Gilbert Achcar, escritor e investigador em relações internacionais, analisa a próxima cimeira da NATO e a estratégia da Casa Branca para o Médio-Oriente após o colapso da guerra no Iraque.
Entrevista com Gilbert Achcar
"Obama é um continuador dos últimos anos de Bush"
O escritor e investigador em relações internacionais falou ao esquerda.net das dificuldades que a NATO enfrenta nas vésperas da cimeira de Lisboa, do recrudescimento da oposição à guerra nos EUA e na estratégia da Casa Branca para o Médio-Oriente após o colapso da guerra no Iraque.
A poucas semanas da vinda da NATO a Lisboa, o que há a destacar na agenda dessa cimeira?
Creio que a NATO enfrenta pelo menos dois tipos de problemas: um diz respeito ao alargamento, uma vez que a Ucrânia e a Geórgia já estão na agenda dessa expansão. Mas a mudança de governo na Ucrânia já afastou essa perspectiva, pelo menos no imediato. Este é um assunto ligado à relação entre a NATO e a Rússia, tendo esta expansão como pano de fundo.
O outro problema é o envolvimento da NATO em operações fora do seu território, por causa da impopularidade crescente da guerra, pelo menos entre os aliados dos EUA que são membros da NATO. As opiniões públicas destes países opõem-se firmemente à continuação desta guerra.
Como vês o movimento antiguerra hoje, após o declínio que se seguiu à invasão do Iraque?
O movimento atingiu o auge em Fevereiro de 2003, mas acreditar que seria suficiente para travar a guerra seria uma ilusão. O único sítio onde um movimento poderá parar uma guerra dos Estados Unidos é nos Estados Unidos. Em 2003, o movimento era importante lá, mas nunca chegou ao ponto de representar uma pressão de massas como a que contribuiu para acabar com a guerra do Vietname.
Esta é a chave da questão: o que se passa no resto do mundo tem uma importância muito secundária para Washington. Mas não nos podemos esquecer que a guerra no Iraque, que começou com altas taxas de popularidade, acabou com baixa popularidade. E isto explica porque a administração Obama avançou para a evacuação de militares do Iraque. Para lá das dificuldades encontradas pelos EUA, isto tem a ver com a impopularidade da guerra dentro dos EUA.
Eu creio que isto são sinais positivos para o futuro do movimento antiguerra. Ao fim deste período iniciado com o 11 Setembro e a "guerra ao terrorismo", temos agora um recomeço da hostilidade por parte da opinião pública, até nos EUA, face a intervenções militares no estrangeiro.
Encontras alguma diferença na estratégia para o Médio-Oriente após a chegada de Obama à Casa Branca?
Basicamente, Obama não representou uma descontinuidade com os anos Bush, ao contrário do que muitos esperavam. Foi em 2006 que essa descontinuidade teve lugar, ainda no mandato de Bush, quando o projecto da sua administração para o Iraque colapsou. Houve aí um esforço de ambos os partidos para mudar a política e 2006 foi o ponto de viragem, com muitas medidas impostas à administração Bush. Foi aí que os neocons foram afastados e até Rumsfeld foi afastado do governo.
O facto de Obama ter mantido o mesmo secretário da Defesa, Robert Gates, é indicativo do facto de que Obama é um continuador dos últimos dois anos da administração Bush. Com algumas diferenças, o que ambos tentam fazer é terminar o seu envolvimento directo nos combates no Iraque, embora mantendo o poder de influência. Por exemplo, "comprando" as tribos sunitas nas regiões onde se concentram os focos insurgentes contra a ocupação.
Eles querem continuar o jogo de dividir para reinar, com os sunitas e xiitas, para perpetuar o seu papel arbitral no país. E tentam agora fazer o mesmo no Afeganistão, comprando um sector dos talibãs.
Eles sabem que não podem vencer militarmente. E o Afeganistão é um bom exemplo dessa situação.