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Desfecho da Era do Petróleo

A crise financeira que tinha vindo a dar os seus primeiros sinais há mais de um ano e eclodiu com toda a violência no verão passado teve na crise dos combustíveis uma das suas mais significativas demonstrações. A especulação com os preços dos combustíveis levou a um aumento em flecha do valor do barril de petróleo que chegou a atingir o valor de 147 dólares no pico do ciclo de subida. As repercussões nos transportes foram o estrondo que repercutiu a irracionalidade a que o capitalismo conduziu a dependência da economia e da vida quotidiana das pessoas decorrente de um modo de transporte dominantemente rodoviário e portanto dependente de um combustível que não só promete escassear mas também é profundamente susceptível à especulação do mercado.

Esta crise que em Junho de 2008, esteve na origem da paralisação dos transportes demonstrou a enorme fragilidade a que o modo capitalista conduziu a sociedade. Evidenciou também a extrema dependência em que todos os sectores de actividade se encontram em relação aos combustíveis fósseis que são responsáveis por 80% da energia que consumimos. Quando veículos de emergência médica e protecção civil se encontram em risco de ficar paralisados por falta de combustível obtemos a imagem da extrema dependência em que todos nos situamos face a este modo de transporte.

Por outro lado ficou comprovado que todo o trabalho e toda a actividade económica dependem em absoluto da energia. São as actividades económicas que giram à volta da energia ou por causa dela e por causa do modelo de desenvolvimento que o capitalismo favorece que não só estão na própria origem da crise mas se vêem profundamente afectadas por ela.

Os governos europeus estão prisioneiros deste triângulo: segurança alimentar, energia e recessão e rapidamente esquecem as intenções benignas de colocar a UE na vanguarda da agenda para a mitigação das alterações do clima em nome de manter os negócios do costume. Onde era preciso traçar um programa de mudança radical nas fontes de energia e na racionalização do seu uso, a resolução do Conselho Europeu de Dezembro de 2008 recua de uma forma dramática para uma estratégia defensiva que coloca a tónica apenas nas energias renováveis para produção de electricidade, desde que o negócio da electricidade se mantenha.

O relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações do Clima (IPCC) publicado no ano passado não deixa nenhuma dúvida. No melhor cenário é preciso que os países industrializados reduzam as suas emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa (GEE) em 80% até 2050 com um período intermédio de adaptação de reduções entre 25 e 40% até 2020, por comparação com as emissões de 1999.

O relógio não pára e 2020 será daqui a uns meros 11 anos, portanto as mudanças necessárias precisam de começar desde ontem. O programa de energias renováveis constitui o cerne da estratégia da UE do triplo 20 (20% de aumento de eficiência energética; 20% de energia renovável e 20% de redução de emissões) que Sócrates tem replicado em Portugal. Ele é contudo insuficiente e as medidas aprovadas mostram que esta estratégia não vai muito além das declarações de intenção. O pacote de medidas que o Parlamento Europeu aprovou na sequência do Conselho Europeu sobre as alterações do clima, produz uma redução real de emissões em apenas 4%, até 2020, os restantes 16% decorrem de projectos de "desenvolvimento limpo" em países terceiros. Isto é fazer batota com a natureza num jogo onde não pode haver cartas viciadas sob pena de virmos a pagar um preço demasiado alto.

A produção automóvel representa uma parcela importante da economia europeia, no entanto, no momento em que é mais urgente operar uma mudança de paradigma no modo de transporte é que os governos europeus mostraram a sua incapacidade de impor as transformações necessárias a este segmento da produção.

O sector de transportes consome anualmente 1.500 milhões de toneladas de combustível e as perspectivas são de que este valor aumente constantemente ao longo dos próximos anos. A redução de emissões de GEE depende em grande medida de uma mudança profunda no sector de transportes. Esta é a mudança que o capitalismo tem incapacidade em operar. A lógica da acumulação de rendimentos é incompatível com a mudança para um modo de transporte que garanta a mobilidade de pessoas e bens de uma forma que tenha menos impacto para a sustentabilidade ambiental.

A produção de bioetanol e biodiesel que contribuem apenas para uma ínfima parte das necessidades mundiais de combustíveis geraram no início deste ano as maiores perturbações para a segurança alimentar. A produção dedicada de cereais para produção de combustíveis, associada à universalização dos OGM é a resposta capitalista à crise do petróleo mas tem impactos tremendos sobre o uso dos solos, a degradação das zonas florestais e a segurança alimentar. O caminho tem que ser situado no desenvolvimento e generalização de veículos movidos a fontes de energia renováveis, limitar zonas cada vez mais amplas dos perímetros urbanos aos transportes públicos e cicláveis, exigir uma moratória europeia a todo o novo investimento em rodovias e um plano europeu de limitação de transporte aéreo.

Estas são apenas algumas medidas dirigidas a um dos problemas mais urgentes. Não são suficientes. É preciso um programa rigoroso para o sector da electricidade que permita acabar com a produção eléctrica em centrais térmicas e nucleares. O desfecho que possa vir a ter a era do petróleo depende em muito da capacidade de impor um programa que conjugue a universalidade do direito ao conforto e à mobilidade com uma cultura de respeito pelos ecossistemas naturais. Esta conjugação só é possível através de uma agenda socialista para o clima e para a humanidade para que possamos pôr um fim à "Era do Petróleo" como uma passagem para a outra margem da vida da humanidade.

