José Manuel Pureza

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda

Encarcerar os imigrantes cuja irregularidade é detetada na fronteira é uma cedência irresponsável a essa fantasia perversa de quem inventa invasões e violações em massa para surfar o alarme que cria.

É precisa uma reforma da Justiça. Uma reforma que faça cumprir a lei nas prisões, que retire os/as advogados/as das malhas da precariedade e da desproteção social. Uma reforma que faça justiça a quem trabalha na justiça, terminando com a desconsideração dos/as funcionários/as judiciais.

A escolha política fundamental é clara: ser complacente com a impunidade que nos priva de meios para os serviços públicos e para o rendimento dos de baixo ou ser responsável e exigir responsabilidade para que o dinheiro de todos seja para todos e não para o gozo de poucos.

O algodão não engana: somos um país com mais de dois milhões de pobres. E seriam o dobro se não fosse a operação de prestações sociais que minoram esse alcance. Somos um país em que a principal causa de pobreza são os baixos salários.

O modo como tratamos os imigrantes (em Odemira e um pouco por toda a parte) – mantendo uma indiferença irresponsável face à pantanização das suas vidas – é o teste do algodão aos direitos humanos em Portugal. E o algodão está sujo.

O que o país alheado da realidade descobriu com os milhares de mortes nos lares não se muda com melhores lares. Muda-se com mudança de muitas coisas na sociedade para que a cidadania e os direitos dos mais velhos sejam o princípio e não a exceção.

O mandato que recebemos dos autores do 25 de abril é o de fazer dele um programa sempre por cumprir. Sempre o dia seguinte como exigência, sempre um 26 de abril que seja um passo adiante do 25 de abril.

A corrupção que mina a democracia – a dos milhões muito mais que a dos tostões – é cada vez mais ágil no recurso aos mecanismos de lavagem que a globalização engendrou, como os vistos gold ou os offshores.

No percurso andado até agora no processo Marquês, está tudo o que deve merecer preocupação: lentidão processual; fragilidade processual da acusação; lutas corporativas; violação do segredo de justiça; jogo mais que dúbio entre os cânones formais e a materialidade indesmentível dos factos.

A democracia tem uma dívida de gratidão para com aqueles homens e mulheres que deram corpo à rutura do campo católico com a ditadura e a guerra colonial. Maria da Conceição Moita – a Xexão – foi um nome maior desse combate.