Deve a esquerda viabilizar um orçamento que põe na coluna do certo a contenção da despesa e na coluna do incerto a regulação das carreiras médicas e de enfermagem, a subida minimamente justa dos salários e tudo o mais que vá além da pilotagem à vista?
O que é revoltante na operação dos offshores é muito mais que a lavagem de dinheiro, é a institucionalização de uma duplicidade de regimes fiscais: um regime de favor para ricos a par de um regime de sacrifício para pobres e classes médias.
Erram os que partem para este debate com a tese, meio ingénua meio cínica, de que a tecnologia é politicamente neutra. Não é. A videovigilância – seja com suporte fixo, seja sobretudo com bodycams – é um meio de visibilizar e de invisibilizar.
A falta de ambição transformadora é a marca da governação atual e a forma como foi concebida e será executada a bazuca de dinheiros europeus é a confirmação inequívoca de que assim vai ser. Não se tocará em nada de verdadeiramente essencial.
Seguir o rasto do dinheiro com que a extrema direita financia as suas campanhas contra a igualdade de género permite-nos desmontar duplamente a ficção de que a extrema direita é “contra o sistema”.
O capitalismo que tem desfilado nas comissões parlamentares de inquérito sobre a promiscuidade entre gestão ruinosa de bancos e acesso privilegiado a créditos por empresários sem história nem memória é o mesmo capitalismo que comanda a estrutura acionista da indústria do futebol.
A luta dos/as advogados/as pelos seus direitos e por uma proteção social efetiva não terminou com este referendo. Pelo contrário, subiu de intensidade. Os/as advogados/as querem que se cumpra a Constituição, que estatui a regra da unidade da segurança social.
Somos suspeitos e somos mercado – e, em ambos os casos, somos objetos da vigilância do big brother e de decifração fina do que pensamos, do que gostamos, do que apoiamos ou do que rejeitamos.
Está a chegar dinheiro a rodos da União Europeia, dizem que para garantir a nossa resiliência. Pois bem, tanto dinheiro é uma oportunidade única para mudar as vidas destes grupos e de todas as pessoas que têm estado a vida inteira a recuperar de adversidades.
No SNS, o estado de necessidade não foi um momento. É uma condição. E é a determinação em o assumir, contra a estreiteza estratégica da contenção orçamental, que a democracia cada vez mais exige.