“Deram-nos espelhos e vimos um mundo doente”
Renato Russo
A exploração do biocombustível proveniente do álcool produzido da cana traz outras questões embutidas nesta: a questão indígena e a luta pela terra.
Os trustes mais avançados do atual estágio do capitalismo unem-se para de todas as formas explorarem esse filão. Ameaçando, roubando, assassinando e destruindo para ocupar indevidamente terras a ser utilizadas para atender os seus interesses de lucro.
É o que está a acontecer neste momento no estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, na região centro-oeste do país.
A matriz dominante dos nativos da região vem dos Mbayá, um tronco Tupi, que fez uma aliança com os Payaguá-Guaikuru vindos da região de Assunção, do Paraguai. Aliança essa que desembocou na etnia dos tupis-guaranis.
Hoje, os Guaranis-Kaiowás, (Kaiowás, que quer dizer: os povos da floresta) ainda sobreviventes, são ameaçados de extinção por essa política genocida para a exploração da terra. Viviam da produção agrícola de subsistência, lavoura, caça e pesca numa região rica de ouro. A sua tecnologia produzia remos que transformavam em lanças com duas pontas, quando desciam o Rio Paraguai, do norte para o sul, com barcos carregados de ouro e pedras preciosas.
Todas as terras do Estado do Mato Grosso do Sul e do Norte, as mais cobiçadas para o cultivo da cana, são avaliadas como as mais adequadas para esse fim pelos que já a exploram para a produção do biocombustível, embora depois da primeira colheita a terra se tornar improdutiva para outro fim durante muito tempo, ou para sempre, se não houver o tratamento de recuperação. Essas terras foram conquistadas pelos tupis-guaranis em batalhas entre tribos, que se dava em bases de “ética” guerreira indígena.
Eram praticantes do rito antropofágico de devorar os inimigos, principalmente, os guerreiros. Devorá-los significava absorver a sua coragem.
Com o Tratado de Madrid, essa região, antes dominada pelos colonizadores espanhóis e as suas missões, passou ao domínio de Portugal. Revogou o Tratado de Tordesilhas, consagrando o principio do direito romano uti possidetis, ita possidatis (quem possui de facto, deve possuir de direito). Aplicando a lei de Sesmaria, dividia-se a terra submetendo-se as regras do instituto jurídico português, possibilitando a expropriação de terras improdutivas. A colonização avançava e a imigração crescente levou à região uma maioria de estrangeiros (bolivianos e paraguaios).
Os nativos sofreram com os saques e assaltos na Guerra do Paraguai (1864-1870). Perderam rebanhos de gado, cavalarias e foram debilitados por pestes e epidemias brancas. Ainda assim, sobreviveram. Mas, cada vez mais, como estrangeiros em sua própria terra.
A civilização branca, impondo os seus modos de produção, marginalizava os modos anteriores e impuseram os seus valores mercantis e religiosos, estes iniciados com os jesuítas ao serviço do Santo Ofício, que desde a sua implantação na região levava as suas percentagens do uso das terras exploração e produção.
Formou-se a elite de fazendeiros e latifundiários, que utilizaram formas violentas de dominação, com uso de jagunços armados e a exploração de mão de obra barata e reuniram as suas fortunas e poder político. É necessário lembrar que esses latifundiários sempre tiveram apoio de leis e do poder central do Brasil, que sempre se recusou a elaboração de uma reforma agrária planeada e com participação dos que trabalham na terra. Apesar de toda pressão popular.
Essa política gerou alguns nomes familiares a todos, naquele estado, garantindo o domínio dessas mesmas famílias, até hoje. Decorrente disso, temos ainda as maiores concentrações de terra nas mãos de poucos até hoje. Causa última das nossas maiores tragédias sociais. Inclusive as urbanas.
Nesse domínio, esses “senhores da terra” sempre negociaram os seus interesses conjugando-os com os interesses dos imperialismos económicos, fossem eles portugueses, ingleses ou norte-americanos, como ocorre agora com a exploração para a extração dos biocombustíveis ou do uso da água doce, pois ali também está a maior parte de reserva subterrânea de água, o aquífero guarani.
O destino dos nativos fica na dependência do seu poder de resistência, já comprovado através dos séculos, e a sua capacidade de organizar-se junto com os novos explorados, dos campos e das cidades, que com a sua unidade podem combater essa política de rapina executada por exploradores, que sempre põem os seus interesses pessoais, ainda que nocivos à sociedade e ao planeta, acima dos interesses da manutenção da vida e necessidades sociais da humanidade.
A luta que se coloca aos Guaranis-kaiowás é uma luta de vida ou morte. A mesma luta dos trabalhadores da terra, do proletariado urbano contra o inimigo comum: o capitalismo explorador do homem pelo homem, seja ele representado pelo latifundiário, pelo político corrupto, pela justiça inerte, trustes financeiros de Wall Street, burocratas do Kremlin, oligopólios, generais do Pentágono ou a troika europeia.