Colonialismo Português

O debate público dos últimos meses tem mostrado o quão persistente é no inconsciente coletivo nacional a ideia de que o colonialismo português foi desprovido de preconceito racial e se caracterizou por uma dimensão humanista. Artigo de Pedro Schacht Pereira e Elsa Peralta, que participarão no debate “Colonialismo Português”, no Fórum Socialismo 2017.

23 de agosto 2017 - 22:46
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Guerra colonial - Foto wikipedia
Guerra colonial - Foto wikipedia

As declarações sobre o alegado pioneirismo português na abolição da escravatura, proferidas pelo Presidente da República durante a sua visita de estado ao Senegal em abril passado, lançaram uma controvérsia que promete arrastar-se durante muito tempo. Para além de factualmente imprecisas, tais declarações revestiram-se de um tom marcadamente lusotropicalista que, muito embora nunca tenha inteiramente desaparecido da esfera pública em Portugal, há muito tempo não se expressava com tanta desenvoltura no discurso de um chefe de estado. O debate público dos últimos meses tem mostrado o quão persistente é no inconsciente coletivo nacional a ideia de que o colonialismo português foi desprovido de preconceito racial e se caracterizou por uma dimensão humanista, alegadamente ausente em outras experiências coloniais europeias. Este discurso vem sendo devidamente questionado e desmontado por estudiosos em várias disciplinas e áreas do saber desde os anos 60 do século passado. A crítica tem incidido sobretudo na apropriação que o Estado Novo fez de ideias semelhantes veiculadas na obra tardia do sociólogo e antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, num período em que o colonialismo português em África passou a ser alvo de condenação internacional, e a natureza colonial da relação entre portugueses e africanos necessitava de ser edulcorada e transfigurada numa visão de cidadania multirracial e pluricontinental. No entanto, é possível demonstrar que a ideia de um colonialismo português “humano” e “benevolente” precede Freyre e deve ser entendida na longa duração, pois se manifesta periodicamente em diferentes períodos históricos. Durante a nossa conversa iremos referir três contextos distintos em que autores estrangeiros veicularam ideias pré-lusotropicalistas, no intuito de entender a diversidade de interesses que elas servem, e assim também o sucesso de uma ideologia que ainda hoje coloniza a memória que os portugueses têm da sua história moderna e contemporânea.

Esta é uma memória que corre a par com a apoteose do império criada e reproduzida no espaço público por várias instâncias públicas e regimes nacionais, pelo menos desde a Monarquia Liberal, passando pela I República e Estado Novo, até ao actual período democrático. Objecto de sucessivas reinterpretações nesta longa duração, a memória do império, já depurada da sua semântica colonial pela vulgata lusotropicalista, adapta-se particularmente bem ao momento pós-colonial. Dissociada das feridas deixadas pelas guerras coloniais, pela descolonização, e pelo retorno africano, a memória do império perde a sua dimensão política, para se centrar, de novo, na época áurea dos descobrimentos e nos argonautas de quinhentos. Aqui, o “Mar Português” representa a abertura do caminho para encontros culturais à escala global e para criação do mundo moderno, funcionando como uma metáfora para negociar o lugar simbólico de Portugal no novo espaço de identidade europeu, um espaço dominado por ideias de multiculturalismo e cosmopolitismo. As palavras-chave da nova retórica pós-colonial são a tolerância e o contato cultural, apropriados a linguagens globalizantes e operações de branding da Portugalidade, ligados ao turismo, ao comércio entre Portugal e antigos territórios coloniais e aos projetos da chamada diplomacia económica. Gentrificação, desenvolvimentos urbanos, intervenções patrimoniais, processos típicos do consumo pós-moderno, por um lado, e da nostalgia pós-imperial, por outro, alimentam uma indústria e uma política baseada na mercadorização da história. Alguns exemplos concretos de cultura pública serão também dados ao longo da conversa para ilustrar estes argumentos.

Artigo de Pedro Schacht Pereira e Elsa Peralta, que participarão no debate “Colonialismo Português”, no Fórum Socialismo 2017. O debate será domingo 27 de agosto, às 11.45h na Sala 2.

Pedro Schacht Pereira é professor de Estudos Portugueses e Ibéricos na Ohio State University, e Elsa Peralta é antropóloga e investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa, sobre “Colonialismo Português" no fórum Socialismo 2017.

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