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Os idosos contra o vírus I: invocar Santa Bárbara quando troveja

Quantas vezes ouvi críticas ao alertar para a necessidade de fiscalização apertada aos lares e outras instituições de apoio aos seniores? Perdi-lhes a conta. As críticas nunca me convenceram que estava errada, nunca me demoveram.

Ontem foi o dia D em matéria de alerta para a situação de muitos idosos. Se alguém pensou que o interior era uma faixa territorial mais ou menos perpendicular à fronteira leste com Espanha, desengane-se. Se o interior é sinónimo de abandono, esquecimento, de salve-se quem puder, então, o interior começa bem no centro de cidades afastadas daquela linha fronteiriça. O interior está bem implantado no coração de aglomerados populacionais activos, conhecidos. Ontem foi o dia D. Começaram a circular informações, imagens, dados. Primeiro um pouco desgarrados, mas ao longo do dia mais consistentes. E estamos no princípio. Não sou catastrofista mas a procissão vai no adro.

Primeiro, foi a notícia sobre um lar privado em Famalicão. Pessoal infectado, inapto para o serviço. E alguns residentes. Sem material de protecção, sem preparação específica para enfrentar uma crise destas, sem uma sala de isolamento, com um delegado de saúde a demorar horas para acudir e ajudar a tomar providências. O local idílico como a reportagem revelava esconde no seu seio mazelas inaceitáveis.

Depois, o padre de uma aldeia perto de Mangualde que teimou em dizer missa. Uma tacanhez bem patenteada nas declarações do próprio à repórter. Uma obstinação, qualquer coisa de tão profundamente medieval que é difícil aceitar. Será que o bispo o chamará à razão? Suspender seria o caminho. À sua escala, transgrediu o decretado pelo estado de emergência.

Ainda pouco refeitos, cai a notícia sobre o Asilo de São José em Braga. Asilo… na presunção de que este era um país desenvolvido, para mim asilo seria uma palavra no dicionário, imaterial. Enganei-me. Alguns casos, isolados, o resto tudo a funcionar…o problema é a falta de equipamento de protecção. Suponho que se referem a batas, luvas, desinfectantes. Como é que está a funcionar?! Quem é que pode ir ao Asilo implementar medidas na tentativa de controlar a situação?

Ah, agora a cereja no topo do bolo. Eis que se ouvem os responsáveis. Dizia um que, desde o princípio, está um pouco assustado (sic) porque as empregadas (sic) não têm material de protecção enquanto aproveitava para bicar a proposta do governo e da DGS sobre a necessidade de um plano de contingência, uma proposta tonta (sic). A este responsável, seguiu-se um outro que sugere a requisição civil dos funcionários da Segurança Social que deveriam apresentar-se nas instituições de solidariedade social. Para fazer o quê, pergunto. O dito responsável está desorientado, em pânico, não garante o sangue frio inerente a um responsável. Depois, ainda uma senhora que se lamentava do facto das funcionárias de um determinado lar estarem a trabalhar 12 horas seguidas, que estavam exaustas. Não me admira; mas se as mesmas funcionárias trabalham 12 horas seguidas porque não têm substitutas, então, é porque no quadro de pessoal não há número suficiente para mais de dois turnos o que significa que a situação de exploração não aconteceu com o Covid19, vem de trás. A diferença é que a situação agora é de guerra, não se consegue atamancar. Estes lares, estes asilos e outras instituições de apoio social, já se percebeu, vão ser um campo privilegiado para a propagação do Covid19, ouviremos relatos de indignidades, situações onde a humanidade é ignara.

Não é o tempo de gastar energias a analisar comportamentos ou a atribuir responsabilidades. O tempo escasseia mas quando tudo isto abrandar e a vida voltar ao (quase) normal, vamos ter de pedir contas a quem tem levado as suas funções de coordenação do sector social de forma tão ligeira. O governo terá de rever legislação e nós, sociedade civil, teremos de nos mobilizar para exigir mais responsabilidade na defesa de um verdadeiro Estado Social. Por agora, foquemo-nos no cumprimento das regras em prol da saúde pública e no reforço do Serviço Nacional de Saúde.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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