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A bola não é redonda

O capitalismo que tem desfilado nas comissões parlamentares de inquérito sobre a promiscuidade entre gestão ruinosa de bancos e acesso privilegiado a créditos por empresários sem história nem memória é o mesmo capitalismo que comanda a estrutura acionista da indústria do futebol.

A detenção e o inquérito judicial de Luís Filipe Vieira, tanto quanto se sabe, radicam no uso de engenharias financeiras, fiscais e societárias – incluindo reestruturações de favor de dívidas milionárias – para iludir obrigações várias e conseguir acumulação fácil de capital. O futebol terá sido um ingrediente circunstancial da marosca. Circunstancial porque, aparentemente, terá sido um clube de futebol a ser o mais imediatamente lesado pelas artimanhas do empresário (sendo todo o país lesado a seguir porque é o país inteiro que está a pagar os cambalachos dos créditos irresponsavelmente atribuídos aos nossos capitalistas de pacotilha). E circunstancial também porque se dá a circunstância de Luís Filipe Vieira ser presidente do Benfica. E aqui o circunstancial torna-se fundamental.

Não foi o presidente do Benfica que foi detido, foi o autor de operações financeiras nebulosas e grande devedor à Caixa e o beneficiado com informação privilegiada do Novo Banco para as suas operações de serviço a Ricardo Salgado e para o tilintar incessante na sua caixa forte de Patinhas. As transferências de jogadores e o benefício pessoal com o labirinto opaco dos agenciamentos, sendo porventura relevantes, não serão o centro deste caso. Não é, portanto, essencialmente um caso da bola. Mas o atravessamento do futebol neste enredo é incontornável.

No mundo das direções das SADs futeboleiras abundam os negócios blindados, as vias rápidas entre offshores e escritórios de advogados, os corredores entre autarquias e construtores civis, as holdings de holdings de holdings. O que ali domina é o estratagema e o poder ardiloso, não a lei aplicável a todos. E esse mundo paralelo à lei tem relações íntimas com um sistema financeiro apontado à constituição de elites.

O capitalismo que tem desfilado nas comissões parlamentares de inquérito sobre a promiscuidade entre gestão ruinosa de bancos e acesso privilegiado a créditos por empresários sem história nem memória é o mesmo capitalismo que comanda a estrutura acionista da indústria do futebol. São duas faces da mesma moeda. Esse universo de justaposição entre o opaco do futebol e o opaco do sistema financeiro tem sido uma espécie de dark web impenetrável.

Está a deixar de o ser, graças à determinação e ao trabalho aturado de parlamentares. E também aqui se faz a separação de políticas. Não se pode surfar a popularidade clubística para rendimentos eleitorais e, ao mesmo tempo, defender o rigor da lei sobre os seus maiores. A política não pode ir em futebóis.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 13 de julho de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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