterior chegou escoltada por militares ao vale de Artibonite, a principal região produtora de arroz do país. Os produtores locais consideravam que a importação era uma ameaça à sua subsistência. E os seus temores eram justificados. Em 1994, o plano auspiciado pelo FMI reduziu as tarifas alfandegárias do arroz importado de 35% para 3%. Num ano, duplicaram as compras no exterior. Enquanto Washington subsidiava os seus próprios produtores, o do Haiti era proibido pelo acordo com o FMI de fazer o mesmo. Durante os últimos 20 anos, a produção de arroz haitiana reduziu-se pela metade, enquanto as importações dominaram o mercado.

Em La Saline, o cheiro de peixe e frango espalha-se no ar, enquanto Joseph continua a cortar o frango. Para ela e seus três filhos, o futuro é incerto. Se o custo de vida continuar a aumentar, ela só vê uma consequência: "vou morrer".

17/04/2008

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Resto dossier

Biocombustíveis e crise alimentar

O preço da alimentação tem vindo a subir drasticamente em todo o mundo, devido aos aumentos brutais dos preços de produtos como o trigo, o arroz, o milho e a soja. Já houve verdadeiras rebeliões da fome em países como o Haiti, Camarões, Burkina Faso, Egipto. Mas o que está a provocar estes aumentos?

FAO estimula políticas públicas contra a fome

Delegados de 33 países da América Latina e das Caraíbas debateram ontem, sob os auspícios da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o esboço de uma estratégia regional para minimizar os efeitos da carência dos alimentos, que afecta principalmente a população com menos recursos económicos.

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Por Nick Whalen, de Porto Príncipe para a IPS

Aposta nos biocombustíveis coloca em perigo produção de alimentos

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A nova geração de biocombustíveis é outro desastre ambiental

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Alimentos: Preços sobem e tensão mundial cresce

Enquanto os preços dos alimentos continuam a aumentar em todo o mundo, algumas das nações mais pobres no Sul em desenvolvimento correm o perigo de sofrer agitações sociais e políticas.

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Brasil vive efeito destrutivo dos biocombustíveis, diz Time

A revista Time afirma, numa reportagem de capa, que o Brasil oferece um exemplo "vívido da dinâmica destrutiva dos biocombustíveis". A reportagem, intitulada "O Mito da Energia Limpa", afirma que políticos e grandes empresas estimulam bicombustíveis como alternativas ao petróleo, mas isso está a provocar uma alta dos preços de alimentos, intensificando o aquecimento global e fazendo o contribuinte pagar a conta.

Lula exalta os biocombustiveis

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Por Walter Sotomayor, de Brasília para a IPS

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