Alda Macedo

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Resto dossier

Temas que marcaram 2008

Neste dossier, doze textos sobre alguns temas que marcaram 2008.

Desfecho da Era do Petróleo

2008 termina com alguns recordes históricos, foi o ano em que explodiu a maior recessão das últimas décadas, em que se agravou dramaticamente a crise alimentar que deixa milhões de pessoas sem o alimento mínimo para a sua subsistência e o ano em que as tempestades decorrentes das alterações do clima se mostraram mais devastadoras, provocando os maiores custos em vidas e bens. Texto de Alda Macedo

Depois de Correia de Campos, mudou alguma coisa para tudo ficar na mesma

O ano de 2008 fica marcado pela demissão de Correia de Campos, esgotado e derrotado politicamente quer pela ampla movimentação popular contra a política de encerramento de serviços do SNS, quer pela contestação conduzida pelas forças de esquerda à estratégia privatizadora do ministro e do governo, na qual se envolveram destacados membros do PS. Texto de João Semedo

Balanço do Ensino Superior 2008

O ano de 2008 foi um ano de grandes mudanças e de redefinição do ensino superior em Portugal. Ficou marcado pela consagração de um novo regime jurídico para as instituições que institui novas regras de funcionamento e uma lógica associada ao gerencialismo e ao paradigma liberal da "nova gestão pública"; pela implementação em força do processo de Bolonha com todas as suas contradições e consequências; pelo decréscimo do investimento público (com o correlativo agravamento das despesas dos estudantes e das suas famílias) e pela asfixia financeira das escolas, sob os protestos de reitores e estudantes e a agressividade arrogante do Ministério; pela descoordenação e fraqueza relativa de resposta dos estudantes mediante todo este processo. Texto de José Soeiro

A convergência das esquerdas

1. O contexto

2008, do Teatro da Trindade à Aula Magna tiveram aí lugar assembleias de proximidade entre socialistas descontentes, o campo do Bloco, outros grupos políticos e personalidades. Dessas assembleias tudo se disse, sobejou a especulação jornalística. Importa talvez perceber as razões por que foram possíveis. Dizer que se trataram de espaços de crítica, muito contundente, ao governo do Partido Socialista, é dizer pouco. E, no entanto, esse era o ponto de partida: a condenação das políticas liberais que têm dominado. Nesse aspecto teve o eco previsto. Texto de Luís Fazenda

O precariado está a passar por aqui

Há apenas dois anos, quem recorresse a um motor de busca para obter informação sobre recibos verdes, aperceber-se-ia que quase não havia o que pesquisar, apesar de mais de um milhão de pessoas trabalharem nesta condição.
Dois anos depois, a Wikipédia tem uma entrada sobre recibos verdes e o endereço ‘recibos verdes' está registado.
Dois anos depois, muitos milhares de pessoas já ouviram falar de ‘falsos' recibos verdes.
Dois anos depois, os recibos verdes começam a ter algum peso político e mediático. Texto de Cristina Andrade

2008, o ano em que o planeta se revelou finito

2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais. Texto de Rui Curado Silva

Crise alimentar

O ano de 2008 foi marcado pela emergência de uma crise alimentar mundial profunda devido ao grande aumento do preço dos alimentos básicos. Texto de Rita Calvário

A grande recessão e o risco da deflação

O recentemente galardoado com o Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, tem uma carreira curiosa. Tendo escrito os seus principais contributos para a teoria económica há cerca de vinte anos, Krugman dedicou-se desde então à divulgação e ao debate das teorias económicas e, sobretudo, das opções dos governos do seu país, os Estados Unidos. Feroz crítico da economia especulativa de George Bush (e que tinha sido iniciada por Bill Clinton), já em 2005 Krugman tinha deixado o alerta: "A economia americana depende das pessoas venderem casas umas às outras, sendo as dívidas pagas com dinheiro emprestado pelos chineses". Texto de Francisco Louçã

Estados Unidos: um capítulo novo?

O neo-conservadorismo épico tinha morrido nas areias do Iraque e o neo-liberalismo do trickle-down tinha ruído nas lamas de New Orleans. O que aconteceu económica e politicamente nos Estados Unidos em 2008 foi apenas o início da escrita do capítulo seguinte de uma narrativa anunciada desde então. Texto de José Manuel Pureza

Professores: Projectar em 2009 o enorme capital de luta acumulado

No passado dia 1 de Março, quando várias centenas de professores se juntavam na Praça do Bocage, em Setúbal, para contestar o inacreditável e maquiavélico modelo de avaliação de desempenho docente, os jornalistas procuravam afanosamente colher declarações junto dos promotores da concentração. Mas quem eram esses promotores? Onde estavam? Texto de João Madeira

A tríade dos “B”s: Os três bancos que marcaram 2008

Do ponto de vista das instituições financeiras, este será, com certeza, um ano para recordar. A crise financeira poderá ser a causa (e consequência) de alguns dos episódios passados, mas não será com certeza réu único. Texto de Mariana Mortágua