Um estratega da campanha de Bill Clinton em 1992 pendurou no seu gabinete a frase: ``É a economia, estúpido!''.
A sua ideia era mostrar aos restantes colaboradores da campanha que tudo se relacionava directamente ou indirectamente com a economia: desemprego, inovação, indústria ou segurança social. Os eleitores acabam por votar em quem cuja capacidade de fazer a economia crescer inspirar mais confiança.
Por Paulo Trezentos*
Recordei-me desta história a propósito de um artigo colocado num fórum dos utilizadores do Linux Caixa Mágica pelo André, um aluno do ensino secundário que estava a fazer um trabalho sobre o Linux. A pergunta do André foi qualquer coisa como: "Porquê o Linux é melhor que o Windows?''.
Rapidamente a sequência de respostas tendeu para a indicação das vantagens e desvantagens do Linux e do Windows.
O que não tem nada a ver com a pergunta original. Reparem na construção da frase. Não é perguntado ``Quais as vantagens do Linux?'' mas sim ``Porquê o Linux é melhor do Windows?''.
A razão para o Linux ser diferente tem a ver com o seu modelo de licenciamento.
Apesar do modelo de licenciamento ser da esfera legal influencia a área técnica. E influencia os modelos de negócio. E influencia toda a envolvente.
O modelo legal do Linux é baseado na licença GPL, criada por Richard Stallman, e defende: pode ser utilizado, modificado e distribuído sem autorização do autor, sem restrições quanto ao fim e sem ter de se pagar por isso.
Este modelo é suficientemente confortável para que bons programadores dediquem tempo a melhorá-lo e suficientemente confortável para que empresas como a IBM ou Novell invistam no seu desenvolvimento. Sem colisões entre os dois mundos. É confortável ao ponto de haver migrações de milhares de postos de trabalho em cidades europeias ou dos POS numa rede de lojas com 200 postos de trabalho.
Para o André, a pergunta que conta talvez não seja o ``Porquê?'' mas ``Quais as vantagens?''.
O Linux tem vantagens e o Windows também.
O que se passa é que nós contabilizamos umas e outras e acabamos por escolher aquele que nos dá mais vantagens. A contabilização é feita de ano a ano quando fazemos uma actualização do computador ou adquirimos um novo.
Para mim, o Linux desde 1996 que tem mais vantagens do que o Windows. Reconheço porém que pela dificuldade técnica nessa altura só 0,1% dos utilizadores contabilizavam da mesma forma que eu.
Passados quase 10 anos, o panorama é muito diferente.
Para além dos servidores em que o Linux se impõe com muita facilidade, veja-se o Apache, o Desktop está a conquistar os utilizadores do Windows.
Imagino que, chegados a este ponto, o André se questionaria: ``Se o Linux é tão bom porquê, apesar do seu crescimento, o Windows ainda é maioritário no mercado de Desktops?''. "E se se impôs tão fortemente no mercado servidor porque não nos Desktops?"
Esta é uma pergunta que nos devemos colocar.
As duas palavras chave são "formação" e "suporte". Ou seja, conhecimento para enfrentar eventuais problemas no Linux e no Software Livre / Aberto (SL/A) há medida que eles surgem.
No mercado servidor, os técnicos têm esse conhecimento acerca do Linux e isso não é um impedimento.
No mercado desktop, dado os 95% de mercado do Microsoft Windows existe sempre alguém (familiar, loja de bairro ou colega) pronto a dar uma ajuda. É o efeito de rede.
No caso do Linux, não existe este efeito de rede e isso impede os utilizadores de utilizarem o produto. O utilizador sofre o efeito de ilha. Independentemente do produto até poder ser eventualmente melhor...
A grande aposta e estratégia é quebrar esse efeito de rede através de instalações em larga escala. É o caso de sucesso do Linex, na Extremadura espanhola (centenas de milhares de desktops), da Peugeut (20.000 desktops) ou da cidade de Munique (14.000 desktops).
Em termos políticos, temos assistido a governos a apostarem na quebra do efeito de ilha através de projectos ligados à info-exclusão e à dinamização da economia.
Mais interessante, é observar que não existe um padrão entre estas políticas de dinamização de SL/A serem tomadas por governos de esquerda ou de direita. Existe apenas um padrão entre governos com e sem visão estratégica.
*Paulo Trezentos é professor do ISCTE e investigador na Associação para o Desenvolvimento das Telecomunicações e Técnicas Informáticas (ADETTI), um centro de investigação do ISCTE responsável pela criação do Linux Caixa Mágica, a principal distribuição Linux portuguesa.
É o modelo, estúpido!
17 de outubro 2007 - 0:00
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