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SNS, a resposta à pandemia

Como médica do SNS, sei onde quero estar e com o que quero contar. E no maior desafio das nossas vidas, é bom contar com um SNS que seja de todos e todas, em tempos de acalmia e de pandemia.

Vivemos atualmente o maior desafio das nossas vidas. A pandemia provocada pelo SARS-CoV-2, genericamente conhecido como novo Coronavírus, põe à prova o Serviço Nacional de Saúde de uma forma sem precedentes, e para a qual seguramente nenhum país está preparado. Não imagino enfrentar tamanha crise sem um SNS público, unido e construído por profissionais com espírito de missão.

Uma pandemia desta dimensão exige uma resposta concertada, a nível nacional e também internacional, assente numa cadeia de comando com dimensão não apenas técnica, mas também política. Exige hospitais, centros de saúde e laboratórios capazes de se reorganizar e canalizar recursos para a resposta à emergência, mesmo num cenário que sabemos ser desfavorável e de risco. E exige profissionais que, mesmo conscientes do risco que correm, não olham para trás e oferecem-se para trabalho extra, sacrificando as suas famílias e a si próprios, para estarem na linha da frente. A reposta que esta crise exige só é possível porque a preocupação não é o lucro, mas sim salvar o maior número de pessoas da doença. Mesmo que isso tenha custos inevitáveis para as instituições e para os profissionais que as fazem funcionar.

As dificuldades são muitas e nem tudo funciona como devia. As falhas são conhecidas: a Linha Saúde 24 que não responde, os equipamentos de proteção individual que faltam, a orientação dos casos suspeitos que demora. Há ainda muita margem para melhorar e não devemos deixar de o exigir.

Mas olhemos para os Estados Unidos, por exemplo. Um sistema de saúde assente essencialmente na iniciativa privada, com um apoio muito fraco para os mais desfavorecidos e sem uma entidade de saúde pública com dimensão política e técnica que coordene as ações a nível nacional. O resultado é que cada estado e cada instituição segue as suas próprias regras e as pessoas que não têm acesso a um bom e caro seguro de saúde ficam desprovidas dos cuidados necessários, incluindo testes para COVID-19 e cuidados intensivos.

Vamos sem dúvida ultrapassar esta crise. Não o faremos sem perdas, não o faremos sem custos para cada uma e cada um de nós. O SNS estará com certeza de rastos no final disto tudo. E essa será a hora de refletir e debater com seriedade. Quem estaria disposto a perder lucros com cirurgias, exames e consultas para tratar uma doença para a qual não se conhece uma terapêutica comprovada? Que profissionais trabalhariam as horas que fossem necessárias sob risco de se infetarem? Que serviço de saúde se mobilizaria para a nova pandemia, sem descurar os cuidados em segurança aos doentes crónicos?

Como médica do SNS, sei onde quero estar e com o que quero contar. E no maior desafio das nossas vidas, é bom contar com um SNS que seja de todos e todas, em tempos de acalmia e de pandemia.

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