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Os trabalhadores não podem ser um dano colateral da transição energética

A transição energética é só um negócio empresarial milionário e quem fica sem trabalho [as vítimas da transição] come com a família de onde, paga a renda de casa de onde?

Na Revista Esquerda #2 escrevi o artigo “Ganhar o futuro, vencer o medo”.

Com o encerramento da Central Térmica de Sines, parece-me ser útil voltar ao tema.

Recordo o trecho:

“O percurso da história é claro: os capitalistas também competem entre si, criando e desenvolvendo novos modos de produção e novos produtos que vençam os mais atrasados e continuem a concentração de capital na globalização.” Nós, que só vivemos do nosso trabalho, não podemos ter ilusões num capitalismo verde. Este, não deixa de ser capitalista e a digitalização não diminui a exploração…

Também não podemos encarar as novas tecnologias como muitos operários encararam a máquina a vapor: destruindo-a. Negar as alterações climáticas e a degradação do planeta tornar-se-á, objetivamente, um apoio ao capitalista mais poluente e conservador. Essa atitude está inevitavelmente derrotada…

Daqui decorre uma necessidade: os trabalhadores não podem ser um dano colateral da transição energética!

Para tal há perguntas que o governo tem de responder:

- No Fundo de Transição Energética Justa qual a parte que cabe a quem trabalha? Quanto? Como? Quando? De que modo?

- Vai o governo revogar as leis de trabalho do governo Passos Coelho para não penalizar tanto quem fica desempregado? Indemnizações, período do subsídio de desemprego…?

- O governo está a licenciar grandes produções em energia solar, qual o contributo destas empresas para a transição da vida das “vítimas da transição”?

- A transição energética é só um negócio empresarial milionário e quem fica sem trabalho [as vítimas da transição] come com a família de onde, paga a renda de casa de onde?

- Que estabilidade laboral e que futuro se garante aos precários e subcontratados, vão vender bolas de Berlim para a praia? Não nos venham com anúncio de ações de formação de fingimento e humilhações de “procura ativa de emprego”… Já nos chegou o PSD!

- Que responsabilidades é que o governo obriga a EDP a assumir sobre os precários e subcontratados de cujo trabalho anda a usufruir a custos baixos há vários anos?

- A pandemia não é motivo suficiente para mostrar a necessidade de fabricação própria, por exemplo de painéis solares? Se a transição é uma aposta estratégica do governo porque não nacionalizou a MSF, em Moura, em vez de a deixar fechar porque isso é o mercado!?

- Porque o Ministro do Ambiente não fala concreto, em vez de dizer generalidades [https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/noticia…] e banalidades de uso comum?

- O governo quer assumir algum plano / compromisso concreto, com o sindicato que representa a maioria dos trabalhadores, o SIEAP, para a transição dos postos de trabalho para a nova fábrica de produção de hidrogénio em Sines e não “inquietações” da treta?

- Já agora, o Presidente da República não quer ir tirar uma selfie a Sines e dizer algo que se comprometa? Também tem praia!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Energia e Águas de Portugal, SIEAP.
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